O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, se reuniu com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes em 11 de abril de 2024 para tratar de uma disputa bilionária envolvendo usinas do setor sucroalcooleiro. A informação foi divulgada pelo jornal Folha de S.Paulo e posteriormente confirmada pelo magistrado.
O processo de interesse do banqueiro envolvia a Destilaria Alcídia S/A e discutia o pagamento de um precatório. Um mês antes do julgamento, Mendes pediu destaque do caso, retirando-o do plenário virtual da Segunda Turma para que fosse analisado presencialmente.
A Segunda Turma julgou a ação em 3 de junho de 2025 e decidiu a favor do Banco Master por 3 votos a 2. Mendes e André Mendonça ficaram vencidos, enquanto Edson Fachin, Nunes Marques e Dias Toffoli votaram pela empresa.
Na época da reunião, Vorcaro mantinha um contrato de R$ 500 mil mensais com o empresário e ex-senador Francisco Feitosa de Albuquerque Lima, conhecido como Chiquinho Feitosa, então cunhado de Mendes. Segundo a reportagem, o acordo previa atuação de Feitosa como lobista em Brasília para Vorcaro na área da educação, além de ter viabilizado o encontro com o ministro.
“Você tem que começar uma relação direta com ele! É importante para o futuro!”, aconselhou Feitosa a Vorcaro em uma troca de mensagens.
O Banco Master mantinha bilhões em créditos de investimentos estruturados em precatórios ligados a empresas do setor. Esses ativos poderiam perder valor caso o STF não reconhecesse a validade das ações indenizatórias movidas pelas usinas contra a União. Segundo estimativas da Advocacia-Geral da União (AGU), o valor das causas poderia chegar a R$ 145 bilhões caso as empresas fossem vitoriosas.
Mensagens obtidas pela Polícia Federal (PF) mostram que Vorcaro tratou diretamente com a secretária do gabinete de Gilmar Mendes sobre o horário da audiência. “Não sei quanto tempo o ministro terá, mas, se for possível o roteiro abaixo, seria ótimo. Eu iria sozinho [ao gabinete] de 18h a 18h30, e de 18h30 até 19h entrariam duas pessoas para se juntarem à reunião”, escreveu o banqueiro. Entre os participantes estaria o ex-advogado-geral da União Bruno Bianco.
A secretária respondeu: “Fizemos um encaixe para o senhor. Ministro não tem todo esse tempo”. Vorcaro então perguntou: “Terei quantos minutos?”. A servidora respondeu: “Uns 15”.
Em nota, o gabinete de Gilmar Mendes confirmou a reunião e afirmou que ela ocorreu no STF, em ambiente institucional, com a participação de advogados do Banco Master. O ministro também destacou que seu posicionamento nos processos não foi favorável aos interesses do banco.
“Em nenhum desses processos o ministro votou em sentido favorável aos interesses apontados pela reportagem, inclusive após a audiência mencionada”, enfatizou o gabinete.
“O voto foi o mesmo em todos os demais casos do setor sucroalcooleiro julgados na Segunda Turma”, destacou. “No ARE 1.312.127 (Raízen), relatado pelo ministro, ele votou contra o pagamento do precatório, e a União saiu vitoriosa em 16 de setembro de 2024, vencidos os ministros Edson Fachin e Nunes Marques”.
“No ARE 1.392.660 (Jalles Machado), votou duas vezes contra o pagamento à usina, em 6 de agosto de 2024 e em 19 de agosto de 2025, ficando vencido nas duas ocasiões, acompanhado pelo ministro André Mendonça. No ARE 1.500.251 (Raízen), pediu destaque em 15 de agosto de 2025 e interrompeu um julgamento que se encaminhava em favor da usina. Na STP 976-ED, votou em todas as sessões contra a liberação do precatório de mais de `R$ 5 bilhões”, listou o gabinete do ministro.
A manifestação do ministro também abordou a relação entre Vorcaro e Chiquinho Feitosa. Mendes afirmou que não tinha conhecimento das tratativas entre os dois e que não responde por relações privadas ou profissionais de seus ex-parentes.
“O ministro não teve conhecimento de qualquer tratativa entre ele e Daniel Vorcaro, não foi procurado por ele para tratar dos assuntos mencionados e não responde por relações privadas ou profissionais de ex-parente”.