O presidente Lula (PT) voltou a criticar, nesta segunda-feira (21), a postura do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Republicano), e afirmou que o Brasil poderá aplicar a Lei da Reciprocidade caso as negociações sobre as tarifas impostas a produtos brasileiros não avancem. Em entrevista à CNN Internacional, Lula disse que Trump “age como um imperador” ao adotar medidas unilaterais contra outros países.
Lula está em Nova York para participar da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). O presidente brasileiro fará o discurso de abertura da sessão nesta terça-feira (22), seguindo a tradição de o Brasil ser o primeiro país a falar. Trump deverá discursar na sequência.
Ao comentar a relação com o governo norte-americano, Lula afirmou que não pretende iniciar uma guerra comercial e que continuará priorizando as negociações. Segundo ele, enquanto houver diálogo entre os dois países, não há intenção de aplicar imediatamente a legislação de reciprocidade.
“Eu não quero entrar em uma guerra tarifária com os EUA, nem com qualquer outro país. O que eu quero é negociar”, afirmou.
O presidente, porém, condicionou a manutenção dessa estratégia ao avanço das conversas. Caso não haja acordo, disse que o governo terá de avaliar quais produtos norte-americanos poderão ser atingidos por medidas brasileiras.
“Se não houver acordo, vamos ter que aplicar a lei da reciprocidade”, declarou.
Críticas a Trump
Questionado sobre uma declaração feita em 2025, quando comparou Trump a um “imperador”, Lula manteve a avaliação. Segundo o presidente, o norte-americano adota uma lógica baseada na força econômica e política dos Estados Unidos.
“Ele age como imperador. É uma forma de governar com a qual eu não concordo”, afirmou.
Lula também defendeu o multilateralismo e criticou relações internacionais baseadas na capacidade de cada país impor suas condições aos demais. Para o presidente, o comércio entre as nações deve seguir regras negociadas e equilibradas.
Tarifas
As declarações ocorrem em meio à manutenção das sobretaxas norte-americanas sobre produtos brasileiros. As medidas incluem uma tarifa de 25% aplicada pelos EUA a determinados produtos do Brasil e uma sobretaxa adicional de 12,5%, levando algumas exportações a enfrentar uma cobrança acumulada de até 37,5%.
Lula voltou a contestar as justificativas apresentadas pelo governo norte-americano e afirmou que as tarifas foram baseadas em “mentiras”. O governo brasileiro abriu um processo que pode resultar na adoção de medidas de reciprocidade, mas, até o momento, não aplicou tarifas de retaliação contra produtos dos Estados Unidos.
Venezuela
Na mesma entrevista, Lula classificou como “grave” a atuação dos Estados Unidos na Venezuela e afirmou que os acordos firmados após a operação norte-americana passam a impressão de que Washington exerce influência direta sobre o governo de Caracas.
“Os EUA passam a ideia que estão governando a Venezuela. Isso não é bom para os EUA, não é bom para a Venezuela, não é bom para a democracia”, afirmou.
Lula também defendeu a realização de eleições na Venezuela para que a população escolha o próximo presidente. A declaração ocorre após a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, em janeiro, e a instalação de um governo interino liderado por Delcy Rodríguez.
Eleições brasileiras
Lula ainda afirmou que os Estados Unidos não devem interferir nas eleições brasileiras de outubro. O presidente disse ter conversado com Trump sobre o assunto e relatou que o norte-americano teria indicado que não pretende se envolver no pleito.
Ao mencionar o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, Lula afirmou estar preocupado com a proximidade dele com integrantes do bolsonarismo, mas ressaltou que, até o momento, trata-se apenas de uma suspeita.
A entrevista ocorreu um dia antes do discurso de Lula na Assembleia Geral da ONU, em Nova York. A agenda do presidente também inclui reuniões com autoridades estrangeiras durante a passagem pelos Estados Unidos.