O senador Ciro Nogueira (PP-PI) perdeu a disputa pela reeleição ao Senado neste domingo (4) e ficará fora da Casa a partir de 2027. Em uma campanha marcada pelo avanço das investigações sobre o Banco Master e sua relação com Daniel Vorcaro, o parlamentar terminou em terceiro lugar no Piauí, atrás de Marcelo Castro (MDB) e Júlio César (PSD), que conquistaram as duas vagas em disputa.
Com 90,59% das seções totalizadas, Marcelo Castro tinha 35,46% dos votos válidos, seguido por Júlio César, com 26,86%. Ciro aparecia com 24,67%, ou 818.005 votos, segundo os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A distância para Júlio César já ultrapassava 72 mil votos na parcial. Como estavam em disputa apenas duas cadeiras, Ciro ficou fora da composição eleita para o Senado no próximo mandato.
O resultado encerra a tentativa do senador de conquistar um terceiro mandato na Casa. Ciro chegou ao Senado em 2011, após quatro mandatos como deputado federal, e foi reeleito em 2018. Entre 2021 e 2022, licenciou-se do cargo para comandar a Casa Civil durante o governo Jair Bolsonaro.
Ciro entrou na mira da PF
A campanha eleitoral foi atravessada pela Operação Compliance Zero, investigação da Polícia Federal sobre um esquema envolvendo o Banco Master, instituição que tinha Daniel Vorcaro como controlador.
Em maio, Ciro foi alvo de uma operação de busca e apreensão autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). A PF passou a investigar a relação do senador com Vorcaro e possíveis benefícios concedidos ao banqueiro por meio da atuação parlamentar de Ciro.
Um dos principais pontos da investigação é uma proposta que pretendia elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) por depositante. A medida ficou conhecida nos bastidores como “emenda Master”.
Segundo a investigação citada na decisão de Mendonça, o texto teria sido elaborado pela própria assessoria do Banco Master, encaminhado a Vorcaro e posteriormente entregue em um envelope identificado como “Ciro” no endereço residencial do senador. A PF apontou ainda que a versão apresentada por Ciro no Senado reproduzia integralmente o texto produzido pelo banco.
A proposta não chegou a ser aprovada.
PF aponta pagamentos de Vorcaro
As suspeitas não se limitaram à atuação parlamentar. Documentos da investigação divulgados ao longo do ano apontaram que Vorcaro teria repassado ao menos R$ 6 milhões a Ciro entre 2024 e 2025.
De acordo com a PF, os pagamentos mensais teriam começado em R$ 300 mil e posteriormente chegado a R$ 500 mil. Os investigadores também apontaram despesas pessoais e viagens internacionais que teriam sido custeadas pelo grupo ligado ao banqueiro.
A investigação descreveu a relação entre os dois como algo que, em tese, ultrapassaria uma relação de amizade. Na decisão que autorizou a operação, Mendonça apontou elementos que, segundo a análise apresentada naquele momento, indicariam um possível arranjo de interesses entre o senador e Vorcaro.
As conclusões da PF fazem parte de uma investigação em andamento e não representam condenação criminal de Ciro Nogueira.
Viagem aos Alpes voltou ao centro do caso
Na véspera da eleição, a relação entre Ciro e Vorcaro ganhou novo destaque após a divulgação de imagens de uma viagem à estação de esqui de Courchevel, na França.
Vídeos divulgados pela revista piauí mostram Ciro ao lado de Vorcaro durante uma festa realizada em janeiro de 2025. Segundo reportagem reproduzida pelo Poder360, a viagem teria custado cerca de R$ 2 milhões.
As imagens foram divulgadas justamente na reta final da campanha ao Senado e acrescentaram um novo elemento público à relação entre o senador e o antigo controlador do Master.
Mensagens
A investigação também encontrou conversas que indicam a proximidade entre os dois. Em mensagens recuperadas pela PF, Vorcaro chegou a se referir a Ciro como um de seus “grandes amigos de vida”, segundo documentos revelados no curso das apurações.
Outro conjunto de mensagens revelou a existência de um grupo de WhatsApp que reunia Ciro, Vorcaro, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o ex-ministro Fábio Faria. As conversas tratavam de encontros, jantares e viagens.