Duas forças opostas atuaram na bolsa nesta sexta-feira (25). Do lado positivo, estavam as empresas de mineração e petróleo, que juntas representam uma fatia considerável do Ibovespa. No campo negativo, o risco fiscal e o dólar em avanço fizeram os juros subirem mais uma vez, tirando o brilho já ofuscado da renda variável local.
Pela maior parte do dia, o índice chegou a subir, com impulso de Vale, que avançou 3,40% após balanço dentro do esperado e fechamento do acordo com a Samarco para reparação da tragédia de Mariana, Minas Gerais, em 2015. Mas ao fim do dia, prevaleceu a cautela, o que consolidou mais uma semana de perdas para a carteira teórica.
Nas horas finais, o Ibovespa firmou queda de 0,13%, perdendo mais uma vez patamar dos 130 mil pontos. Aos 129.983 pontos, o índice ainda acumulou queda de 0,46% na semana, de 3,20% no ano e 1,46% no mês.
O volume financeiro foi de R$ 13,5 bilhões no índice, abaixo da média diária de R$ 16,6 bilhões registrada nos últimos 12 meses. A Vale foi responsável por R$ 2,4 bilhões em negociações.
De acordo com Christian Iarussi, especialista em mercado de capitais e sócio da The Hill Capital, os momentos de alta da bolsa são impulsionados pelos bons resultados das empresas e pelo aumento nos preços das commodities, mas a cautela nos mercados impede um tom mais otimista.
“O mercado está cada vez mais cético com as promessas de cortes de gastos. O governo fala muito, mas até agora não mostrou nada de concreto, o que só gera mais desconfiança. Além disso, o aumento dos investimentos fora do arcabouço fiscal, mantém o alerta, alimentando a percepção de que a situação pode piorar”, avalia.
As incertezas do lado fiscal também contribuíram para a alta do dólar, segundo o especialista. Mas o câmbio sofreu ainda interferência de fatores externos. Com uma eleição indefinida nos Estados Unidos, uma política monetária ainda em aberto lá e cá e notícias de economia fraca na China, muitos investidores preferem a segurança do dólar neste momento. Com isso aumenta a procura pela moeda, que é redirecionada para outros mercados e se torna mais escassa e mais cara no Brasil.
Assim, o dólar comercial fecha mais uma vez com alta de 0,74, negociado a R$ 5,70. No ano, a valorização já ultrapassa de 17,5%. Somente em outubro, a moeda americana ficou 4,73% mais cara.
Em conjunto com outros indicadores econômicos, o dólar alto é um dos responsáveis pelo avanço das taxas de juros nos contrados de Depósito Interbancário com vencimentos mais curtos. Afinal, a desvalorização do real tende a gerar mais inflação, o que gera pressão para um aumento da taxa básica de juros (Selic).
‘A inflação continua sendo uma preocupação séria, o que dificulta o trabalho do Banco Central em manter os juros controlados. Com tudo isso, não vejo um cenário de alívio imediato nos juros, pelo menos até que medidas fiscais concretas sejam anunciadas e, de preferência, implementadas de forma convincente”, afirma Iarussi.
Depois de uma sessão de descompressão na quinta-feira (24), motivada por comentários do ministro Fernando Haddad e do presidente do Banco Central Roberto Campos Neto, as taxas voltaram a subir.
A Taxa de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2025 teve a menor variação do dia, se mantendo praticamente estável, saindo de 11,23% para 11,24% ao ano. Há um mês, a taxa estava em 10,99%. Prêmios em contratos de curto prazo estão mais ligados às expectativas de investidores para a Selic;
No médio prazo, houve avanço de 1,18% nos retornos para janeiro de 2029, que passaram de 12,68% para 12,83%. Em 25 de setembro, os juros para este contrato eram de 12,24%;
Já para janeiro de 2034, a taxa foi de 12,49% para 12,61%.Um mês atrás, essa taxa batia em 12,15%.Vencimentos com prazos mais longos refletem uma maior a preocupação com calote do governo.
O avanço dos juros nos Estados Unidos também influencia as tasxas locais. Como país emergente, os juros por aqui precisam se ajustar para se manter atrativos frente aos títulos americanos, considerados os mais seguros do mundo. Se no Brasil o risco fiscal e a inflação tem sido os principais motivos para aumento dos juros, nos Estados Unidos eles estão ligados à eleição e dados recentes da economia.
Empresas
Das 86 ações do Ibovespa, 66 encerram o dia em queda. Na semana, o placar fica menos desfavorável, com recuo de 50 papéis e avanço de 35. Em os papéis mais importantes, todo o setor bancário encerrou o dia em queda.
A Petrobras e sua turma de petroleiras tiveram mais um pregão de alta, mas ainda assim encerram a semana em queda. Somente a estatal se mantém em valorização no acumulado do ano.
A Vale foi a principal força positiva do pregão, subindo com força após resultado do terceiro trimestre e acordo de Mariana, assim, a empresa encerrou a semana com alta de 1,95%. As siderúrgicas também conseguiram se posicionar bem nesta sexta-feira, com mas sem a mesma força das mineradoras que apresentaram seus balanços.
A nova alta nas taxas de juros prejudicaram empresas como varejistas e incorporadoras. Ao contrário das exportadoras de commodities, todas os setores que atuam no mercado doméstico foram penalizadas.
Quando as companhias dependem de um juro mais baixo, crédito mais barato e ambiente de consumo pujante, elas tendem a encontrar um ambiente mais favorável quando as taxas entram em declínio.
Outro destaque negativo foi a Hypera. As ações da empresa lideraram as quedas do Ibovespa. “A possibilidade de uma fusão com a EMS continua no radar, de acordo com analistas. Ontem, após a negativa do conselho da farmacêutica, as ações chegaram a registrar uma queda de 7%”, pontua Iarussi.
Fonte: O Globo