Casa Nóticias Dados provam: foi a esquerda, não a direita, que se radicalizou

Dados provam: foi a esquerda, não a direita, que se radicalizou

por admin
0 comentário

Por Michael Shellenberger, jornalista

✅ Siga o canal do Claudio Dantas no WhatsApp

Desde 2016, a grande mídia, professores universitários e políticos democratas sustentam que Trump e os republicanos se tornaram extremistas e que esse extremismo impulsionou a polarização dos Estados Unidos. Ezra Klein, hoje colunista do New York Times, desenvolveu essa ideia em seu livro de 2020, Why We’re Polarized (“Por que estamos polarizados”), ao dizer a um entrevistador: “Se você está falando de polarização, precisa falar sobre por que o Partido Republicano se tornou uma instituição muito diferente do Partido Democrata.” A polarização assimétrica, disse Klein, “foi uma parte muito importante da minha narrativa sobre a política americana”.

A historiadora da Universidade de Nova York, Ruth Ben-Ghiat, declarou em 2022: “O Partido Republicano é agora um partido autoritário. É um partido de extrema-direita que abandonou a democracia”, disse ela. “Ele já não tem nenhum interesse nisso.” Naquele mês de setembro, o presidente Biden disse a uma plateia do lado de fora do Independence Hall que “Donald Trump e os republicanos MAGA (sigla para o slogan de campanha de Trump, Make America Great Again, “Torne os EUA grandes de novo”), representam um extremismo que ameaça os próprios alicerces de nossa república”. E boa parte da grande mídia, ao longo da última década, declarou que os republicanos eram um partido fascista e que Trump equivalia a Hitler.

Mas o eleitorado republicano nunca se radicalizou. Em fevereiro, pesquisadores do Laboratório de Psicologia Política da Universidade de Cambridge constataram o oposto desse senso comum. “Os americanos de direita permaneceram relativamente estáveis em suas posições nos últimos 35 anos”, disse o autor sênior Lee de-Wit, que dirige o laboratório, “e talvez se sintam deixados para trás à medida que metade do país se deslocou para uma perspectiva cada vez mais progressista em muitas questões”. De-Wit e seus coautores classificaram os americanos por suas opiniões sobre questões concretas, e não por partido ou identidade ideológica. Eles analisaram mais de 35 mil respostas aos Estudos Eleitorais Nacionais Americanos de 1988 a 2024, abrangendo 14 questões centrais, do aborto ao seguro-saúde e à discriminação racial. As próprias pesquisas de valores do instituto de pesquisa Pew, realizadas desde 1994, apontam na mesma direção na maioria das questões culturais: mostram os republicanos mantendo posições estáveis e, em alguns casos, tornando-se mais liberais. Por exemplo, entre 1994 e 2017, a proporção de republicanos que disseram ao Pew que os imigrantes fortalecem o país subiu de 30% para 42%, um movimento em direção à posição liberal. A aceitação da homossexualidade entre republicanos também aumentou.

Alguns republicanos, incluindo Trump, de fato dizem coisas extremas. Trump disse que os imigrantes estavam “envenenando o sangue de nosso país”, mandou o grupo de deputadas democratas de esquerda, que incluía Alexandria Ocasio-Cortez, “voltar” aos países de onde “vieram originalmente” e foi gravado falando sobre apalpar mulheres. Alguns de seus apoiadores depredaram o Capitólio em 6 de janeiro de 2021. De-Wit reconhece “a guinada à direita das lideranças republicanas” no período abrangido por seus dados. Os eleitores republicanos também passaram a se alinhar de forma mais nítida ao partido. Em 2024, a proporção de integrantes do grupo de opiniões de direita que se diziam republicanos era 30% maior, e a dos que se diziam conservadores, 39% maior do que em 1988. De modo semelhante, a empresa de pesquisa Gallup constatou que a parcela de republicanos que se identificavam como conservadores subiu de 58% para 77% entre 1994 e 2024.

Mas a retórica de Trump e o comportamento de alguns de seus apoiadores não eram sintomas de extremismo republicano nas questões centrais. Enquanto isso, a Gallup registrou a identificação como progressista entre democratas subindo de 25% em 1994 para 59% em 2025, um aumento de 34 pontos, contra 19 pontos entre os republicanos. [Nota do tradutor: a identificação é literalmente liberal, mas somente nos Estados Unidos este termo passou a significar progressista, ou seja, de esquerda, como apontam pensadores como a economista liberal e não progressista Deirdre McCloskey. Acima, deixei o termo “liberal” em posições que realmente se alinham com o liberalismo clássico.]

E os dados mostraram que, em 2024, a metade do país inclinada à esquerda havia se tornado 31,5% mais progressista em termos sociais do que em 1988, enquanto a metade inclinada à direita estava apenas 2,8% mais conservadora. Na pergunta do Pew sobre se a imigração fortalece um país, a proporção de democratas que concordavam subiu de 32% para 84% entre 1994 e 2017. Os democratas avançaram tanto na opinião de que a discriminação racial é a principal razão pela qual os negros não conseguem progredir que a distância partidária aumentou de 13 pontos em 1994 para 50 pontos em 2017, quando 64% dos democratas e 14% dos republicanos sustentavam essa visão.

O que explica o fato de a esquerda ter se tornado muito mais extrema? E por que tantas pessoas de esquerda acreditavam que havia sido a direita, e não a esquerda, que se polarizara?

Muitos analistas apontam para a ascensão das redes sociais. O número de horas que os americanos diziam passar online por semana cresceu de 5 em 2000 para 13,6 em 2018, observou o cientista político Zach Goldberg em 2019, e o uso de redes sociais saltou de 34,8% em 2008 para 73% em 2016. Progressistas brancos registraram índices maiores do que conservadores brancos em todas as medidas, incluindo horas online. E, assim como Goldberg, o sociólogo Musa al-Gharbi documentou aumentos, após 2011, no uso de linguagem indicativa de preconceito em notícias impressas e televisivas, livros, produção acadêmica e videogames.

Trindade profana

Mas algumas das melhores evidências dizem respeito à mídia jornalística, e não às redes sociais. Goldberg constatou que a proporção de artigos do New York Times que mencionavam racismo cresceu de 0,4% em 2012 para mais de 2% em 2018. Essa cobertura pode ter mudado atitudes. A parcela de progressistas brancos que consideravam a discriminação contra negros um “problema muito grave” era de 25% em 2010, quase inalterada desde 1996, mas subiu para 47% em 2015 e para 58% em 2016. Em 2014, 70% dos progressistas brancos diziam que o sistema de justiça criminal era tendencioso contra os negros, ante uma divisão equilibrada ainda em 2007. Goldberg caracterizou isso como “uma espécie de ciclo de retroalimentação da indignação”, no qual progressistas brancos consumiam indignação relacionada à raça, recompensavam os veículos por fornecê-la e exigiam mais. Ele identificou o período de 2012 a 2016 como o divisor de águas para a consciência racial dos progressistas brancos, o mesmo período em que Cambridge constatou o aumento do extremismo.

E, vale destacar, a polarização aumentou mais entre aqueles que tinham menor probabilidade de usar a internet. Americanos com mais de 65 anos se polarizaram mais rapidamente do que os menores de 40. Em seu estudo comparativo entre países, os mesmos autores concluíram que a polarização era “menos compatível com explicações baseadas em mudanças mais universais”, como “o surgimento da internet”. É possível que canais de televisão a cabo cada vez mais partidários e preferidos pelo público mais velho, como MSNBC, desde então rebatizada de MS NOW, e CNN, tenham ajudado a explicar o aumento mais do que as redes sociais, que oferecem maior diversidade de pontos de vista.

Vale destacar também que a radicalização progressista foi maior entre pessoas com formação universitária. Redações, corpos docentes, fundações e departamentos de recursos humanos guinaram com mais força e mais cedo à esquerda do que seus leitores, alunos e funcionários. Al-Gharbi constatou que pessoas com pós-graduação se deslocaram fortemente para a esquerda depois de 2010, enquanto todos os grupos de menor escolaridade dos Estados Unidos se moveram para a direita. O doutorando de Harvard Marco Aviña constatou que o extremismo progressista estava “concentrado entre progressistas brancos de alta renda, centrado no engajamento simbólico, e não em compromissos materiais de política pública, fossem eles universalistas ou direcionados a grupos, e era de curta duração”.

As universidades se tornaram mais uniformemente progressistas e alinhadas ao Partido Democrata. Em 2016, uma equipe de pesquisadores examinou os registros eleitorais de 7.243 professores de cinco áreas em 40 universidades de destaque e encontrou 3.623 democratas registrados contra 314 republicanos registrados, uma proporção de 11,5 para 1. Nos departamentos de jornalismo, a proporção era de 20 para 1. Entre professores de até 35 anos, chegava a 22,7 para 1. Em comparação, a proporção geral era de apenas 3,5 para 1 em 1970 e de 8 para 1 em 2004.

“Há basicamente duas coisas que parecem prever quando ocorrerão as [ondas woke] de esquerda”, disse al-Gharbi a Alex Gutentag e a mim para nosso próximo livro, A guerra da esquerda contra a realidade. “A principal delas é a superprodução de elites.” Integrantes da classe profissional “frequentaram as escolas certas, tiraram boas notas, escolheram os cursos certos, obtiveram diplomas universitários, esperavam ganhar salários de seis dígitos, casar-se, comprar uma casa e ganhar o mesmo que seus pais, ou até melhor”, disse al-Gharbi. “E então se descobre que a vida que eles simplesmente davam como certa desde sempre talvez não esteja ao seu alcance, ou seja muito incerta.”

Al-Gharbi observa que 22 milhões de graduados com mais de 25 anos e diploma de bacharelado entraram no mercado de trabalho entre 2000 e 2019 para disputar 10 milhões de novos empregos que exigiam essa formação. Em 2020, 41% dos recém-graduados trabalhavam em cargos que não exigiam diploma. “Quando há um número crescente de aspirantes à elite nessa situação, eles tentam derrubar alguns de seus concorrentes para abrir espaço para si mesmos”, disse al-Gharbi. “É por isso que o cancelamento desempenha um papel tão importante em todos esses períodos de onda woke.”

As redes sociais, a captura das instituições e a superprodução de elites se engrenaram em uma única máquina. Os pesquisadores de Cambridge apontam para 2008, “o ano da crise financeira, da posse de Obama e do lançamento da App Store da Apple e do iPhone 3G”, como o momento em que a divergência começou. O colapso financeiro esvaziou o mercado de trabalho da elite justamente quando um número recorde de graduados entrava nele.

“No passado, alguém com posições de esquerda sobre uma questão podia ter posições de direita sobre outra”, disse Young. “Isso é mais raro agora.” “Acho que essa consolidação acontece quando as pessoas captam sinais claros das elites políticas sobre quais posições andam juntas”, acrescentou. “Isso torna as posições médias mais extremas e amplia as distâncias entre os cidadãos dos Estados Unidos.”

Os progressistas acreditavam que os conservadores eram os que haviam mudado porque não tinham autoconsciência. “Para os esquerdistas, a falta de percepção da rapidez e da distância com que suas atitudes mudaram alimenta uma ilusão de extremismo conservador”, escreveu Goldberg. A visão progressista de que os conservadores eram os que haviam se radicalizado pode ter sido uma forma de projeção psicológica, um mecanismo de defesa inconsciente pelo qual uma pessoa atribui a outra seus próprios pensamentos, sentimentos e impulsos ameaçadores.

Uma oportunidade para a direita

Há dados indicando que o extremismo de esquerda diminuiu desde seu auge em 2020. Al-Gharbi e o cientista de dados David Rozado documentaram uma moderação nas respostas de progressistas brancos a várias questões raciais e uma redução da linguagem associada à denunciação de suposto preconceito na mídia desde aproximadamente 2021. A equipe de Cambridge também identificou um possível nivelamento nos anos Biden. E, algumas semanas depois da segunda posse de Trump em 2025, a Gallup constatou que mais democratas favoreciam a moderação do partido do que em qualquer outro momento de suas pesquisas, com o maior grupo, 45%, querendo um partido mais moderado.

Mas, desde a eleição de 2024, os democratas e a esquerda não se moderaram e, em alguns aspectos, tornaram-se mais extremos. Depois que Gavin Newsom classificou a participação de pessoas transgênero em esportes femininos escolares como “profundamente injusta” em março de 2025, a Bancada Legislativa LGBTQ da Califórnia afirmou ter acordado “profundamente nauseada”. Depois que o deputado Seth Moulton criticou as posições do partido sobre pessoas transgênero após a derrota de 2024, outros democratas de Massachusetts, incluindo a governadora Maura Healey, o condenaram. A Gallup constatou em janeiro de 2025 que democratas progressistas preferiam que seu partido se tornasse mais progressista (45%) ou permanecesse igual (22%), em vez de se tornar mais moderado (30%), enquanto 59% dos democratas se identificavam como progressistas em 2025, ante 55% em 2024, que já era um recorde.

É improvável que isso mude de forma importante tão cedo. A proporção entre democratas e republicanos entre professores com até 35 anos é de 22,7 para 1, o dobro da proporção do corpo docente em geral. Candidatos do grupo Socialistas Democráticos da América (DSA) estão mais à esquerda do que o restante do partido tanto em questões econômicas quanto culturais e vêm derrotando moderados nas eleições primárias. Em junho, os três candidatos à Câmara apoiados pelo prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, dois deles integrantes do DSA, venceram suas primárias democratas e tiraram dois parlamentares do cargo, um ano depois de o próprio Mamdani derrubar o ex-governador Andrew Cuomo.

Tudo isso mantém uma oportunidade aberta para a direita. De-Wit argumenta que “parte do sucesso recente da direita nos Estados Unidos pode vir de sua capacidade de explorar a hostilidade contra o grupo externo dirigida a uma esquerda percebida como ‘woke’, mais do que de uma crença firme em algumas das posições mais extremas adotadas pela liderança republicana”. Os dados mostram que democratas negros, hispânicos e asiáticos defendem posições mais restritivas sobre imigração e menos extremas sobre política identitária do que os liberais progressistas. Al-Gharbi observa que a guinada cultural dos democratas afastou eleitores não brancos, de menor escolaridade e de menor renda que o partido dizia defender.

Independentemente do que aconteça, devemos rever nossa visão da polarização. Ela começou não em 2016, mas em 2008, e veio de maneira esmagadora da esquerda, não da direita. Klein estava certo ao dizer que a polarização assimétrica é a história da política americana. Ele, como tantos outros na esquerda, apenas errou a direção, assim como Biden errou sobre quem ameaça os próprios alicerces de nossa república.

©2026 Public. Publicado com permissão. Original em inglês.





Source link

Você pode gostar também

Design sem nome (84)

Sua fonte de notícias para brasileiros nos Estados Unidos.
Fique por dentro dos acontecimentos, onde quer que você esteja!

TV BRAZIL USA- All Right Reserved. Designed and Developed by STUDYO YO