O governo do Paraguai entregou nesta sexta-feira (31) uma nota formal ao embaixador brasileiro em Assunção, José Antonio Marcondes, em resposta às declarações do presidente Lula (PT) sobre a Guerra do Paraguai. No documento, o país solicitou ao Brasil a devolução de troféus de guerra, incluindo dois canhões levados durante o conflito do século XIX, além de cópias de documentos históricos relacionados à guerra.
A manifestação foi apresentada pelo vice-presidente paraguaio, Pedro Alliana, e pelo chanceler Rubén Ramírez Lezcano, durante reunião no Palácio do Governo, após a repercussão da fala de Lula em que afirmou que o Paraguai “invadiu o Brasil”.
Segundo o governo paraguaio, o objetivo do pedido é “fechar definitivamente as feridas” deixadas pelo conflito e reforçar uma abordagem considerada mais cuidadosa sobre o episódio histórico.
Entre as solicitações apresentadas estão a devolução dos canhões “Presidente López” e “Cristiano”, além de outros troféus de guerra mantidos pelo Brasil. O Paraguai também pediu acesso a cópias de documentos históricos sobre a Guerra da Tríplice Aliança que estão em arquivos brasileiros e solicitou o reconhecimento de manifestações aprovadas pelo Congresso paraguaio sobre o tema.
“Hoje comunicamos formalmente ao governo do Brasil a posição do Paraguai diante das recentes declarações sobre a Guerra da Tríplice Aliança. Defendemos a verdade histórica com firmeza e reafirmamos nossa vontade de manter um diálogo respeitoso e construtivo entre dois povos irmãos”, afirmou Alliana.
Apesar do tom de cobrança, o governo paraguaio destacou que mantém uma agenda de cooperação com o Brasil, citando como exemplos a usina de Itaipu e o Mercosul. O vice-presidente afirmou que a história deve servir como “aprendizado para construir um futuro de entendimento e prosperidade”.
Reação à declaração de Lula
A crise diplomática teve início após uma fala de Lula durante visita à fábrica da Avibras, em Jacareí (SP), no dia 24 de julho. Ao defender investimentos na área de defesa, o presidente mencionou a Guerra do Paraguai ao argumentar sobre a necessidade de preparo das Forças Armadas.
“Qualquer dia um ou outro resolve invadir o Brasil. O Paraguai um dia invadiu o Brasil, a Argentina e o Uruguai. Para fazer coisa boa, o cara tem que pensar, mas para fazer loucura, o cara não precisa pensar”, declarou Lula.
A declaração provocou reação de autoridades paraguaias, que classificaram a fala como uma interpretação inadequada do conflito. Na quarta-feira (29), os presidentes da Câmara e do Senado do Paraguai divulgaram uma nota conjunta de repúdio, afirmando que a declaração “fere a memória histórica” do país.
Durante o encontro com o embaixador brasileiro, representantes da diplomacia brasileira afirmaram que a fala de Lula não teve intenção de ofender o Paraguai. Segundo relatos de integrantes do Itamaraty, Marcondes explicou o contexto da declaração e destacou a relação histórica entre os dois países.
Guerra do Paraguai
A Guerra do Paraguai, também chamada de Guerra da Tríplice Aliança, ocorreu entre 1864 e 1870 e envolveu o Paraguai contra a aliança formada por Brasil, Argentina e Uruguai.
Considerado o maior conflito armado da história da América do Sul, o episódio teve origem em disputas políticas e territoriais na região do Rio da Prata, além da intervenção brasileira no conflito interno do Uruguai.
O Paraguai foi derrotado após quase seis anos de combates e sofreu graves consequências, incluindo destruição de infraestrutura, perdas territoriais e uma profunda crise demográfica. A interpretação sobre as causas e responsabilidades da guerra ainda é tema de diferentes análises históricas nos países envolvidos.