{"id":55041,"date":"2024-11-05T17:05:13","date_gmt":"2024-11-05T17:05:13","guid":{"rendered":"https:\/\/tvbrazilusa.com\/2024\/11\/05\/babas-sem-nome-mostram-um-brasil-que-ainda-vive-o-seculo-18\/"},"modified":"2024-11-05T17:05:15","modified_gmt":"2024-11-05T17:05:15","slug":"babas-sem-nome-mostram-um-brasil-que-ainda-vive-o-seculo-18","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tvbrazilusa.com\/pt\/2024\/11\/05\/babas-sem-nome-mostram-um-brasil-que-ainda-vive-o-seculo-18\/","title":{"rendered":"Bab\u00e1s sem nome mostram um Brasil que ainda vive o s\u00e9culo 18"},"content":{"rendered":"<p> <script async src=\"https:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/js\/adsbygoogle.js?client=ca-pub-8864793242727901\"\r\n     crossorigin=\"anonymous\"><\/script><br \/>\n<\/p>\n<div>\n<figure class=\"post-image\">\n<\/figure>\n<p>            <span style=\"font-size: 12px\">Getty Images<\/span><\/p>\n<p>            <!-- end metas --><br \/>\n            <!-- ADS --><\/p>\n<div id=\"taboola-read-more\" style=\"display:block; width:100%\">\n<p>A heran\u00e7a colonial e escravocrata permanece nas rela\u00e7\u00f5es cotidianas, onde o racismo, o apagamento e a desumaniza\u00e7\u00e3o de mulheres negras que cuidam de gera\u00e7\u00f5es sem serem reconhecidas s\u00e3o escondidos atrav\u00e9s de \u201cafetos\u201d tortos.\n<\/p>\n<p data-gtm-vis-recent-on-screen104869357_94=\"2915086\" data-gtm-vis-first-on-screen104869357_94=\"2915086\" data-gtm-vis-total-visible-time104869357_94=\"100\" data-gtm-vis-has-fired104869357_94=\"1\">Recebi de uma amiga um v\u00eddeo de uma cantora branca celebrando a bab\u00e1 dos seus filhos, uma mulher negra idosa retratada com a legenda \u201ca mam\u00e3e b\u00e1\u201d, num tributo que, \u00e0 primeira vista, parecia afetuoso. Mas, na ess\u00eancia, revelou-se um espelho cruel de um Brasil que nunca desfez suas amarras. N\u00e3o importava o nome da senhora; o que ecoava ali era o sil\u00eancio do nome real da bab\u00e1, reduzida a um r\u00f3tulo que carrega afeto e submiss\u00e3o, amor e subservi\u00eancia. Uma sombra acalentadora que \u00e9 vista, mas n\u00e3o ouvida. O v\u00eddeo parecia uma ode, mas era uma can\u00e7\u00e3o triste de apagamento e hierarquia. Tinha amor, mas se ama uma cole\u00e7\u00e3o de canecas, coisas. N\u00e3o se trata de sentimentos, at\u00e9 porque os canalhas tamb\u00e9m amam.<\/p>\n<p>E assim, seguimos contando a velha hist\u00f3ria em tons modernos. N\u00e3o \u00e9 apenas tal cantora; s\u00e3o tantos, incont\u00e1veis, que n\u00e3o questionam a forma como perpetuam costumes coloniais. Enquanto os lares se erguem sob um verniz de progresso, ainda h\u00e1 nelas quartos apertados e horas incont\u00e1veis de servi\u00e7o que nunca s\u00e3o mencionadas em conversas \u00e0 mesa. O Brasil precisa olhar para essas pr\u00e1ticas que disfar\u00e7a de afeto e rever suas ra\u00edzes que, em vez de nutrir a terra de equidade, a contaminam com a repeti\u00e7\u00e3o das mesmas injusti\u00e7as. \u00c9 hora de ver al\u00e9m da \u201cmam\u00e3e b\u00e1\u201d, de reconhecer nomes, hist\u00f3rias, sonhos e dores que sempre estiveram ali, \u00e0 sombra do conforto da branquitude do topo da pir\u00e2mide, \u00e0s vezes no meio dela. PESSOAS que doaram a sua exist\u00eancia, que n\u00e3o constru\u00edram sua pr\u00f3pria fam\u00edlia ou que deixaram seus filhos para cuidarem dos filhos dos patr\u00f5es.\n<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.metropoles.com\/brasil\/enem-2024-redacao-tem-como-tema-heranca-africana-no-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O tema do Enem deste ano desnudou essa ferida<\/a>. Jovens que nunca se preocuparam em saber o nome e a hist\u00f3ria da \u201cb\u00e1\u201d de suas casas, agora se viram diante da necessidade de escrever sobre o que sempre ignoraram \u2013 pessoas, culturas e contribui\u00e7\u00f5es sociais, tecnol\u00f3gicas e econ\u00f4micas. A proposta os incomodou, levantou desconfortos e ofensas. Afinal, como explicar em uma reda\u00e7\u00e3o as marcas profundas de um racismo herdado e aceito como normal? Como reconhecer, em palavras, que a \u201cb\u00e1\u201d que os criou n\u00e3o era apenas a sombra carinhosa de um lar, mas uma mulher com sonhos, dores e mem\u00f3rias t\u00e3o leg\u00edtimas quanto as de qualquer m\u00e3e ou pai?\n<\/p>\n<blockquote>\n<p>O Brasil, apesar de suas muitas m\u00e1scaras e artif\u00edcios modernos, segue o roteiro de um pa\u00eds que nunca se libertou verdadeiramente das correntes que o moldaram. As bab\u00e1s, essas mulheres cujo nome \u00e9 trocado pelo monoss\u00edlabo \u201cb\u00e1\u201d, s\u00e3o a prova viva dessa estrutura colonial que persiste, uma cicatriz aberta na sociedade que se proclama justa, mas que ainda se perde na repeti\u00e7\u00e3o de seus pr\u00f3prios abusos.\n<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<p>Na casa dos senhores, a \u201cb\u00e1\u201d ocupa um espa\u00e7o t\u00e3o invis\u00edvel quanto fundamental. Uma pe\u00e7a que, embora imprescind\u00edvel, n\u00e3o tem nome, hist\u00f3ria ou mem\u00f3ria. Ela n\u00e3o faz parte das fotos da fam\u00edlia que serviu durante gera\u00e7\u00f5es \u2013 quando faz parte \u00e9 \u201cpara ingl\u00eas ver\u201d (procure saber o motivo do surgimento deste termo); seu rosto se apaga entre os retratos felizes pendurados na parede. Quando a \u201cb\u00e1\u201d atravessa o tapete macio da sala, \u00e9 como se flutuasse, um fantasma cuja exist\u00eancia \u00e9 percebida apenas na aus\u00eancia dos cuidados prestados. Mas quando ela fala, quando ri, quando repousa, a sociedade a coloca em seu lugar. Um lugar pequeno, sufocante, um quartinho estreito onde n\u00e3o cabe sequer o eco de sua pr\u00f3pria voz. Diante disso, cabe perguntar: quem conhece a hist\u00f3ria da \u201cb\u00e1\u201d? Quem ousa conhec\u00ea-la? O nome dela \u00e9 esquecido por conveni\u00eancia, e, assim, perpetua-se um ciclo de apagamento. Quando essas mulheres falecem, as mem\u00f3rias das fam\u00edlias que cuidaram por d\u00e9cadas n\u00e3o s\u00e3o passadas a limpo; elas se desvanecem como se nunca tivessem existido. \u201cAqui jaz nossa \u2018b\u00e1\u2019\u201d, diria uma l\u00e1pide ap\u00e1tica, sem nome, sem origem, sem descend\u00eancia. Uma placa indigna, que resume gera\u00e7\u00f5es de servi\u00e7o e sacrif\u00edcio a um papel sem rosto.\n<\/p>\n<p>O racismo que a sociedade brasileira nega com veem\u00eancia se esconde nos detalhes, no tratamento submisso e desumanizante. Os senhores e senhoras, que at\u00e9 acreditam amar essas mulheres, nunca entenderam que esse \u201camor\u201d \u00e9 enviesado, um reflexo de um poder que subjuga e acomoda. E \u00e9 nesse jogo de sombras que o racismo se perpetua, disfar\u00e7ado de afeto, de agradecimento e de generosidade \u2013 no fundo, migalhas. N\u00e3o \u00e9 suficiente n\u00e3o concordar com o racismo; \u00e9 preciso reconhec\u00ea-lo nas pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es e, mais ainda, estar disposto a enxergar a viol\u00eancia impl\u00edcita que se desenrola sob o mesmo teto.\n<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<blockquote>\n<p>O Brasil que ainda chama suas bab\u00e1s de \u201cb\u00e1\u201d, que as submete a quartos menores que arm\u00e1rios e que n\u00e3o respeita seus hor\u00e1rios de descanso, \u00e9 o mesmo Brasil colonial, escravocrata, que insiste em se disfar\u00e7ar de na\u00e7\u00e3o evolu\u00edda, democr\u00e1tica. Enquanto as hist\u00f3rias dessas mulheres forem silenciadas, continuaremos reescrevendo, em um ciclo cruel e intermin\u00e1vel, um roteiro que nunca deveria ter sido escrito. \u00c9 tempo de dar nome a quem sempre teve. \u00c9 tempo de lembrar que a hist\u00f3ria de uma na\u00e7\u00e3o n\u00e3o se faz s\u00f3 dos que a comandam, mas, sobretudo, daqueles que, invis\u00edveis, a sustentam.\n<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<p>Negros e negras foram arrancados de suas ra\u00edzes e trazidos \u00e0 for\u00e7a, despidos de suas l\u00ednguas, hist\u00f3rias e nomes. Os nomes que carregavam, ecos de suas origens, foram apagados e substitu\u00eddos pelos de seus senhores, marcas de um dom\u00ednio cruel. Hoje, essa sombra persiste; essas pessoas, descendentes de sobreviventes, ainda caminham sem identidade plena, reduzidas a t\u00edtulos que servem mais ao conforto alheio do que \u00e0 verdade de suas exist\u00eancias. Os s\u00e9culos passaram, mas o Brasil insiste em manter viva a pr\u00e1tica de calar nomes e apagar hist\u00f3rias, deixando apenas um vazio onde deveria haver orgulho e reconhecimento.\n<\/p>\n<p>A \u201csua b\u00e1\u201d n\u00e3o \u00e9 \u201cquase da fam\u00edlia\u201d, at\u00e9 porque ela n\u00e3o herdar\u00e1 nada. E gente da fam\u00edlia, o patr\u00e3o e a patroa tratam como gente e tem nome e sobrenome.\n<\/p>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/diariodobrasilnoticias.com.br\/noticia\/babas-sem-nome-mostram-um-brasil-que-ainda-vive-o-seculo-18-672a352c7536c\">Source link <\/a><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Getty Images A heran\u00e7a colonial e escravocrata permanece nas rela\u00e7\u00f5es cotidianas, onde o racismo, o apagamento e a desumaniza\u00e7\u00e3o de mulheres negras que cuidam de gera\u00e7\u00f5es sem serem reconhecidas s\u00e3o&hellip;<\/p>","protected":false},"author":1,"featured_media":55042,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"content-type":"","footnotes":""},"categories":[16],"tags":[123,2448,5313,1267],"class_list":["post-55041","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-brasil","tag-diario","tag-noticia","tag-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/tvbrazilusa.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55041","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/tvbrazilusa.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/tvbrazilusa.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvbrazilusa.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvbrazilusa.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=55041"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/tvbrazilusa.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55041\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":55043,"href":"https:\/\/tvbrazilusa.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55041\/revisions\/55043"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvbrazilusa.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/55042"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/tvbrazilusa.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=55041"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/tvbrazilusa.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=55041"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/tvbrazilusa.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=55041"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}