A Polícia Federal (PF) identificou, em mensagens obtidas durante uma investigação sigilosa, indícios de uma atuação coordenada entre a lobista Roberta Luchsinger, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e Fernando Bittar para intermediar interesses empresariais junto ao governo federal.
Em uma das conversas anexadas ao inquérito, Roberta resumiu a relação entre os três: “Fefe, Fábio e eu somos uma coisa só. Se um fala vai, tds vão. A gente é mesmo irmão”. As informações foram reveladas pela revista Veja.
Segundo o relatório policial, o trio teria formado um núcleo permanente voltado à interlocução de interesses privados com integrantes da Administração Pública Federal. A PF afirma que Lulinha aparecia nas conversas como uma figura relevante nas decisões, embora mantivesse uma atuação menos exposta.
Em outra mensagem, Roberta descreveu a forma como o filho do presidente deveria atuar nas negociações. “Fábio não faz nada. Ele só entra em campo qdo precisa. Tem q se preservar”, escreveu a lobista.
As mensagens foram obtidas após o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizar a quebra do sigilo telemático de Roberta. A partir do conteúdo armazenado em nuvem, os investigadores passaram a analisar conversas, documentos e movimentações relacionadas aos negócios conduzidos pelo grupo.
Atuação no governo
Um dos principais episódios investigados envolve um projeto bilionário relacionado à produção e comercialização de medicamentos à base de canabidiol. De acordo com a PF, Roberta atuava para destravar a regulamentação do setor e posteriormente viabilizar um contrato superior a R$ 1 bilhão no Ministério da Saúde.
Em uma conversa de janeiro de 2025, Roberta relatou a Lulinha que Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, pressionava pelo avanço do negócio. “Ontem eu disse para Fábio: Antonio tá pressionando e acho bom vc se mexer”, escreveu.
A investigação aponta ainda que Lulinha teria ajudado a abrir caminho para uma reunião entre Roberta e Swedenberger Barbosa, então secretário-executivo do Ministério da Saúde. Em conversa sobre o encontro, Roberta afirmou: “Precisamos 100% do Berger”.
Para os investigadores, as circunstâncias indicariam que a atuação ultrapassava o lobby empresarial convencional e poderia configurar tráfico de influência.
“Sociedade com Fábio”
As mensagens também mostram Roberta descrevendo a relação comercial que mantinha com Lulinha e Bittar. Em uma conversa com um empresário, ela afirmou que teria sido convidada pelo presidente Lula (PT) a escolher um cargo no governo, mas decidiu permanecer em sua atividade privada.
“Fui das poucas pessoas q o Lula chamou e perguntou: escolhe onde vc quer ficar. (…) Eu disse: aonde eu tô. Na minha sociedade com Fábio e Fernando”, relatou.
Em outro momento, a lobista afirmou que seu trabalho envolvia articulações políticas dentro do Palácio do Planalto e chegou a projetar ganhos de R$ 100 milhões em 2024.
O inquérito também registra mensagens sobre movimentações financeiras, viagens e pagamentos. Segundo a PF, Lulinha teria dito a Roberta: “Vc que cuida das minhas finanças”.
Os investigadores também recuperaram mensagens apagadas atribuídas ao filho do presidente. A PF suspeita que pagamentos destinados formalmente à empresa de Roberta poderiam ter como beneficiário final Lulinha.
Outros negócios
A atuação atribuída ao grupo não estaria restrita ao Ministério da Saúde. Segundo a investigação, Roberta também teria buscado influência em questões envolvendo a Dataprev, estatal responsável pelo processamento de dados utilizados pelo sistema previdenciário.
Em uma conversa com um empresário ligado ao Careca do INSS, a lobista perguntou: “Ta indo tudo ok na Dataprev ou preciso apertar Gabas?”. A referência seria a Carlos Gabas, ex-ministro da Previdência.
O inquérito também cita disputas envolvendo a Telebras. Roberta teria informado a Lulinha que Kalil Bittar, irmão de Fernando Bittar, estaria utilizando o nome do filho do presidente para tentar viabilizar contratos na estatal.
Investigação
A apuração da PF teve origem nas diligências relacionadas à Operação Sem Desconto, que investigou fraudes bilionárias contra aposentados e pensionistas do INSS. Embora Lulinha tenha sido mencionado durante a investigação parlamentar sobre o caso, a quebra do sigilo de Roberta ampliou o escopo das apurações e levou os investigadores a outros negócios.
A PF concluiu haver indícios de um “núcleo de atuação permanente e coordenada” formado por Roberta, Lulinha e Bittar para defender interesses privados diante de órgãos públicos.
Lula não é investigado no inquérito e não foi apontado como alvo da apuração. O presidente já declarou que, caso o filho tenha cometido alguma irregularidade, deverá responder pelos próprios atos.
A defesa de Lulinha nega que ele tenha participado de negócios envolvendo a administração pública e afirma que o filho do presidente sofre com o peso do sobrenome. Roberta também é alvo da investigação. O ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, citado nas mensagens, afirma que pagamentos feitos pela lobista em suas despesas pessoais estavam relacionados a um empréstimo que posteriormente teria sido quitado.