O ex-secretário nacional de Segurança Pública Mario Sarrubbo afirmou que a pressão do governo dos Estados Unidos sobre o Brasil pelo combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho (CV) tem, na avaliação dele, componente político e pode gerar efeitos sobre a soberania brasileira.
Em entrevista ao programa Ponto de Vista, da Veja, Sarrubbo relacionou as manifestações do governo Donald Trump ao cenário eleitoral brasileiro. A avaliação ocorre após a Casa Branca acusar o Brasil de não adotar medidas suficientes contra as duas facções e cobrar uma atuação mais firme.
Segundo o ex-secretário, não houve uma mudança na atuação brasileira contra o crime organizado que justificasse a intensificação das cobranças americanas. Ele citou a Operação Carbono Oculto como exemplo de ações que, em sua avaliação, atacam a estrutura financeira das organizações criminosas.
Sarrubbo também manifestou preocupação com a possibilidade de operações americanas na América do Sul sem participação brasileira. Ao ser questionado sobre o deslocamento de drones militares dos Estados Unidos e possíveis ações próximas às fronteiras brasileiras, apontou a Amazônia como uma área especialmente sensível.
Para o ex-secretário, operações realizadas no território brasileiro sem participação das autoridades nacionais poderiam representar risco à soberania. Ele defendeu a manutenção da cooperação internacional contra o crime organizado, mas ressaltou que o Brasil deve participar da definição e da execução de ações realizadas em seu território.
Classificação de PCC e CV
Sarrubbo também criticou a decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Na avaliação dele, a medida pode produzir consequências políticas e abrir espaço para iniciativas que afetem a soberania brasileira.
A designação americana ocorreu em maio e foi formalizada pelo Departamento de Estado no início de junho. Em setembro, o governo Trump voltou a pressionar o Brasil ao afirmar, em relatório enviado ao Congresso americano, que o país havia falhado no enfrentamento às duas facções.
O ex-secretário afirmou que os Estados Unidos poderiam contribuir para o combate ao crime organizado por meio do controle da circulação ilegal de armas e fuzis que saem do país e chegam ao Brasil. Também citou mecanismos de cooperação internacional já existentes.
Pressão em ano eleitoral
Na entrevista, Sarrubbo afirmou que manifestações do governo americano sobre a segurança pública brasileira podem produzir efeitos políticos e eleitorais. Ele citou o apoio declarado por Donald Trump ao senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
A avaliação ocorre em meio à campanha presidencial brasileira e à intensificação das críticas de Washington ao governo Lula. Integrantes do Ministério da Justiça e da Polícia Federal também avaliaram recentemente que a manifestação americana sobre PCC e CV possui caráter político-eleitoral e apontaram a ausência de um fato novo que justificasse a cobrança neste momento.
Sarrubbo deixou a Secretaria Nacional de Segurança Pública em fevereiro de 2026. Durante a entrevista, destacou investimentos na Polícia Federal e na Polícia Rodoviária Federal, além da ampliação de estruturas integradas de combate ao crime organizado e de mecanismos voltados à recuperação de ativos.
Para ele, o debate eleitoral sobre segurança pública tem sido prejudicado pela concentração das discussões em temas relacionados ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Banco Master. Sarrubbo defendeu que o enfrentamento às organizações criminosas seja discutido também a partir de medidas estruturais, além de propostas de aumento de penas e encarceramento.