{"id":73795,"date":"2024-12-10T00:34:34","date_gmt":"2024-12-10T00:34:34","guid":{"rendered":"https:\/\/tvbrazilusa.com\/2024\/12\/10\/tortura-de-prisioneiros-por-terrorismo-na-venezuela-sem-oxigenio-ate-sufocar-dizem-relatos\/"},"modified":"2024-12-10T00:34:36","modified_gmt":"2024-12-10T00:34:36","slug":"tortura-de-prisioneiros-por-terrorismo-na-venezuela-sem-oxigenio-ate-sufocar-dizem-relatos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tvbrazilusa.com\/pt\/2024\/12\/10\/tortura-de-prisioneiros-por-terrorismo-na-venezuela-sem-oxigenio-ate-sufocar-dizem-relatos\/","title":{"rendered":"Tortura de prisioneiros por terrorismo na Venezuela: &#8216;sem oxig\u00eanio at\u00e9 sufocar&#8217;, dizem relatos"},"content":{"rendered":"<p> <script async src=\"https:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/js\/adsbygoogle.js?client=ca-pub-8864793242727901\"\r\n     crossorigin=\"anonymous\"><\/script><br \/>\n<\/p>\n<div id=\"taboola-read-more\" style=\"display:block; width:100%\">\n<p>&#8220;J\u00e1 me torturaram e me reprimiram, mas n\u00e3o v\u00e3o me calar. Minha voz \u00e9 tudo o que me resta.&#8221;\n<\/p>\n<p>Assim come\u00e7a o relato de Juan, um jovem de cerca de 20 anos. Ele afirma ter sido torturado, f\u00edsica e psicologicamente, pelas for\u00e7as de seguran\u00e7a da Venezuela quando ficou preso, logo ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es presidenciais realizadas no pa\u00eds, no \u00faltimo dia 28 de julho.<\/p>\n<p>Juan foi uma das 1,8 mil pessoas que, segundo a ONG Foro Penal, foram detidas durante os protestos realizados depois que o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) venezuelano anunciou, sem publicar as atas das apura\u00e7\u00f5es, que o atual ditador Nicol\u00e1s Maduro saiu vencedor no pleito. A oposi\u00e7\u00e3o e diversos outros pa\u00edses consideram que este resultado \u00e9 uma fraude eleitoral.\n<\/p>\n<p>Os n\u00fameros de pessoas detidas divulgados pelo regime do pa\u00eds s\u00e3o difusos. No in\u00edcio de agosto, Maduro afirmou que j\u00e1 havia &#8220;2.229 terroristas capturados&#8221;. Juan foi libertado em meados de novembro, dias depois de Maduro ter convocado as autoridades judiciais a retificar eventuais casos de injusti\u00e7a nas deten\u00e7\u00f5es.\n<\/p>\n<p>A BBC News Mundo, servi\u00e7o em espanhol da BBC, conversou com Juan por videochamada. Para sua pr\u00f3pria seguran\u00e7a, alteramos seu nome e decidimos n\u00e3o publicar certos detalhes do seu caso.\n<\/p>\n<p>O jovem afirma que muitos dos detidos s\u00e3o maltratados, recebem &#8220;comida apodrecida&#8221; e os mais rebeldes s\u00e3o trancados em salas de tortura. Ele mostrou \u00e0 BBC documentos e provas confirmando seu relato, que coincide com outros testemunhos e com as den\u00fancias de organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais.\n<\/p>\n<p>Juan \u00e9 ativista pol\u00edtico opositor ao governo. Ele diz que a campanha eleitoral e os dias anteriores ao pleito foram &#8220;marcados pela esperan\u00e7a, com muitas pessoas animadas&#8221; para votar pela mudan\u00e7a. Mas o an\u00fancio do CNE, pouco depois da meia-noite daquele domingo, transformou o que, para muitos, era um ambiente de comemora\u00e7\u00e3o em um momento de raiva e confus\u00e3o.\n<\/p>\n<p>Milhares de venezuelanos sa\u00edram \u00e0s ruas para protestar contra um resultado considerado fraudulento. A oposi\u00e7\u00e3o e as organiza\u00e7\u00f5es internacionais denunciaram a repress\u00e3o policial. Ao menos 24 pessoas morreram nos protestos, segundo a ONG Provea. Maduro e alguns funcion\u00e1rios do governo declararam que a oposi\u00e7\u00e3o, a &#8220;extrema direita&#8221; e &#8220;grupos terroristas&#8221; s\u00e3o os culpados pelas mortes.\n<\/p>\n<p>A ONG Foro Penal, com sede na Venezuela, tamb\u00e9m tem registro de 23 pessoas detidas que desapareceram. &#8220;Ningu\u00e9m sabe onde eles est\u00e3o neste momento e temos absoluta certeza de que foram detidos&#8221;, declarou o advogado e ativista venezuelano Gonzalo Himiob, vice-presidente da organiza\u00e7\u00e3o.\n<\/p>\n<p>O regime venezuelano n\u00e3o respondeu \u00e0s den\u00fancias sobre pessoas desaparecidas ap\u00f3s os protestos.\n<\/p>\n<p>&#8220;Houve deten\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias&#8221;, prossegue Himiob. &#8220;Existem registros de pessoas que foram detidas por comemorar o resultado da oposi\u00e7\u00e3o, que dava Edmundo Gonz\u00e1lez como vencedor, ou por alguma publica\u00e7\u00e3o nas redes sociais&#8221;. acrescentou. &#8220;Tamb\u00e9m temos casos de pessoas que sequer estavam protestando, mas que, por alguma raz\u00e3o, estavam pr\u00f3ximas das manifesta\u00e7\u00f5es e foram presas.&#8221;\n<\/p>\n<p>Juan afirma que faz parte deste \u00faltimo grupo.\n<\/p>\n<p>Campo de concentra\u00e7\u00e3o<br \/>O jovem \u00e9 conhecido na sua localidade pelo seu ativismo pol\u00edtico. Ele conta que, depois da elei\u00e7\u00e3o, o pa\u00eds amanheceu sob alta vigil\u00e2ncia policial e militar. Ele afirma que estava na rua em seus afazeres, quando surgiu um grupo de homens encapuzados. Eles o interceptaram, cobriram seu rosto e o agrediram, enquanto o chamavam de terrorista.\n<\/p>\n<p>&#8220;Eles jogaram gasolina em mim&#8221;, prossegue ele. &#8220;Depois me levaram para um centro de deten\u00e7\u00e3o.&#8221; Juan destaca que esta n\u00e3o foi a primeira vez que isso aconteceu. Ele j\u00e1 havia sido sequestrado em 2017, quando dezenas de milhares de venezuelanos sa\u00edram \u00e0s ruas para protestar contra o governo de Maduro. Ele conta que, desde ent\u00e3o, as autoridades o amea\u00e7am ou perseguem constantemente. Mas, desta vez, ele foi acusado de terrorismo, incita\u00e7\u00e3o ao \u00f3dio e outros crimes.\n<\/p>\n<p>O jovem ficou detido em uma pris\u00e3o no interior da Venezuela por v\u00e1rias semanas, at\u00e9 ser transferido para Tocor\u00f3n \u2014uma penitenci\u00e1ria de seguran\u00e7a m\u00e1xima, localizada a cerca de 140 km a sudoeste da capital venezuelana, Caracas. O local \u00e9 conhecido por ter sido uma base de opera\u00e7\u00f5es do Trem de Aragua, um dos grupos criminosos mais temidos da Am\u00e9rica Latina. Ali, Juan viveria o que considera a pior experi\u00eancia da sua vida.\n<\/p>\n<p>&#8220;Quando chegamos a Tocor\u00f3n, eles tiraram nossas roupas, nos agrediram e nos insultaram, gritando terroristas. \u00c9ramos proibidos de levantar o rosto e olhar para os carcereiros; t\u00ednhamos que baixar o rosto em dire\u00e7\u00e3o ao ch\u00e3o&#8221;, relata. &#8220;Depois, eles nos uniformizaram e nos fizeram subir para as celas.&#8221;\n<\/p>\n<p>Juan ficou em uma pequena cela de tr\u00eas por tr\u00eas metros, que ele precisava dividir com outras cinco pessoas. Havia ali seis camas distribu\u00eddas em tr\u00eas beliches e um &#8220;quadradinho&#8221; sem privacidade em um dos cantos, onde havia um po\u00e7o s\u00e9ptico e &#8220;um tubo que servia de chuveiro&#8221;. Aquele era o banheiro.\n<\/p>\n<p>Juan descreve as camas como &#8220;t\u00famulos de cimento&#8221;, com um colchonete muito fino. &#8220;Mais do que em uma pris\u00e3o, em Tocor\u00f3n eu me senti em um campo de concentra\u00e7\u00e3o&#8221;, declara. &#8220;Aquilo me fez pensar no que havia visto em filmes e ouvido falar sobre os campos de concentra\u00e7\u00e3o e tortura da ditadura de Augusto Pinochet no Chile (1973-1990).&#8221;\n<\/p>\n<p>O governo venezuelano acusa a maior parte dos detidos nos protestos de terrorismo, incita\u00e7\u00e3o ao \u00f3dio, associa\u00e7\u00e3o criminosa, danos violentos ao patrim\u00f4nio p\u00fablico e obstru\u00e7\u00e3o das vias p\u00fablicas. O presidente Maduro os chamou de &#8220;criminosos fascistas&#8221; e se orgulhou de t\u00ea-los enviado para as pris\u00f5es de seguran\u00e7a m\u00e1xima.\n<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o foram manifesta\u00e7\u00f5es pac\u00edficas, mas sim focos de delinquentes armados, que atuavam para criar o caos e buscar uma interven\u00e7\u00e3o estrangeira&#8221;, declarou h\u00e1 algumas semanas o procurador-geral da Venezuela, Tarek William Saab.\n<\/p>\n<p>O ministro do interior do pa\u00eds, Diosdado Cabello, acrescentou que &#8220;n\u00e3o podemos continuar assim. Aqui, a cada perd\u00e3o, ocorre uma nova conspira\u00e7\u00e3o e, a cada conspira\u00e7\u00e3o, um novo perd\u00e3o.&#8221;\n<\/p>\n<p>No dia 11 de novembro, Maduro convocou os ju\u00edzes do pa\u00eds a revisar os casos e retificar eventuais erros nas deten\u00e7\u00f5es ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es. E, cinco dias depois, a Procuradoria-Geral da Venezuela anunciou a liberta\u00e7\u00e3o de 225 pessoas detidas durante os protestos.\n<\/p>\n<p>Segundo o Minist\u00e9rio P\u00fablico, a decis\u00e3o foi o resultado de &#8220;exaustivas investiga\u00e7\u00f5es baseadas em novos ind\u00edcios e elementos comprobat\u00f3rios reunidos pelos procuradores&#8221;. Juan faz parte do grupo que foi libertado e acredita que, assim como ele, muitas pessoas foram libertadas por apresentarem alguma condi\u00e7\u00e3o m\u00e9dica.\n<\/p>\n<p>Dia a dia desumano<br \/>Juan descreve o dia a dia dos presos em Tocor\u00f3n como &#8220;mon\u00f3tono e desumano&#8221;. &#8220;Eles nos torturavam f\u00edsica e psicologicamente&#8221;, conta. &#8220;N\u00e3o nos deixavam dormir, sempre passavam, pedindo que nos levant\u00e1ssemos e fiz\u00e9ssemos fila.&#8221;\n<\/p>\n<p>&#8220;Nunca sab\u00edamos que horas eram porque n\u00e3o havia rel\u00f3gios. Come\u00e7amos a perguntar a hora aos visitantes e, depois, com os raios de sol, come\u00e7amos a calcular a hora, \u00e0 medida que a luz do sol subia pela parede&#8221;, prossegue ele.\n<\/p>\n<p>&#8220;Eles nos acordavam perto das cinco horas da manh\u00e3, para formarmos fila por tr\u00e1s da cela. Os carcereiros pediam que n\u00f3s mostr\u00e1ssemos nossos passes e n\u00fameros.&#8221; Perto das seis horas da manh\u00e3, segundo Juan, eles ligavam a \u00e1gua por seis minutos, para que os presos tomassem banho. &#8220;Seis minutos para seis pessoas e um \u00fanico chuveiro, com \u00e1gua muito fria&#8221;, relembra. &#8220;Se voc\u00ea fosse o \u00faltimo e n\u00e3o tivesse tempo de tirar o sab\u00e3o, ficava ensaboado pelo resto do dia.&#8221;\n<\/p>\n<p>Ele conta que, em seguida, os presos esperavam pelo caf\u00e9 da manh\u00e3. \u00c0s vezes, a refei\u00e7\u00e3o chegava \u00e0s seis horas; \u00e0s vezes, ao meio-dia. &#8220;Al\u00e9m de esperar pelas refei\u00e7\u00f5es, n\u00e3o havia mais nada para fazer. S\u00f3 pod\u00edamos caminhar dentro da pequena cela e contar hist\u00f3rias. Tamb\u00e9m fal\u00e1vamos de pol\u00edtica, mas em voz baixa porque, se os carcereiros nos ouvissem, eles nos castigavam.&#8221;\n<\/p>\n<p>Juan conta que outros presos passavam parte do dia contemplando a montanha e a rua, atrav\u00e9s das pequenas janelas nas celas. O hor\u00e1rio do jantar era t\u00e3o incerto quanto o do caf\u00e9 da manh\u00e3, segundo ele. &#8220;\u00c0s vezes, podia chegar \u00e0s nove da noite e, em outros dias, \u00e0s duas da manh\u00e3.&#8221;\n<\/p>\n<p>&#8216;Surras rotineiras&#8217;<br \/>Juan conta que muitos dos seus colegas estavam deprimidos. Alguns haviam perdido a vontade de viver. &#8220;Muitos agiam como zumbis&#8221;, relembra. &#8220;S\u00f3 esperavam a comida que, al\u00e9m de tudo, era de p\u00e9ssima qualidade.&#8221;\n<\/p>\n<p>&#8220;Eles nos davam comida apodrecida. \u00c0s vezes, serviam pele com arroz picado, o mesmo que se d\u00e1 para as galinhas ou para os cachorros. Outras vezes, eles nos davam sardinhas que j\u00e1 estavam vencidas.&#8221;\n<\/p>\n<p>No dia em que saiu da pris\u00e3o, Juan recorda que todos os presos que seriam libertados tiraram fotos em frente a um prato com bons alimentos balanceados. &#8220;Imagino que fizeram para ter provas de que nos trataram bem.&#8221; Mas ele afirma que passou muita fome e que ainda tem fome at\u00e9 hoje.\n<\/p>\n<p>Segundo Juan, alguns detidos recebiam surras rotineiras ou eram obrigados a &#8220;caminhar como sapos&#8221;, com as m\u00e3os nos tornozelos. Ele tamb\u00e9m descreve &#8220;celas de castigo&#8221;, onde s\u00e3o colocados os detentos considerados mais rebeldes, que se atrevem a falar de pol\u00edtica ou que pedem uma liga\u00e7\u00e3o telef\u00f4nica para se comunicar com seus familiares.\n<\/p>\n<p>&#8220;Eles as chamam de tigrinhos e as condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o realmente desumanas&#8221;, declarou Gonzalo Himiob. Juan conta que esteve no tigrinho de Tocor\u00f3n e recebia uma refei\u00e7\u00e3o a cada dois dias. &#8220;\u00c9 uma cela muito escura, que mede um metro por um metro&#8221;, conta. &#8220;Passei muit\u00edssima fome. S\u00f3 de me lembrar, me d\u00e1 fome.&#8221;\n<\/p>\n<p>&#8220;O que me mantinha com for\u00e7as era pensar em todas as injusti\u00e7as por que estava passando e que, algum dia, iria sair dali.&#8221; Em Tocor\u00f3n, existe outra cela de tortura, conhecida como &#8220;cama do Adolfo&#8221;, segundo Juan. Os presos dizem que o nome \u00e9 uma homenagem \u00e0 primeira pessoa que morreu ali.\n<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 um quarto escuro e sem muito oxig\u00eanio, do tamanho de um cofre&#8221;, descreve. &#8220;Eles colocam voc\u00ea ali por alguns minutos at\u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o consiga mais respirar e desmaie, ou comece a bater na porta em desespero.&#8221;\n<\/p>\n<p>&#8220;Eles me colocaram e aguentei pouco mais de cinco minutos. Pensei que fosse morrer.&#8221;\n<\/p>\n<p>&#8220;Eu sinto pela minha m\u00e3e, minha fam\u00edlia e pelas pessoas que me amam, que sempre me pedem para ficar tranquilo, mas nunca deixarei de lutar pelo futuro da Venezuela&#8221;, prossegue. Ele diz que perdeu na pris\u00e3o de Tocor\u00f3n o pouco medo que ainda tinha.\n<\/p>\n<p>Den\u00fancias de crimes contra a humanidade<br \/>Juan conta que, naquela pris\u00e3o, os detentos t\u00eam 10 minutos para sair da cela, tr\u00eas vezes por semana. &#8220;Existem dois campos e, durante os 10 minutos, os presos jogam futebol, voleibol ou caminham. Mas, \u00e0s vezes, n\u00e3o d\u00e1 tempo nem de tocar na bola.&#8221;\n<\/p>\n<p>&#8220;Muitos ficam nas suas celas porque passamos mais tempo para sair em fila, descer e subir, do que l\u00e1 embaixo&#8221;, conta. Juan denuncia que n\u00e3o existem direitos humanos naquela pris\u00e3o. &#8220;O governo trata melhor outros presos, que s\u00e3o realmente criminosos, do que a n\u00f3s&#8221;, prossegue. &#8220;Se voc\u00ea visitar outra pris\u00e3o venezuelana, ver\u00e1 que os detentos tomam \u00e1lcool, fumam, t\u00eam telefones e at\u00e9 Netflix.&#8221;\n<\/p>\n<p>Himiob, o advogado e ativista da ONG Foro Penal, qualifica as condi\u00e7\u00f5es dos detidos em Tocor\u00f3n de deplor\u00e1veis. Ele afirma que a pris\u00e3o viola seus direitos fundamentais, como o acesso \u00e0 defesa particular. &#8220;Eles imp\u00f5em advogados defensores p\u00fablicos a todos&#8221;, conta. &#8220;Inicialmente, n\u00e3o permitiam seus contatos com os familiares, mas, at\u00e9 hoje, estes contatos acontecem esporadicamente.&#8221;\n<\/p>\n<p>&#8220;O governo sabe que, se permitir o acesso a um advogado privado, que n\u00e3o seja funcion\u00e1rio p\u00fablico, ele pode documentar todas as viola\u00e7\u00f5es ao processo devido que est\u00e3o acontecendo ali.&#8221;\n<\/p>\n<p>Em outubro, especialistas das Na\u00e7\u00f5es Unidas apresentaram den\u00fancias de graves viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos, durante as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 28 de julho e os protestos que ocorreram nos dias seguintes. Eles relataram persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, uso excessivo da for\u00e7a, desaparecimentos for\u00e7ados e execu\u00e7\u00f5es extrajudiciais pelas for\u00e7as de seguran\u00e7a do Estado e grupos civis governistas.\n<\/p>\n<p>Atualmente, o Tribunal Penal Internacional (TPI) investiga o governo da Venezuela por poss\u00edveis crimes contra a humanidade. O governo venezuelano declarou em um comunicado que esta investiga\u00e7\u00e3o &#8220;responde \u00e0 inten\u00e7\u00e3o de instrumentalizar os mecanismos de justi\u00e7a penal internacional com fins pol\u00edticos, com base em uma acusa\u00e7\u00e3o por supostos crimes contra a humanidade que nunca aconteceram&#8221;.\n<\/p>\n<p>A BBC News Mundo solicitou entrevista com o Minist\u00e9rio P\u00fablico venezuelano sobre as acusa\u00e7\u00f5es de maus tratos e tortura dos detentos, mas n\u00e3o recebeu resposta at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o desta reportagem.\n<\/p>\n<p>&#8216;N\u00e3o tenho mais medo do governo&#8217;<br \/>Juan afirma que muitos dos detentos de Tocor\u00f3n s\u00f3 pensam em uma data: 10 de janeiro de 2025. \u00c9 o dia em que deveria ser realizada a transi\u00e7\u00e3o de poder, ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es presidenciais do \u00faltimo dia 28 de julho. Eles acreditam que ser\u00e3o libertados nesse dia, depois de uma transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.\n<\/p>\n<p>Edmundo Gonz\u00e1lez \u2014o l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o que se proclamou vencedor das elei\u00e7\u00f5es, segundo os resultados de mais de 80% das atas eleitorais e, atualmente, est\u00e1 exilado na Espanha\u2014 afirma que ir\u00e1 regressar ao pa\u00eds para tomar posse de seu cargo como presidente eleito.\n<\/p>\n<p>Por outro lado, Maduro denunciou que existe uma conspira\u00e7\u00e3o em andamento para derrub\u00e1-lo e amea\u00e7ou quem se atrever a for\u00e7ar a transi\u00e7\u00e3o de poder. &#8220;Ir\u00e1 pagar&#8221;, declarou.\n<\/p>\n<p>Tr\u00eas semanas depois das 225 liberta\u00e7\u00f5es de presos anunciadas pelo governo, a ONG Foro Penal conseguiu confirmar apenas 165. Juan admite que sente uma estranha sensa\u00e7\u00e3o de remorso, j\u00e1 que centenas de seus &#8220;companheiros ainda est\u00e3o sofrendo&#8221; na pris\u00e3o.\n<\/p>\n<p>O jovem declarou que nunca pensou em emigrar. Ele diz que ainda sonha com uma Venezuela pr\u00f3spera. &#8220;Quero que todos n\u00f3s possamos viver bem, em harmonia e que n\u00f3s, jovens, tenhamos a oportunidade de ir para a universidade&#8221;, destaca.\n<\/p>\n<p>&#8220;Amo profundamente o meu pa\u00eds. Estamos atravessando a pior crise e, mesmo com cortes quase di\u00e1rios de eletricidade no interior, n\u00f3s, venezuelanos, continuamos sendo um povo alegre e positivo.&#8221;\n<\/p>\n<p>Juan afirma que, no dia 10 de janeiro, pretende estar novamente nas ruas, acompanhado de Edmundo Gonz\u00e1lez, apesar das amea\u00e7as que recebeu ao sair da pris\u00e3o. &#8220;N\u00e3o tenho mais medo do governo da Venezuela&#8221;, afirma.\n<\/p>\n<p>&#8220;Eles me culpam dos piores delitos que podem ser imputados a uma pessoa, como terrorismo, mas sou um jovem que n\u00e3o fez mais do que amar nosso pa\u00eds e ajudar as pessoas \u00e0 minha volta.&#8221;\n<\/p>\n<p>Recentemente, a ONG Provea denunciou a morte do opositor pol\u00edtico Edwin Santos. Ele foi encontrado morto no dia 25 de outubro, dois dias depois que testemunhas presenciaram sua deten\u00e7\u00e3o por um grupo de homens encapuzados, supostamente das for\u00e7as de seguran\u00e7a.\n<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o tenho medo&#8221;, repete Juan. Mas ele admite ter deixado pap\u00e9is escritos &#8220;para o caso de me acontecer alguma coisa&#8221;.\n<\/p>\n<p>A batalha das 225 pessoas que foram libertadas este m\u00eas n\u00e3o termina com a sua volta para casa, segundo os familiares. Eles contam que muitos trazem sequelas psicol\u00f3gicas do que enfrentaram na pris\u00e3o e j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o as mesmas pessoas.\n<\/p>\n<p>O pai de outro jovem libertado contou \u00e0 BBC que seu filho n\u00e3o para de chorar, desde que voltou para casa. &#8220;Temos tentado dar tranquilidade a ele&#8221;, segundo o pai. &#8220;Eu o vejo transtornado. Ele tem pesadelos. Acorda de noite pensando que ainda est\u00e1 preso.&#8221;\n<\/p>\n<p>&#8220;Tenho medo de lhe fazer perguntas inadequadas. N\u00e3o sei se tentaram abusar dele. N\u00e3o quis confront\u00e1-lo. Mas estou procurando ajuda de um psic\u00f3logo.&#8221;\n<\/p>\n<p>Como a maioria dos detentos libertados, o jovem mant\u00e9m um regime de apresenta\u00e7\u00e3o a cada 30 dias, em um tribunal especializado em terrorismo de Caracas. &#8220;Terrorismo!&#8221;, exclama o pai do jovem, surpreendido com o peso da palavra.\n<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o quero que ele saia sozinho para nenhum lugar. Ele jogava basquete e ia para o gin\u00e1sio. Agora, n\u00e3o quero que ele v\u00e1 para lugar nenhum&#8221;, conta. &#8220;Tenho um receio permanente de que ir\u00e3o voltar a busc\u00e1-lo. Prefiro que ele fique longe.&#8221;\n<\/p>\n<p>Fonte: Folha de S.Paulo              <\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/diariodobrasilnoticias.com.br\/noticia\/tortura-de-prisioneiros-por-terrorismo-na-venezuela-sem-oxigenio-ate-sufocar-dizem-relatos-67575c975012c\">Source link <\/a><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;J\u00e1 me torturaram e me reprimiram, mas n\u00e3o v\u00e3o me calar. 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