{"id":85187,"date":"2024-12-31T00:53:17","date_gmt":"2024-12-31T00:53:17","guid":{"rendered":"https:\/\/tvbrazilusa.com\/2024\/12\/31\/me-sugeriram-sair-com-alguem-para-conseguir-comida-quem-sao-os-brasileiros-que-passam-fome\/"},"modified":"2024-12-31T00:53:18","modified_gmt":"2024-12-31T00:53:18","slug":"me-sugeriram-sair-com-alguem-para-conseguir-comida-quem-sao-os-brasileiros-que-passam-fome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tvbrazilusa.com\/pt\/2024\/12\/31\/me-sugeriram-sair-com-alguem-para-conseguir-comida-quem-sao-os-brasileiros-que-passam-fome\/","title":{"rendered":"&#8216;Me sugeriram sair com algu\u00e9m para conseguir comida&#8217;: quem s\u00e3o os brasileiros que passam fome"},"content":{"rendered":"<p> <script async src=\"https:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/js\/adsbygoogle.js?client=ca-pub-8864793242727901\"\r\n     crossorigin=\"anonymous\"><\/script><br \/>\n<\/p>\n<div id=\"taboola-read-more\" style=\"display:block; width:100%\">\n<p>Na tarde da mesma segunda-feira, 18 de novembro, em que o governo brasileiro lan\u00e7ou a ideia de uma alian\u00e7a global contra a fome e a pobreza, durante a c\u00fapula do G20 no Rio de Janeiro, Carina n\u00e3o tinha o que jantar.\n<\/p>\n<p>Passava da metade do m\u00eas e ela j\u00e1 tinha usado todos os R$ 750 que recebe do Bolsa Fam\u00edlia com os gastos b\u00e1sicos da filha, Luana, que acabou de passar pelo primeiro ano de vida, leite, fraldas, len\u00e7o umedecido e rem\u00e9dios ap\u00f3s uma cirurgia.<\/p>\n<p>As duas tamb\u00e9m tinham comido toda a cesta b\u00e1sica doada por um projeto social em Jardim Germ\u00e2nia, no extremo sul da cidade de S\u00e3o Paulo. Elas vivem ali h\u00e1 cerca de cinco meses, desde que chegaram de Pernambuco.\n<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, Carina recorreu ao primeiro lugar que veio \u00e0 cabe\u00e7a: uma pequena Assembleia de Deus cujo panfleto havia pegado, por pena do rapaz que os entregava em um ponto de \u00f4nibus, dias antes.\n<\/p>\n<p>&#8220;Cheguei l\u00e1 totalmente desesperada. N\u00e3o por mim, que j\u00e1 fiquei muitos dias sem comer, mas para que a menina n\u00e3o ficasse com fome, porque s\u00f3 tinha um resto de leite&#8221;, conta Carina, que teve seu nome real e o da filha preservados nesta reportagem.\n<\/p>\n<p>Carina, uma mulher parda que cria sua filha sozinha, tem o perfil das milh\u00f5es de pessoas que ainda passam fome no Brasil.\n<\/p>\n<p>No mesmo ano em que o pa\u00eds chegou ao menor n\u00edvel de pobreza da s\u00e9rie hist\u00f3rica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), em 2023, 3,2 milh\u00f5es de domic\u00edlios, 4,1% do total, ainda enfrentavam a inseguran\u00e7a alimentar grave.\n<\/p>\n<p>Isso significa que 8,93 milh\u00f5es de brasileiros est\u00e3o nessa situa\u00e7\u00e3o.\n<\/p>\n<p>S\u00e3o pessoas que t\u00eam muito pouca quantidade de comida na despensa e uma variedade ex\u00edgua de alimentos dispon\u00edveis, \u00e0s vezes ficando at\u00e9 um dia sem comer.\n<\/p>\n<p>Em outras palavras, s\u00e3o os brasileiros que ainda passam fome.\n<\/p>\n<p>Os \u00edndices de inseguran\u00e7a alimentar melhoraram no Brasil nas \u00faltimas d\u00e9cadas.\n<\/p>\n<p>Mas, quando levada em conta tamb\u00e9m suas formas leve e moderada, quase um ter\u00e7o dos domic\u00edlios brasileiros (27,6%) ainda sofre com a redu\u00e7\u00e3o na quantidade e a variedade de alimentos.\n<\/p>\n<p>Isso representa na pr\u00e1tica 21,6 milh\u00f5es de casas, ou 60,3 milh\u00f5es de brasileiros.\n<\/p>\n<p>Entrevistados atribuem o avan\u00e7o recente a projetos governamentais como o Programa Nacional de Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos (PAA).\n<\/p>\n<p>&#8220;Reduzimos muito o problema&#8221;, afirma Rosana Salles-Costa, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN).\n<\/p>\n<p>&#8220;Mas precisamos reduzir mais, at\u00e9 voltar \u00e0quele cen\u00e1rio de 2014, quando sa\u00edmos do Mapa Mundial da Fome.&#8221;\n<\/p>\n<p>M\u00e3es solo negras<br \/>H\u00e1 um &#8220;perfil espec\u00edfico&#8221; daqueles que s\u00e3o mais vulner\u00e1veis \u00e0 inseguran\u00e7a alimentar, aponta Rodrigo Afonso, diretor-executivo da A\u00e7\u00e3o da Cidadania, rede fundada no in\u00edcio dos anos 1990 com objetivo de combater a fome.\n<\/p>\n<p>&#8220;S\u00e3o, sobretudo, mulheres pretas, m\u00e3es de crian\u00e7as de at\u00e9 10 anos de idade. Boa parte delas est\u00e3o cuidando desses filhos sozinhas&#8221;, afirma.\n<\/p>\n<p>A descri\u00e7\u00e3o coincide com a da advogada L\u00e9a Vidigal, que acabou de lan\u00e7ar o livro &#8220;Direito Econ\u00f4mico e Soberania Alimentar&#8221; (LiberArs, 2024).\n<\/p>\n<p>&#8220;M\u00e3es s\u00e3o mais impactadas por dois motivos: porque mulheres j\u00e1 s\u00e3o o arrimo de boa parte das fam\u00edlias brasileiras e, segundo, porque os filhos dependem totalmente delas para viver&#8221;, analisa.\n<\/p>\n<p>Carina, por exemplo, chegou sozinha com sua filha em S\u00e3o Paulo em junho. Foi uma esp\u00e9cie de volta para casa.\n<\/p>\n<p>Ela conta que passou boa parte da sua vida em um orfanato na regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo, depois que uma tia descobriu que, ainda crian\u00e7a, ela era abusada sexualmente pelo pai.\n<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo, ela estudou, mas n\u00e3o conseguiu terminar o ensino fundamental.\n<\/p>\n<p>Quando saiu da institui\u00e7\u00e3o, anos depois, morou com a m\u00e3e at\u00e9 se juntar com um pernambucano que havia conhecido em um a\u00e7ougue. Ela se mudou para a cidade-natal dele.\n<\/p>\n<p>&#8220;Aquela foi a melhor \u00e9poca da minha vida, at\u00e9 tudo desmoronar&#8221;, lamenta Carina.\n<\/p>\n<p>As agress\u00f5es do companheiro, desempregado, come\u00e7aram na mesma \u00e9poca em que ela engravidou. A situa\u00e7\u00e3o foi piorando at\u00e9 o dia em que, j\u00e1 com a filha no colo, ele tomou uma faca na cozinha para mat\u00e1-las, segundo relata Carina. Foi quando ela se mudou para a capital paulista.\n<\/p>\n<p>Vizinhos a ajudaram a erguer o barraco de restos de madeira onde ela vive hoje, \u00e0 beira de um c\u00f3rrego sujo e do tamanho de um quarto onde cabe basicamente a cama de casal.\n<\/p>\n<p>Carina j\u00e1 trabalhou com eventos, foi atendente e balconista. Por\u00e9m, no momento, n\u00e3o tem nenhum trabalho em vista.\n<\/p>\n<p>Um dia antes de conversar com a reportagem, a jovem conta que um vizinho seu no Jardim Germ\u00e2nia havia dado uma alternativa para ela conseguir algum dinheiro e comprar comida, &#8220;sair com algu\u00e9m&#8221;.\n<\/p>\n<p>A proposta a ultrajou.\n<\/p>\n<p>&#8220;Eu n\u00e3o vou fazer isso&#8221;, respondeu mais para si mesma do que para os outros, em voz alta, para emendar: &#8220;Porque sei que eu e a minha filha vamos sair dessa situa\u00e7\u00e3o um dia&#8221;.\n<\/p>\n<p>&#8216;Vez ou outra, vamos dormir sem nada na barriga, choro at\u00e9 dormir&#8217;<br \/>Tamb\u00e9m no Jardim Germ\u00e2nia, outra m\u00e3e sofre, junto com a fam\u00edlia, com a inseguran\u00e7a alimentar.\n<\/p>\n<p>Mariana da Mota, de 27 anos, vive em um barraco improvisado com a m\u00e3e, diarista em v\u00e1rias casas, e com os dois filhos, Elis Elo\u00e1, de quase 2, e Fernando Lucas, de 5.\n<\/p>\n<p>O or\u00e7amento dom\u00e9stico n\u00e3o ultrapassa R$ 2,5 mil. A maior parte vem do que Mariana recebe das faxinas, e o restante chega pelo Bolsa Fam\u00edlia, j\u00e1 potencializado pelos adicionais das duas crian\u00e7as (R$ 150 para cada uma).\n<\/p>\n<p>Elas ainda recebem uma cesta mensal do Instituto Josephina Bakhita. Mariana n\u00e3o sabe do paradeiro do ex-companheiro, apesar de manter contato com a fam\u00edlia dele, que vive no bairro.\n<\/p>\n<p>Ela, que n\u00e3o terminou o ensino fundamental, planeja esperar os filhos se fixarem na escola para ent\u00e3o voltar a procurar emprego, antes de engravidar, ela trabalhava limpando obras rec\u00e9m-terminadas.\n<\/p>\n<p>&#8220;O dinheiro do governo paga tudo deles&#8221;, diz ela, apontando para os filhos.\n<\/p>\n<p>&#8220;Com o resto a gente paga o aluguel, as contas e faz o mercado. Passar fome a gente [ela e a m\u00e3e] n\u00e3o passa, mas tem um dia ou outro, sim, que a gente tem que fazer do almo\u00e7o nossa janta. Por necessidade&#8221;, conta.\n<\/p>\n<p>Mas a situa\u00e7\u00e3o na casa de Mariana \u00e0s vezes fica pior, dependendo do per\u00edodo do m\u00eas.\n<\/p>\n<p>&#8220;Vez ou outra, vamos dormir sem ter nada na barriga mesmo. Eu choro at\u00e9 conseguir dormir&#8221;.\n<\/p>\n<p>O l\u00edder comunit\u00e1rio Rog\u00e9rio Albino, diante dessa e outras situa\u00e7\u00f5es que testemunha no Jardim Germ\u00e2nia, cita o verso de uma m\u00fasica do grupo Racionais MCs: &#8220;Um cora\u00e7\u00e3o ferido por metro quadrado&#8221;.\n<\/p>\n<p>Ele media doa\u00e7\u00f5es de alimentos que v\u00eam de projetos governamentais e grandes organiza\u00e7\u00f5es, como a A\u00e7\u00e3o da Cidadania, atravessa pequenos institutos comunit\u00e1rios e termina nas casas de pessoas como Carina e Mariana.\n<\/p>\n<p>O Jardim Germ\u00e2nia reflete o quadro da inseguran\u00e7a alimentar no Brasil de 2022 para c\u00e1.\n<\/p>\n<p>&#8220;Na pandemia, a gente ajudava quase 600 fam\u00edlias com uma cesta b\u00e1sica por m\u00eas, mas n\u00e3o era suficiente&#8221;, conta Marisa Mun\u00e7\u00e3o, que lidera o Instituto Josephina Bakhita.\n<\/p>\n<p>&#8220;Todo dia vinha algu\u00e9m aqui pedir mais um quilo de arroz, um pacote de macarr\u00e3o. Era desesperador. Hoje, s\u00e3o cerca de 350. E a gente continua recebendo, todo dia, algu\u00e9m aqui pedindo um quilo de alguma coisa.&#8221;\n<\/p>\n<p>Pelas contas dela, um pacote com arroz, feij\u00e3o, \u00f3leo, sal, farinha e macarr\u00e3o dura, em m\u00e9dia, dez dias em um lar com pelo menos tr\u00eas pessoas. A conta n\u00e3o fecha para muitas fam\u00edlias.\n<\/p>\n<p>Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil apontam que, al\u00e9m de m\u00e3es solo negras, o contingente de brasileiros em inseguran\u00e7a alimentar ainda inclui idosos empobrecidos, mesmo que benefici\u00e1rios de pol\u00edticas de assist\u00eancia social, muita gente que vive no campo e, de forma mais \u00f3bvia, quem est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de rua.\n<\/p>\n<p>Mas por que ainda tem gente experimentando esse tipo de restri\u00e7\u00e3o alimentar no Brasil, mesmo com programas governamentais e doa\u00e7\u00f5es vindas de organiza\u00e7\u00f5es?\n<\/p>\n<p>Dos custos urbanos ao desmatamento<br \/>Na leitura de Laura M\u00fcller Machado, professora de gest\u00e3o p\u00fablica no Insper que desenhou um projeto de inclus\u00e3o produtiva para quem vive na extrema mis\u00e9ria, a fome que persiste no Brasil se explica de v\u00e1rias formas.\n<\/p>\n<p>Uma delas envolve os altos custos de se viver em centros urbanos.\n<\/p>\n<p>&#8220;Nesses casos&#8221;, aponta ela enquanto ouve sobre as hist\u00f3rias de Carina e Mariana, &#8220;d\u00e1 para notar que o aluguel pressiona muito o or\u00e7amento&#8221;.\n<\/p>\n<p>&#8220;A inseguran\u00e7a vem tamb\u00e9m por causa de um recurso que est\u00e1 sendo usado para bancar uma moradia prec\u00e1ria.&#8221;\n<\/p>\n<p>O barraco de Mariana custa R$ 500 por m\u00eas. O de Carina, R$ 200.\n<\/p>\n<p>Em outra periferia, em Bel\u00e9m do Par\u00e1, a comida no prato da catadora de papel\u00e3o Cleonice Jardim, de 42 anos, depende do volume de material coletado e de obras trabalhadas pelo esposo.\n<\/p>\n<p>&#8220;Tem m\u00eas que nada d\u00e1 certo e a gente passa fome mesmo. Fome brava!&#8221;, afirma, salientando a palavra.\n<\/p>\n<p>A catadora \u00e9 natural de Novo Repartimento, a quase 450 km de dist\u00e2ncia de Bel\u00e9m.\n<\/p>\n<p>Ela migrou primeiro para Tail\u00e2ndia, cidade paraense com 108 mil habitantes que fica mais pr\u00f3xima do mar. Em 2019, mudou-se para a capital e hoje vive no imenso bairro do Guam\u00e1.\n<\/p>\n<p>Nesse percurso, foi sempre enfrentou algum grau de inseguran\u00e7a alimentar, dependendo do per\u00edodo da vida.\n<\/p>\n<p>&#8220;L\u00e1 [em Novo Repartimento] a gente plantava o que comia, n\u00e9? Era pobre, mas a comida estava garantida. Aqui, \u00e9 mais dif\u00edcil&#8221;, aponta a catadora, que tem o ensino fundamental incompleto.\n<\/p>\n<p>Essa n\u00e3o \u00e9 uma hist\u00f3ria trivial, explica Marco Ant\u00f4nio Lima, da Universidade do Estado do Par\u00e1 (UEPA).\n<\/p>\n<p>&#8220;Muitas popula\u00e7\u00f5es rurais perderam o estoque natural de alimentos do qual viviam&#8221;, afirma Lima.\n<\/p>\n<p>&#8220;Ou por causa da pobreza mesmo, que faz com que elas migrem para cidades m\u00e9dias e grandes do Estado, ou pelo problema do desmatamento, que destr\u00f3i o ambiente de onde elas tiravam o sustento e, da mesma forma, estimula essa migra\u00e7\u00e3o&#8221;, prossegue.\n<\/p>\n<p>&#8220;Quem fica no campo, est\u00e1 comendo mal pelo fator ambiental, e quem saiu de l\u00e1, segue na pobreza urbana.&#8221;\n<\/p>\n<p>Segundo dados do governo federal, 5,5% dos domic\u00edlios localizados em \u00e1reas rurais estavam em inseguran\u00e7a alimentar grave em 2023. Em \u00e1reas urbanas, essa propor\u00e7\u00e3o \u00e9 de 3,9%.\n<\/p>\n<p>O resultado desse processo \u00e9 perverso, e faminto.\n<\/p>\n<p>&#8220;Porque quando elas chegam em cidades como Parauapebas [a 600 km de Bel\u00e9m], por exemplo, n\u00e3o acham um trabalho facilmente&#8221;, segue o professor.\n<\/p>\n<p>&#8220;Al\u00e9m da baixa qualifica\u00e7\u00e3o, as atividades que elas oferecem s\u00e3o muito mal remuneradas. E disso para um quadro de fome \u00e9 muito r\u00e1pido.&#8221;\n<\/p>\n<p>Rodrigo Afonso, da A\u00e7\u00e3o da Cidadania, endossa o diagn\u00f3stico sobre as cidades, destacando a situa\u00e7\u00e3o do Sudeste. Ele aponta que a fome n\u00e3o \u00e9 mais um fen\u00f4meno t\u00e3o regionalizado, como foi em meados dos anos 1990 no Norte e Nordeste.\n<\/p>\n<p>Pelos dados do IBGE, os maiores percentuais de domic\u00edlios vivendo em alguma inseguran\u00e7a alimentar ainda est\u00e1 nessas regi\u00f5es (23,7% e 23,9%, respectivamente). Entretanto, o n\u00famero absoluto de pessoas com alguma inseguran\u00e7a alimentar \u00e9 maior no Sudeste, que \u00e9 mais populoso.\n<\/p>\n<p>&#8220;Muita gente de \u00e1reas rurais ainda migra para capitais como S\u00e3o Paulo ou Rio de Janeiro e enfrenta dificuldades nessas cidades. Se fosse para regionalizar a an\u00e1lise, \u00e9 nas grandes periferias do Sudeste, principalmente, que est\u00e1 o desafio mais complexo de tirar gente da fome hoje&#8221;, prossegue Afonso, refor\u00e7ando o problema dos custos de vida altos.\n<\/p>\n<p>Laura Machado cobra tamb\u00e9m que o Centro de Refer\u00eancia de Assist\u00eancia Social (CRAS), do governo federal, seja mais eficiente em encontrar pessoas passando fome.\n<\/p>\n<p>Rodrigo Afonso refor\u00e7a a import\u00e2ncia de que \u00f3rg\u00e3os como esse fa\u00e7am uma busca ativa por pessoas vulner\u00e1veis.\n<\/p>\n<p>A catadora Cleonice, por exemplo, nunca acreditou que pudesse se beneficiar do Bolsa Fam\u00edlia, j\u00e1 que teria dificuldade de comprovar a renda, que \u00e9 inst\u00e1vel. Por isso, nunca nem tentou entrar no programa.\n<\/p>\n<p>Entretanto, o Cadastro \u00danico (Cad\u00danico), que \u00e9 a primeira etapa para acessar aux\u00edlios governamentais como esse, aceita a declara\u00e7\u00e3o de renda mesmo que seja via trabalho informal.\n<\/p>\n<p>&#8220;A complexidade \u00e9 que muitas pessoas n\u00e3o conhecem seus direitos, porque seria at\u00e9 f\u00e1cil que, se elas tivessem esse conhecimento, acessassem programas como o Bolsa Fam\u00edlia&#8221;, afirma Afonso.\n<\/p>\n<p>&#8220;Sem contar aquelas que est\u00e3o t\u00e3o isoladas socialmente que n\u00e3o conseguem chegar at\u00e9 esses mecanismos, como quem est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de rua. \u00c9 a\u00ed que essa busca ativa se torna importante.&#8221;\n<\/p>\n<p>H\u00e1 em torno de 300 mil brasileiros vivendo em situa\u00e7\u00e3o de rua atualmente, segundo o Observat\u00f3rio Brasileiro de Pol\u00edticas P\u00fablicas com a Popula\u00e7\u00e3o em Situa\u00e7\u00e3o de Rua, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).\n<\/p>\n<p>S\u00f3 em S\u00e3o Paulo, o observat\u00f3rio conta 80 mil, enquanto a Prefeitura da capital paulista contabiliza 32 mil.\n<\/p>\n<p>Mas essas pessoas n\u00e3o figuram nos dados do IBGE, cuja pesquisa foca, justamente, em domic\u00edlios.\n<\/p>\n<p>Rosana Salles-Costa, que coordenou o Mapa da Fome do Rio de Janeiro, afirma que, para esta popula\u00e7\u00e3o, h\u00e1 abordagens espec\u00edficas.\n<\/p>\n<p>&#8220;A estrat\u00e9gia n\u00e3o \u00e9 dar dinheiro [como no Bolsa Fam\u00edlia], mas criar equipamentos p\u00fablicos direcionados, como cozinhas comunit\u00e1rias, restaurantes populares, algum acolhimento que resolva a quest\u00e3o [inseguran\u00e7a alimentar] de forma imediata&#8221;, afirma Salles-Costa.\n<\/p>\n<p>Ela destaca tamb\u00e9m o papel importante da assist\u00eancia social em entender cada caso e eventualmente procurar as fam\u00edlias dessas pessoas.\n<\/p>\n<p>Especialistas afirmam que a discuss\u00e3o e as pol\u00edticas p\u00fablicas relativas \u00e0 inseguran\u00e7a alimentar devem envolver n\u00e3o s\u00f3 o acesso \u00e0 comida, mas \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel.\n<\/p>\n<p>&#8220;Na verdade, quando a pessoa que estava sem nada consegue algum dinheiro, corre para comprar alimento, mas n\u00e3o algo que supra suas necessidades mais b\u00e1sicas. Ela compra salgadinho, refrigerante, etc.&#8221;, afirma a advogada L\u00e9a Vidigal, que estudou inseguran\u00e7a alimentar durante seu doutorado na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).\n<\/p>\n<p>Ela argumenta que a fome n\u00e3o se resolve apenas pela oferta de renda, pressuposto do Bolsa Fam\u00edlia, mas tamb\u00e9m pelo acesso das pessoas \u00e0 comida de qualidade que, no pa\u00eds, \u00e9 muito desigual.\n<\/p>\n<p>\u00c9 um salto da seguran\u00e7a de comer para a soberania, a possibilidade de fazer escolhas, sobre a pr\u00f3pria alimenta\u00e7\u00e3o.\n<\/p>\n<p>&#8220;O que garantiria que ningu\u00e9m estivesse em inseguran\u00e7a alimentar n\u00e3o \u00e9 apenas dar alimenta\u00e7\u00e3o a todo mundo, mas dar acesso a comida suficiente, al\u00e9m de minimamente saud\u00e1vel e adequada \u00e0s exig\u00eancias nutricionistas b\u00e1sicas&#8221;, diz Vidigal.\n<\/p>\n<p>Por outro lado, isso tamb\u00e9m \u00e9 caro, e nem reajustes nos programas existentes resolveriam, sozinhos, o entrave.\n<\/p>\n<p>O Departamento Intersindical de Estat\u00edstica e Estudos Socioecon\u00f4micos (Dieese) calcula que, para que uma casa com quatro pessoas atravesse um m\u00eas inteiro arcando com seus custos b\u00e1sicos, o sal\u00e1rio m\u00ednimo brasileiro deveria ser de cerca de R$ 6,7 mil, ou quase cinco vezes maior do que o piso atual (R$ 1.412).\n<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que, para Vidigal, o Bolsa Fam\u00edlia \u00e9 insuficiente: &#8220;Ele \u00e9 maravilhoso, mas n\u00e3o pode ser o \u00fanico instrumento de promo\u00e7\u00e3o da nossa seguran\u00e7a alimentar&#8221;.\n<\/p>\n<p>Ela destaca a import\u00e2ncia de outros programas, como o Programa Nacional de Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos (PAA).\n<\/p>\n<p>&#8220;Um alimenta muitas crian\u00e7as fora de casa, e faz isso com qualidade, e o outro, o PAA, ajuda a melhorar os pre\u00e7os regionalmente incluindo produtores rurais no mesmo processo&#8221;, diz a especialista.\n<\/p>\n<p>Entretanto, ela alerta que os recursos para o PNAE n\u00e3o est\u00e3o subindo o suficiente para acompanhar a infla\u00e7\u00e3o dos alimentos.\n<\/p>\n<p>Em 2024, o or\u00e7amento do governo federal destinou R$ 5,7 bilh\u00f5es para o programa mas, segundo c\u00e1lculo do Observat\u00f3rio da Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar, da Universidade de Bras\u00edlia (UnB), se a infla\u00e7\u00e3o fosse levada em conta, esse montante deveria ser de R$ 9,9 bilh\u00f5es.\n<\/p>\n<p>A advogada tamb\u00e9m critica o baixo or\u00e7amento destinado ao PAA, cerca de R$ 1 bilh\u00e3o em 2023, e mudan\u00e7as no seu funcionamento.\n<\/p>\n<p>&#8220;Perdeu muito a efic\u00e1cia quando as modalidades deles foram alteradas, principalmente o nivelamento dos pre\u00e7os em rela\u00e7\u00e3o ao mercado. O programa foi criado justamente para mudar a l\u00f3gica de que grandes compradores conseguem jogar o valor da produ\u00e7\u00e3o para baixo&#8221;, diz Vidigal.\n<\/p>\n<p>O Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o (FNDE), respons\u00e1vel pelo PNAE, disse que os valores per capita do programa foram reajustados em maio de 2023.\n<\/p>\n<p>&#8220;O aumento chegou a at\u00e9 39%, recuperando o poder de compra perdido entre fevereiro de 2017 e dezembro de 2022&#8221;, disse o \u00f3rg\u00e3o.\n<\/p>\n<p>O FNDE destacou ainda que a oferta da alimenta\u00e7\u00e3o escolar \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o dos Estados e munic\u00edpios, cabendo ao governo federal a assist\u00eancia t\u00e9cnica e financeira.\n<\/p>\n<p>&#8220;As regras para o repasse dos recursos federais s\u00e3o objetivas e seguem rigorosamente o que est\u00e1 estabelecido na legisla\u00e7\u00e3o do PNAE, n\u00e3o permitindo altera\u00e7\u00f5es sem autoriza\u00e7\u00f5es legislativas espec\u00edficas&#8221;, acrescentou.\n<\/p>\n<p>J\u00e1 o Minist\u00e9rio do Desenvolvimento e Assist\u00eancia Social, Fam\u00edlia e Combate \u00e0 Fome (MDS), respons\u00e1vel pelo PAA, n\u00e3o estabeleceu ainda poss\u00edveis aumentos no or\u00e7amento do programa nos pr\u00f3ximos anos.\n<\/p>\n<p>A pasta destacou as v\u00e1rias iniciativas do PAA que v\u00e3o al\u00e9m da pr\u00f3pria doa\u00e7\u00e3o de alimentos, como o financiamento das Cozinhas Solid\u00e1rias, a compra de comida para comunidades ind\u00edgenas e quilombolas e a aquisi\u00e7\u00e3o de leite para fam\u00edlias do semi\u00e1rido.\n<\/p>\n<p>&#8220;Em seus 20 anos de exist\u00eancia, o PAA executou R$ 18,6 bilh\u00f5es (em valores nominais), comprando 2,38 milh\u00f5es de toneladas de alimentos adquiridos da Agricultura Familiar, que foram doados a mais de 194 mil entidades socioassistenciais&#8221;, escreveu a assessoria de imprensa do minist\u00e9rio.\n<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m respons\u00e1vel pelo Bolsa Fam\u00edlia, o MDS afirmou que faz a busca ativa de poss\u00edveis benefici\u00e1rios do programa e a averigua\u00e7\u00e3o rotineira de cadastros j\u00e1 inclu\u00eddos.\n<\/p>\n<p>De acordo com a pasta, de mar\u00e7o a dezembro de 2023, 2,86 milh\u00f5es de fam\u00edlias foram inclu\u00eddas no Bolsa Fam\u00edlia dessa forma, e entre janeiro e outubro de 2024, 1,82 milh\u00e3o.\n<\/p>\n<p>Fonte: Folha de S.Paulo              <\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/diariodobrasilnoticias.com.br\/noticia\/-me-sugeriram-sair-com-alguem-para-conseguir-comida-quem-sao-os-brasileiros-que-passam-fome-67731b64d1a88\">Source link <\/a><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na tarde da mesma segunda-feira, 18 de novembro, em que o governo brasileiro lan\u00e7ou a ideia de uma alian\u00e7a global contra a fome e a pobreza, durante a c\u00fapula do&hellip;<\/p>","protected":false},"author":1,"featured_media":85188,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"content-type":"","footnotes":""},"categories":[16],"tags":[123,2448,5313,1267],"class_list":["post-85187","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-brasil","tag-diario","tag-noticia","tag-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/tvbrazilusa.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85187","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/tvbrazilusa.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/tvbrazilusa.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvbrazilusa.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvbrazilusa.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=85187"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/tvbrazilusa.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85187\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":85189,"href":"https:\/\/tvbrazilusa.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85187\/revisions\/85189"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tvbrazilusa.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/85188"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/tvbrazilusa.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=85187"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/tvbrazilusa.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=85187"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/tvbrazilusa.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=85187"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}