Pagamentos milionários, operações de consignado e relações no entorno do governo Lula ampliam a dimensão política da crise
Em dezembro de 2024, Daniel Vorcaro atravessou os corredores do Palácio do Planalto para uma reunião fora da agenda oficial com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na mesa estavam também Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda, e Gabriel Galípolo, então diretor do Banco Central.
Naquele momento, o controlador do Banco Master já operava uma engrenagem bilionária com base em crédito estruturado, consignados e ativos de risco que, meses depois, acabaria no centro de uma investigação sobre gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro, manipulação de mercado e organização criminosa. O avanço das apurações revelou que o banqueiro havia criado uma rede que conectava o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Supremo Tribunal Federal (STF).
Um dos principais elos dessa rede aparece no nome de Guido Mantega. O ex-ministro da Fazenda passou a atuar como consultor ligado ao grupo financeiro de Vorcaro e recebeu cerca de R$ 1 milhão por mês pelas consultorias. Pessoas ligadas às negociações apontam o senador Jaques Wagner (PT-BA) como um dos articuladores da aproximação entre o banqueiro e integrantes do núcleo político do governo Lula.
As ligações entre o PT e o Master
A Bahia se transformou numa das frentes mais sensíveis do escândalo porque parte da engrenagem financeira do Master passava pela Credcesta, operação criada em 2007 nos governos petistas baianos como um cartão destinado a servidores públicos estaduais. Com o tempo, o Credcesta deixou de funcionar apenas como um cartão de benefícios para servidores públicos e passou a alimentar uma estrutura financeira mais ampla. Os empréstimos consignados gerados pelo programa eram pagos por meio de descontos automáticos nos salários dos servidores, o que reduzia o risco de inadimplência e tornava essas dívidas atraentes para o mercado financeiro. O Master agrupava milhares desses contratos em grandes carteiras de crédito e usava os valores que ainda seriam pagos pelos servidores ao longo dos anos para estruturar operações financeiras. A partir dessas carteiras, o banco emitia debêntures — títulos vendidos a investidores para captar dinheiro imediatamente — lastreadas nos pagamentos futuros dos consignados. Foi justamente essa estrutura que entrou no radar das investigações que envolvem o Master.
Entre 2021 e 2023, o BTG Pactual comprou R$ 1,1 bilhão em carteiras originadas dessas operações ligadas ao Credcesta e ao Master. Com a venda dessas carteiras, o grupo de Vorcaro antecipou ao menos R$ 1,6 bilhão.
Em apenas três operações envolvendo debêntures associadas ao consignado Credcesta/Master, o banco de Vorcaro recebeu R$ 1,2 bilhão. Os créditos estavam ligados a descontos automáticos em folha de pagamento de aposentados e pensionistas do INSS, além de servidores públicos da Bahia, de São Paulo e do Rio de Janeiro.
A primeira grande operação ocorreu em dezembro de 2021 e movimentou cerca de R$ 430 milhões. Depois, o fundo Alternative Assets I, ligado ao BTG, comprou R$ 200 milhões na segunda emissão, R$ 300 milhões na terceira e R$ 350 milhões na quarta emissão de debêntures relacionadas ao consignado Credcesta/Master.
As investigações começaram quando autoridades passaram a questionar a qualidade, o lastro e a composição dessas carteiras. Parte das suspeitas envolve a forma como os ativos eram estruturados, empacotados e revendidos a outras instituições financeiras. Investigadores passaram a analisar se os valores atribuídos às carteiras de consignado correspondiam à capacidade real de pagamento dos contratos, além de possíveis fragilidades nas garantias dos recebíveis — isto é, do dinheiro que ainda seria pago pelos servidores ao longo dos anos.
STF entra em cena
A questão política surgiu porque toda essa estrutura se desenvolveu dentro da Bahia governada pelo PT há quase duas décadas. Durante o governo Rui Costa, um decreto publicado em 2022 restringiu a portabilidade dos consignados ligados ao programa. Essa medida dificultou que servidores públicos transferissem seus empréstimos para outros bancos em busca de juros menores.
O entorno familiar de Jaques Wagner também entrou no radar. A BK Financeira, empresa ligada à nora do senador petista, recebeu ao menos R$ 11 milhões do Banco Master entre 2022 e 2025. A empresa pertence a Bonnie de Bonilha, casada com Eduardo Sodré, enteado de Wagner e secretário de Meio Ambiente da Bahia. Segundo informações surgidas durante as apurações, os pagamentos estavam ligados à prospecção de operações de crédito consignado, indicação de convênios e intermediação de negócios financeiros relacionados ao setor de consignados públicos e privados. O advogado Moisés Dantas, sócio da empresa, afirmou que os pagamentos não tinham relação com consultoria política, mas com “prospecção e indicação” de operações financeiras. Wagner negou participação nas negociações.
À medida que as investigações avançavam sobre a estrutura financeira do Master, o caso começou a atingir o STF. Documentos enviados à CPI do Crime Organizado mostram que o escritório de advocacia ligado à mulher de Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, recebeu mais de R$ 80 milhões do Banco Master entre 2024 e 2025. Os pagamentos teriam ocorrido por contratos de prestação de serviços jurídicos ligados ao grupo financeiro de Vorcaro. Relatos surgidos durante as investigações também mencionam viagens realizadas em aeronaves associadas ao banqueiro. Moraes nega irregularidades. O escritório afirma que os contratos foram legais e regularmente executados.
Outro nome que apareceu no entorno do caso foi o do ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski. O Master firmou um contrato de consultoria jurídica e institucional com o escritório da família do ministro entre agosto de 2023 e setembro de 2025. Esse acordo previa pagamentos mensais de R$ 250 mil e rendeu cerca de R$ 6,5 milhões ao escritório Lewandowski Advocacia. Segundo as apurações, aproximadamente R$ 5,25 milhões foram pagos depois que Lewandowski já havia assumido o Ministério da Justiça no governo Lula. O contrato incluía consultoria estratégica e participação em reuniões do comitê do banco. Jaques Wagner confirmou ter indicado o nome de Lewandowski ao Master, depois de uma consulta realizada pela instituição financeira.
Já o nome do ministro Dias Toffoli passou a circular com força no escândalo depois que a Polícia Federal (PF) encontrou, no celular de Vorcaro, referências a pagamentos ligados à empresa Maridt Participações, associada à família do magistrado. As mensagens também mencionavam convites para encontros sociais e contatos entre o banqueiro e pessoas próximas a Toffoli.
A investigação passou a analisar operações relacionadas ao Tayayá Resort, no Paraná, empreendimento que teve participação de irmãos de Toffoli e acabou vendido a estruturas financeiras ligadas ao entorno de Vorcaro. Segundo documentos revelados durante as apurações, um fundo associado ao banqueiro movimentou cerca de R$ 35 milhões em operações relacionadas ao resort. O operador financeiro Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, comprou parte da estrutura societária ligada ao empreendimento. Além disso, os irmãos de Toffoli venderam participação no resort por aproximadamente R$ 6,5 milhões.
O caso ganhou dimensão maior porque Toffoli assumiu a relatoria das investigações do Master no STF em novembro de 2025. Dias depois, pôs trechos do processo sob sigilo e suspendeu medidas de quebra de sigilo determinadas pela CPMI que investigava fraudes no INSS. Em dezembro, Toffoli marcou uma acareação sigilosa entre Daniel Vorcaro, Gabriel Galípolo (então diretor do Banco Central) e Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB. O encontro ocorreu durante o recesso do Judiciário e discutiu operações financeiras envolvendo o Master e o banco estatal do DF. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, tentou suspender a audiência, ao classificar a medida como prematura. Contudo, Toffoli manteve a decisão. A pressão política aumentou depois que a CPI do Crime Organizado aprovou a quebra dos sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemático da Maridt Participações. Pouco depois, o ministro Gilmar Mendes anulou a medida. Em fevereiro deste ano, Toffoli decidiu deixar a relatoria do caso.
Vorcaro acabou preso durante o avanço das investigações. Pouco depois, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master.