A decisão da União Europeia de retirar o Brasil da lista de países autorizados a exportar para o bloco carne bovina e outros produtos de origem animal atende a um forte lobby de produtores locais, particularmente de pecuaristas irlandeses.
Entre analistas do setor, é consenso que a nova barreira, justificada sob critérios sanitários, trata-se, na verdade, de um movimento político protecionista. O setor agropecuário europeu foi o principal opositor do acordo entre UE e Mercosul, que após mais de duas décadas de negociação entrou em vigor de forma provisória no último dia 1.º.
Com a Associação dos Produtores Rurais da Irlanda (IFA, na sigla em inglês) à frente, pecuaristas do país têm se mobilizado e pressionado o Parlamento Europeu e a Comissão Europeia para criar novos entraves para a proteína brasileira, que entra no país com preço inferior ao produto local.
No ano passado, representantes da IFA e do veículo Irish Farmers Journal (IFJ) estiveram no Brasil, onde percorreram mais de 3 mil quilômetros, atravessando quatro estados brasileiros, para investigar os controles e o uso de antibióticos em rebanhos de gado de corte.
“As descobertas foram alarmantes. Conseguimos comprar qualquer quantidade de qualquer tipo de antibiótico que quiséssemos, sem sequer nos pedirem nossos nomes, o tipo de animal ou os sintomas a serem tratados, uma receita médica ou mesmo a identificação da fazenda”, diz o presidente da IFA, Francie Gorman, em nota publicada no site da entidade.
O texto é intitulado “Comissão Europeia finalmente acorda para a ameaça dos antibióticos da produção de carne brasileira”.
“Em um número significativo de estabelecimentos, nem sequer houve verificação de estoque, com antibióticos vendidos em dinheiro vivo no balcão, sem que a venda fosse escaneada ou registrada”, acrescenta Gorman.
Ele afirma ainda que “as autoridades brasileiras não têm um bom histórico de conformidade com as auditorias da UE e os requisitos comerciais”.
Um relatório publicado em novembro detalha os resultados da investigação. Segundo o documento, antibióticos potentes são vendidos livremente em lojas agropecuárias do Brasil sem necessidade de prescrição médica, o que violaria normas globais de saúde pública. Embora fale em quatro estados visitados, o documento não diz quais são eles.
Em um dos trechos, o médico e veterinário Patrick Wall, professor de Saúde Pública da University College Dublin (UCD), conta que dois irlandeses que estiveram no Brasil para participar do Congresso Mundial da Carne aproveitaram a oportunidade para visitar diversas lojas de produtos agrícolas.
O evento foi realizado em Cuiabá, entre 28 e 30 de outubro de 2025, e contou com a participação de representantes de mais de 20 países.
“[Eles] encontraram antibióticos e anti-inflamatórios injetáveis potentes expostos nas prateleiras, vendidos sem receita, sem perguntas de triagem e sem qualquer esforço aparente para ocultar sua disponibilidade”, afirma Wall. Segundo o relato, entre os produtos, havia combinações de ceftiofur e ibuprofeno, tulatromicina e cetoprofeno, penicilina e estreptomicina, além de florfenicol, tilosina, oxitetraciclina e flunixina.
O relatório aponta ainda a ausência de um sistema nacional de rastreabilidade obrigatório como o existente na Irlanda, o que evidenciaria falhas críticas na identificação individual dos animais e no controle sanitário.
O documento argumenta que essas condições contradizem as exigências de segurança alimentar da União Europeia e os termos propostos no acordo com o Mercosul. Por fim, os autores exigem a suspensão de concessões comerciais até que o Brasil implemente padrões de produção e supervisão equivalentes aos rigorosos protocolos europeus.
Governo irlandês notificou presença de hormônio em carne bovina importada do Brasil
Em outra situação, em 12 de dezembro do ano passado, o ministério da agricultura irlandês foi informado pela Autoridade de Segurança Alimentar do país (FSAI, na sigla em inglês) de que 128 kg da carne bovina brasileira contendo estradiol foram distribuídos a três empresas do setor alimentício na Irlanda.
O hormônio promotor de crescimento é proibido na UE. Segundo as autoridades irlandesas, a carne em questão fazia parte de remessas enviadas para a Irlanda do Norte. Houve recolhimento dos produtos e notificação à Comissão Europeia.
Embora trate-se de um acontecimento isolado, o episódio forneceu mais um pretexto para que a IFA mobilizasse a opinião pública e pressionasse Bruxelas por medidas imediatas contra as importações do Brasil.
Em janeiro, a poucos dias da votação do acordo com o Mercosul pelos países membros, o presidente da IFA defendeu que a UE “deveria publicar todos os detalhes disso imediatamente e antes de qualquer votação sobre o acordo”.
Um dia depois de a maioria dos Estados-membros ter dado aprovação provisória ao acordo, milhares de pecuaristas irlandeses saíram em protesto nas ruas da cidade de Athlone. A Irlanda foi um dos países a votar contra a medida, junto com França, Áustria, Hungria e Polônia.
Em meio às manifestações, o vice-primeiro-ministro irlandês, Simon Harris, afirmou que o governo continuaria “a expressar suas preocupações”.
A pecuária bovina e a produção de leite e laticínios são importantes segmentos do agronegócio irlandês, e muitos agricultores afirmavam já ter dificuldades para obter uma renda sustentável antes do acordo com o Mercosul.
Nesta terça-feira (12), enquanto governo e associações brasileiras do setor eram surpreendidos com o bloqueio da UE a partir de setembro, a IFA comemorava.
“A Comissão finalmente está levando a sério a ameaça da resistência antimicrobiana (RAM) representada pela produção de carne bovina brasileira. Isso ocorre após a investigação realizada pela IFA sobre o uso descontrolado de antibióticos em todos os níveis no Brasil no final do ano passado”, afirmou Gorman.
Presidente da FPA diz que tentativas de bloqueio a produtos brasileiros ocorrerão “todos os dias”
Para o deputado federal Pedro Lupion (Republicanos-PR), presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), haverá novas tentativas de bloqueio a produtos brasileiros “todos os dias”. “Esse é um dos primeiros exemplos que nós teremos, e vai acontecer com vários outros produtos”, disse, em conversa com a Gazeta do Povo.
Em sua avaliação, a motivação da Comissão Europeia para a retirar o Brasil da lista é puramente política. “É para dar um recado para os produtores europeus; dizer para eles que estão tomando uma atitude”, afirma o parlamentar. “Não existe a menor possibilidade de isso vingar. Eles não sobrevivem sem os nossos produtos.”
Em nota oficial, a FPA diz que “vê com preocupação qualquer tentativa de transformar exigências regulatórias em barreiras políticas ou comerciais contra a competitividade da produção brasileira”.
“A questão não representa falha sanitária da pecuária nacional. O Brasil exporta carne bovina para mais de 170 mercados, com sistemas de inspeção, rastreabilidade e protocolos reconhecidos internacionalmente”, ressalta a bancada parlamentar.
A justificativa institucional dada por representantes da Comissão Europeia corrobora a avaliação de Lupion de que a medida foi apenas um aceno aos agricultores e pecuaristas europeus.
“Nossos produtores seguem alguns dos padrões de saúde e antimicrobianos mais rigorosos do mundo. Portanto, é legítimo que os produtos importados estejam sujeitos aos mesmos requisitos”, disse o comissário europeu para a Agricultura, Christophe Hansen, sobre a atualização da lista.
O advogado Frederico Favacho, especialista em agronegócio do escritório Santos Neto, diz que o episódio reforça uma tendência de crescimento do uso de barreiras sanitárias no comércio internacional como medida protecionista.
Ele destaca que a pecuária brasileira tem um histórico de atendimento a exigências de mercados altamente rigorosos e que o contexto político-comercial não pode ser ignorado.
“Chama a atenção que a importação de carnes brasileiras, uma das fontes de resistência dos produtores europeus ao acordo UE-Mercosul, seja exatamente agora objeto de questionamento, quando em 2024 esse não era um ponto de atenção”, ressalta Favacho.
Governo e setor de proteína animal dizem que decisão será revertida
Em uma nota assinada conjuntamente pelos ministérios da Agricultura e Pecuária (Mapa), de Relações Exteriores (MRE) e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o governo brasileiro afirma ter sido pego “de surpresa” com a decisão dos europeus.
O texto diz ainda que o país “tomará prontamente todas as medidas necessárias para reverter essa decisão”.
Na manhã desta quarta (13), o embaixador do Brasil na União Europeia, Pedro Miguel da Costa e Silva, esteve reunido com autoridades do bloco.
Segundo o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, em 15 dias os europeus devem prestar esclarecimentos sobre as questões técnicas que levaram à retirada do Brasil da lista de países exportadores à UE.
“Essa relação comercial é sempre sem monotonia, né? Sempre estressante”, disse Alckmin, durante participação em painel do Congresso da Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho), que ocorre em Brasília.
“Se você me perguntar se nós fomos surpreendidos com essa notícia, nós fomos, sim”, disse o ministro da Agricultura, André de Paula, no mesmo evento.
“Fomos porque essa foi uma antecipação de uma questão que estava sendo tratada tecnicamente”, explicou. “Mas nós estamos absolutamente tranquilos. Vamos trabalhar intensamente e temos toda a convicção que vamos enfrentar e vencer esse desafio.”
Entidades do setor minimizaram o caso. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) diz que trabalha em parceria com o Mapa na elaboração de protocolos voltados a atender novas exigências da UE e poder exportar aos países do bloco a partir de setembro.
A Abiec esclarece que até setembro o Brasil segue habilitado a exportar carne bovina ao mercado europeu e que não há, neste momento, proibição das exportações.
A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) lançou nota informando que o Brasil, por meio do Mapa e com apoio técnico do setor produtivo, prestará todos os esclarecimentos necessários à UE “acerca das diretrizes técnicas relacionadas aos antimicrobianos, visando ao retorno do Brasil à lista de países autorizados”.
“O setor brasileiro reforça que o país possui estruturas sanitárias e de controle produtivo robustas”, diz o texto.
Há pouco mais de duas semanas, o governo brasileiro passou a proibir o uso de antibióticos que vinham sendo usados como promotores de crescimento na pecuária. Passaram a ser vetadas as substâncias avoparcina, bacitracina, bacitracina de zinco, bacitracina metileno dissalicilato e virginiamicina, conforme portaria do Mapa.
A medida segue justamente exigências sanitárias adotadas pela União Europeia e atende a compromissos assumidos pelo Brasil em fóruns internacionais para redução do problema de resistência antimicrobiana.