No folclore do futebol brasileiro, quem marca três gols na mesma partida ganha o direito de pedir música no tradicional programa dominical. Se a regra valer para as páginas policiais e políticas, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, já pode começar a preparar sua playlist. Pela terceira vez, o filho primogênito do presidente da República se vê no centro de uma investigação formal pelo mesmíssimo motivo: suspeita de tráfico de influência.
A trajetória de Lulinha como o “fenômeno” dos negócios começou a chamar a atenção ainda no primeiro mandato de seu pai. O primeiro caso emblemático envolveu a famosa Gamecorp e a gigante de telecomunicações Telemar — que viria a se tornar a Oi. Na época, a concessionária injetou cifras milionárias na modesta empresa de jogos do filho do presidente. Anos de apuração da Polícia Federal se seguiram, a oposição esbravejou na Câmara, mas o desfecho foi o retrato da impunidade estrutural do país: em 2012, o inquérito foi sumariamente arquivado pela Justiça Federal, a pedido do Ministério Público, por “falta de provas”.
O segundo capítulo veio na esteira da Operação Lava Jato, em sua 69ª fase, batizada de Mapa da Mina, deflagrada no final de 2019. A força-tarefa resgatou o histórico de repasses da Oi e da Vivo, apontando que o duto financeiro era muito maior — cerca de R$ 132 milhões teriam irrigado as contas dos sócios de Lulinha em troca de favores regulatórios no governo. O destino dessa investigação, contudo, foi selado longe de Curitiba, nos gabinetes superiores. Com a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de anular os atos do então juiz Sergio Moro, alegando incompetência de foro e parcialidade, todas as quebras de sigilo foram invalidadas. O material probatório virou fumaça jurídica e o caso, esvaziado, foi novamente trancado e arquivado.
Agora, chegamos ao terceiro “gol”. No final deste mês de julho de 2026, o ministro do STF, André Mendonça, autorizou a Polícia Federal a abrir um novo inquérito contra Lulinha. O enredo, desta vez, não envolve cabos de fibra ótica, mas saúde pública e lobby. A PF apura se o filho do presidente usou seu sobrenome e seu livre trânsito no Palácio do Planalto e no Ministério da Saúde para atuar em favor de contratos de fornecimento de cannabis medicinal. A teia de suspeitas envolve parcerias com a empresária Roberta Luchsinger e articulações com o lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, já alvo da Operação Sem Desconto.
A pergunta que ecoa na Praça dos Três Poderes é óbvia: qual será o destino desta atual investigação? Considerando o histórico inabalável de arquivamentos e o ativismo garantista dos tribunais superiores que sistematicamente varre para debaixo do tapete qualquer apuração envolvendo o entorno presidencial, é difícil não abraçar o ceticismo. A Polícia Federal terá a autonomia necessária para ir a fundo no material colhido? O inquérito vai sobreviver às inevitáveis chicanas jurídicas?
Ou, daqui a alguns anos, estaremos apenas noticiando o terceiro arquivamento, enquanto Lulinha segue a vida de milionário em seu autoexílio na Espanha?