É a primeira vez no ano que os analistas projetam o IPCA acima da meta, de em 3%, com margem de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos (1,5% e 4,5%, respectivamente). Na semana passada, o Focus aponta apontava o indicador no teto da meta de inflação.
Além do IPCA mais alto, os investidores agora aguardam um câmbio no fim de dezembro também mais alto, de R$ 5,45. Na sexta-feira, a moeda firmou o patamar de R$ 5,70, diante do aumento das expectativas da vitória do candidato republicano Donald Trump nas eleições americanas e da persistente desconfiança quando a condução da política fiscal no Brasil.
Para o Goldman Sachs, “expectativas de inflação de médio prazo desancoradas refletem um cenário de economia com hiato positivo de produto e mercado de trabalho, políticas fiscais e parafiscais expansionistas pró-cíclicas e prêmios de risco fiscal”.
As expectativas para o PIB também aumentaram, de 3,05% na semana passada para 3,08%. A perspectiva para a Selic se manteve igual, em 11,75% ao ano, isto é, mais duas altas de meio ponto percentual na taxa básica até o fim do ano.
Alta também para o ano que vem
A previsão para a inflação de 2025 também subiu e alcançou os 4%, segundo o relatório. A estimativa supera o centro da meta da inflação, que assim como em 2024 é de 3% no ano que vem.
O aumento da expectativa acontece mesmo com a previsão de uma Selic ao fim do próximo ano em 11,25%. A taxa de depósito interfinanceiro, que são os juros negociados no mercado, preveem que a taxa básica supere os 13% no meio do ano que vem.
As expectativas do PIB e do dólar ficaram estáveis, a 1,93% e R$ 5,40, respectivamente.
Carnes e câmbio pressionam
Para analistas, a piora na perspectiva da inflação corresponde à depreciação cambial e à pressão exercida pelo aumento dos preços dos alimentos diante da forte estiagem que assolou o país, em particular as carnes.
— Os preços de alimentos têm centralidade nesse movimento recente de alta nas projeções de 2024. O preço do boi subiu mais de 40% desde a mínima do ano e o repasse para as carnes é rápido, ainda mais em contexto de demanda doméstica sólida — diz Alexandre Maluf, economista da XP, que projeta que a proteína suba 12,5% no ano.
A escalada do dólar, que segue se valorizando desde o fim de março e há uma semana firmou o patamar de R$ 5,70 também contribui com a piora na previsão da inflação para o fim do ano.
— O câmbio afeta commodities e bens industriais. Estando mais desvalorizado do que se imaginava, a gente vê uma passagem de preço afetando a projeção de inflação do ano. E, com atividade forte, causa esse repasse para a inflação — afirma Evandro Buccini, economista da Rio Bravo Investimentos.
Para Maluf, da XP, o dólar alto também deve seguir pressionando os alimentos, já que um câmbio mais apreciado deve impactar nos preços do leite, óleo de soja, farinha de trigo e panificados.
Energia pode dar alívio no fim do ano
O aumento da conta de luz, de 5%, como mostrou a prévia da inflação oficial, correspondeu ao acréscimo das bandeiras tarifárias. Em outubro, a cobrança extra, de vermelha patamar 2 (de R$ 7,87 a cada 100 kWh), contribuiu para o avanço do IPCA-15 divulgado na quinta-feira passada.
Para Tatiana Pinheiro, economista-chefe da Galapagos Capital, o Boletim Focus de segunda-feira não foi capaz de ler a redução da bandeira tarifária na conta de energia anunciada para o mês de novembro.
Anunciada na última sexta-feira, a cobrança extra sairá do nível vermelha patamar 2 para amarela (R$ R$ 1,885 a cada 100 kWh). Segundo ela, a melhora do clima pode reverter o caminho do estouro da meta diante de uma redução na cobrança das bandeiras:
— O que pode realmente ajudar a distância do teto da banda é a possibilidade de bandeira verde para dezembro. É esperado um ciclo de chuvas de dezembro a abril, com chuvas na normalidade. Isso traria um efeito favorável para afastar a inflação no teto (da meta) — ela diz.
Fonte: O Globo