{"id":42309,"date":"2024-09-27T11:50:18","date_gmt":"2024-09-27T11:50:18","guid":{"rendered":"https:\/\/tvbrazilusa.com\/2024\/09\/27\/morre-armando-freitas-filho-um-dos-maiores-poetas-brasileiros-aos-80-anos\/"},"modified":"2024-09-27T11:50:20","modified_gmt":"2024-09-27T11:50:20","slug":"morre-armando-freitas-filho-um-dos-maiores-poetas-brasileiros-aos-80-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tvbrazilusa.com\/pt\/2024\/09\/27\/morre-armando-freitas-filho-um-dos-maiores-poetas-brasileiros-aos-80-anos\/","title":{"rendered":"Morre Armando Freitas Filho, um dos maiores poetas brasileiros, aos 80 anos"},"content":{"rendered":"<p> <script async src=\"https:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/js\/adsbygoogle.js?client=ca-pub-8864793242727901\"\r\n     crossorigin=\"anonymous\"><\/script><br \/>\n<\/p>\n<div id=\"taboola-read-more\" style=\"display:block; width:100%\">\n<p class=\"texto\">Morreu, ontem, aos 84 anos, o poeta carioca\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cidades-df\/2023\/10\/5138200-leitores-e-livreiros-contam-sobre-o-amor-pela-literatura.html\">Armando Freitas Filho<\/a>, um dos mais importantes da literatura brasileira moderna. Segundo a editora Companhia das Letras, que publicava os livros de Armando, o poeta morreu em raz\u00e3o de &#8220;complica\u00e7\u00f5es de sa\u00fade&#8221;. Ele \u00e9 autor, entre outros, de\u00a0<em>\u00c0 m\u00e3o livre<\/em>\u00a0(1979),\u00a0<em>3&#215;4<\/em>\u00a0(1985, vencedor do pr\u00eamio Jabuti),<em>\u00a0Rol<\/em>\u00a0(2016, vencedor do pr\u00eamio Rio de Literatura e APCA de 2016) e\u00a0<em>Arremate<\/em>\u00a0(2020).\n<\/p>\n<p>Armando \u00e9 autor de uma poesia que extrai a beleza do amor, das cenas cotidianas, do erotismo, da morte e do corpo a corpo com a vida. Carioca da gema, torcedor do Fluminense, antigo peladeiro, era, no entanto, grave e dram\u00e1tico como se fosse um russo. &#8220;Escrevo a minha vida.\/E o que sai do meu sonho\/ou do meu punho\/vem pela mesma veia\/em dic\u00e7\u00e3o urgente.&#8221;<\/p>\n<p>Para o poeta, cr\u00edtico e professor de literatura \u00cdtalo Moriconi, Armando \u00e9 um dos grandes poetas brasileiros do s\u00e9culo 20 e, mais precisamente, um dos cinco maiores da d\u00e9cada de 1970 em diante. Sintetiza a heran\u00e7a que recebeu do modernismo maduro, principalmente de Carlos Drummond de Andrade, em di\u00e1logo com o movimento Pr\u00e1xis e com a gera\u00e7\u00e3o marginal da d\u00e9cada de 1970, para construir uma poesia singular, em que est\u00e1 em cena n\u00e3o mais o homem de classe m\u00e9dia, mas, sim, um homem conturbado por contradi\u00e7\u00f5es.\n<\/p>\n<p>&#8220;Armando construiu um lugar s\u00f3 dele pelo f\u00f4lego de poeta, com uma tenacidade que atravessou seis d\u00e9cadas. Ele dialogou com v\u00e1rios movimentos, como companheiro de viagem. Existem afinidades com a tem\u00e1tica er\u00f3tica e sentimental da poesia marginal, mas de uma maneira muito original. A linguagem po\u00e9tica do Armando \u00e9 a consolida\u00e7\u00e3o de todas as possibilidades do modernismo. O coloquialismo chega a um alto artesanato e a uma alta voltagem&#8221;, comenta Moriconi.\n<\/p>\n<p>O amigo de Armando lembra que o poeta era uma figura provocadora, mas sempre afetuosa e estimulante: &#8220;N\u00e3o era bonzinho, n\u00e3o tinha papas na l\u00edngua, di\u00e1logo com ele era muito bom. Representava a mem\u00f3ria da Ana Cristina C\u00e9sar, com quem teve um relacionamento pessoal e po\u00e9tico. Ele conhecia os bastidores da poesia marginal. Ent\u00e3o, para a nossa gera\u00e7\u00e3o, isso era muito importante&#8221;, descreve Moriconi.\n<\/p>\n<p>A morte da amiga e namorada Ana Cristina C\u00e9sar, ao cair do vig\u00e9simo andar de um edif\u00edcio no Rio de Janeiro, foi um acontecimento traum\u00e1tico na vida de Armando. Tinha a impress\u00e3o de que ela nunca havia parado de cair e escreveu: &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o para de cair\/\u00e1gua de mina\/fugindo por entre os dedos de todos&#8221;.\n<\/p>\n<p>O poeta Eucana\u00e3 Ferraz destaca que antes de qualquer coisa, Armando era um poeta com todas as letras. Mesmo os amigos eram, acima de tudo, amigos do poeta: &#8220;Disse-me mais de uma vez: &#8216;Eu procuro a musa, n\u00e3o espero por ela.&#8217; Era um homem \u00e0 procura das palavras&#8221;. Eucana\u00e3 enfatiza outro aspecto marcante na postura de Armando Freitas: como poucos, dedicava-se a ouvir outros poetas. &#8220;Acompanhava os jovens autores, entusiasmava-se, comentava, sabia que faz\u00edamos parte de uma grande e estranha fam\u00edlia. E era muito engra\u00e7ado em sua gravidade. Que del\u00edcia ouvi-lo dizer coisas s\u00f3 suas, como &#8216;Drummond \u00e9 Deus'&#8221;.\n<\/p>\n<p>O escritor e jornalista Luis Turiba entrou em contato com Armando por meio da colet\u00e2nea 26 Poetas Hoje, que reuniu a produ\u00e7\u00e3o da chamada gera\u00e7\u00e3o marginal da d\u00e9cada de 1970. Turiba situa a poesia de Armando entre a de 1945, o alto modernismo de Carlos Drummond e o despojamento da gera\u00e7\u00e3o mimeogr\u00e1fo: &#8220;Ele pertence a esse time dos poetas de fino trato. O Armando e o Chico Alvim dialogavam com os cl\u00e1ssicos do modernismo. Drummond foi uma luz para todos n\u00f3s, mas, para eles, acho que foi mais. Era muito discreto, foi criado na Urca, um bairro onde as pessoas costumam se isolar&#8221;, analisa.\n<\/p>\n<p><strong>Simples e delicado<\/strong><br \/>O poeta e professor de literatura da Universidade de Bras\u00edlia Alexandre Pilati situa Armando na condi\u00e7\u00e3o de elo l\u00edrico entre Manuel Bandeira, Drummond, Ana Cristina C\u00e9sar e Antonio Candido. E, para ele, a poesia de Armando se distingue pela beleza que se exprime a partir da simplicidade e da delicadeza. &#8220;Ao l\u00ea-la, temos a impress\u00e3o de conversa ao p\u00e9 do ouvido com um amigo de longa data. Um amigo gentil, que nos ampara, acolhe e ensina o nosso olhar a ver no humilde, no mi\u00fado, o espanto da vida. Isso, muitas vezes, com um humor que humaniza o nosso desamparo, nossa ignor\u00e2ncia, nossos erros. \u00c9 belo que o pa\u00eds possa acolh\u00ea-lo entre o que h\u00e1 de melhor em nossa literatura&#8221;, afirma.\n<\/p>\n<p>Os dois mestres iniciais da poesia para Armando foram Manuel Bandeira e Drummond, quando o aspirante a poeta tinha 16 anos. Mas n\u00e3o vieram em forma de livro; chegaram com o disco presenteado pelo pai. No lado A, Bandeira dizia seus poemas com voz pigarreante e, no lado B, Drummond fazia o mesmo com voz datilogr\u00e1fica: &#8220;Poesia \u00e9 para mim o destino da minha vida e o meu mentor inicial foi o poeta de Pas\u00e1rgada&#8221;, escreveu Armando em depoimento. &#8220;Melhor: ele me ensinou que h\u00e1 uma P\u00e1sargada em cada um de n\u00f3s; o que nos cabe \u00e9 descobri-la, apaixonadamente&#8221;.\n<\/p>\n<p>Bandeira j\u00e1 era considerado um grande mestre, enquanto Drummond era tido como um poeta encrencado. Armando entendia que a grande fa\u00e7anha intelectual de sua vida foi ter passado do lado A para o lado B: &#8220;Nunca terminei de ler Drummond, \u00e9 uma tarefa infinita&#8221;, disse, em entrevista ao Correio. E houve um segundo encontro com Manuel Bandeira. O pai de Armando pediu uma avalia\u00e7\u00e3o do primeiro livro do filho e Bandeira sentenciou: &#8220;Interessant\u00edssimo&#8221;.\n<\/p>\n<p>No entanto, mais do que mestres ou m\u00famias acad\u00eamicas, Armando considerava Carlos Drummond, Manuel Bandeira e Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto inimigos poderosos com quem se confrontava para forjar a pr\u00f3pria voz. Ele escreveu in\u00fameros poemas para expressar, a um s\u00f3 tempo, a admira\u00e7\u00e3o e a luta pela singularidade. \u00c9 o que est\u00e1 registrado no poema &#8220;dna cda&#8221;, inclu\u00eddo no \u00faltimo livro, Arremate, em que coloca em jogo o apre\u00e7o e o embate com Carlos Drummond de Andrade: &#8220;N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel\/escapar de sua pedrada\/e esconder a ferida incur\u00e1vel\/do estigma.\/Nem paga a pena\/ser gen\u00e9rico ou placebo.\/Mais vale se embaralhar com ele\/e conseguir ficar de p\u00e9 \u2014\/descartar-se \u2014ensebado e livre\/sendo s\u00f3 eu sem o seu eco.&#8221;\n<\/p>\n<p>&#8220;Medalha no seu peito\/e no meu o cora\u00e7\u00e3o&#8221;, escreveu Armando, desconfiado das homenagens oficiais. No entanto, ele foi reverenciado em vida. Ganhou o Pr\u00eamio Jabuti, o Pr\u00eamio Alphonsus Guimar\u00e3es da Biblioteca Nacional, recebeu carta elogiosa do cr\u00edtico Antonio Candido e tornou-se personagem do document\u00e1rio de Walter Carvalho, produzido em 2016. &#8220;Pr\u00eamios, consagra\u00e7\u00f5es e respeito s\u00e3o duvidosos por natureza&#8221;, disse Armando, em entrevista. &#8220;H\u00e1 sempre aqueles que n\u00e3o me premiam, n\u00e3o me consagram, n\u00e3o me respeitam. Portanto, o sentimento que tenho, ao sentar para escrever, \u00e9 tentar fazer com que eles me respeitem, somente&#8221;.\n<\/p>\n<p><strong>Correspondente<\/strong><br \/>Poeta do corpo a corpo com a vida, Armando parecia um correspondente de guerra no Rio de Janeiro, que amava, mas definia como uma cidade assaltante, capaz de, em segundos, invadir a janela com a beleza ou o terror. No poema Rio, 30 de junho de 2017, para Arthur e sua m\u00e3e, ele evoca o incidente tr\u00e1gico de uma m\u00e3e atingida por uma bala perdida: &#8220;Nenhuma bala \u00e9 perdida.\/Todas alcan\u00e7am o alvo\/mais imprevisto \u2014 \u00fatero\/escudo, esconderijo escuro\/onde uma crian\u00e7a cresce\/e \u00e9 atingida atrav\u00e9s da m\u00e3e\/e a salva, desviando o tiro\/com o in\u00edcio da sua vida\/que resiste ainda por alguns dias&#8221;.\n<\/p>\n<p>Apaixonado pelo Rio, Armando pensou em morar em Bras\u00edlia, depois de ler uma famosa cr\u00f4nica de Clarice Lispector. &#8220;Como n\u00e3o morador, a minha sensa\u00e7\u00e3o bras\u00edlica foi guiada pela m\u00e3o dessa deusa Clarice Lispector. Quando li a cr\u00f4nica dela sobre Bras\u00edlia, fiquei comovido. Come\u00e7a com a magn\u00edfica frase: &#8216;Bras\u00edlia \u00e9 constru\u00edda na linha do horizonte'&#8221;, disse o poeta, em entrevista ao Correio.\n<\/p>\n<p>Armando n\u00e3o esperava a inspira\u00e7\u00e3o das musas para escrever poesia. Sabia o que era expira\u00e7\u00e3o, enfrentava o desafio, explorava o tema, fazia descobertas e o poema acontecia: &#8220;A \u00fanica coisa que sei fazer mais ou menos \u00e9 escrever&#8221;, afirmou em entrevista ao Correio: &#8220;Por isso, publico um livro a cada tr\u00eas anos&#8221;.\n<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos tempos, Armando preferia reler Drummond, Ferreira Gullar, Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto e Bandeira a ler os jornais: &#8220;Basta abrir o jornal ou ouvir o r\u00e1dio para saber que est\u00e1 acontecendo algo ruim. Eu me sinto assim, muito bem acompanhado por essa turma. Para mim, eles n\u00e3o morreram. Para mim, eles est\u00e3o todos vivos.&#8221; Considerava que ler Drummond era como ler a B\u00edblia, sempre encontrava alguma palavra salvadora no poeta de Itabira. Ao mesmo tempo, Armando gostava de ler a produ\u00e7\u00e3o das novas gera\u00e7\u00f5es, fazia observa\u00e7\u00f5es cr\u00edticas e estimulava os jovens.\n<\/p>\n<p>Ao fazer 80 anos, Armando disse, ao Correio, que era como fazer 100 ou, de maneira figurativa, ficasse na ponta do trampolim quando n\u00e3o tem mais nada, \u00e1gua, piscina ou mar. &#8220;Escrever \u00e9 a maneira de me manter vivo. O que eu quero fazer daqui para frente \u00e9 escrever para me manter vivo, para me manter equilibrado na ponta do trampolim.&#8221; Armando deixa a mulher Cristina Barros, os filhos Carlos e Maria. E tamb\u00e9m o livro in\u00e9dito Respiro. Cristina disse: &#8220;Fica a poesia dele&#8221;.\n<\/p>\n<p>Fonte:Correio Braziliense <\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/diariodobrasilnoticias.com.br\/noticia\/morre-armando-freitas-filho-um-dos-maiores-poetas-brasileiros-aos-80-anos-66f6844a2c6e5\">Source link <\/a><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Morreu, ontem, aos 84 anos, o poeta carioca\u00a0Armando Freitas Filho, um dos mais importantes da literatura brasileira moderna. 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