Perguntado sobre o que espera do governo Trump 2, o ex-chanceler foi direto ao ponto: “ Para a segunda [administração] ele se preparou, elaborou um programa assustador, com uma visão sobre o papel dos EUA no mundo. Trump não é um boboca como Bolsonaro.” De Bruxelas, onde cumpre funções na Agência Brasileira de Promoção de Exportações (Apex), Nunes disse que o Brasil deve estar “alerta” em matéria de migração e tarifas, afirmando que para Trump “tarifas viraram uma arma de guerra”. “O que ele [Trump] diz sobre o Canal de Panamá, a Groenlândia lembra um pouco Hitler falando sobre a necessidade de conquistar o leste [europeu]”, apontou Nunes.
A seguir, os principais trechos da entrevista:
O senhor foi chanceler no governo Michel Temer e conviveu com o primeiro governo de Donald Trump durante dois anos. Como foi a relação com os Estados Unidos naquele momento?
Tenho lembranças negativas, positivas e uma esquisita. Começando pela esquisita, lembro que fui convidado para um jantar em Nova York no qual Trump estava, foi em paralelo à Assembleia Geral das Nações Unidas. Ele tinha convidado oito presidentes para jantar, e fui junto a Temer e ao embaixador naquele momento, Sergio Amaral. Fiquei observando porque queria entender como Trump fazia o penteado, não conseguia tirar os olhos do penteado dele. Cheguei perto, olhei, enfim, aquilo me fascinou (risos).
Na época muitos pediam uma intervenção militar dos EUA na Venezuela…
Os presidentes estavam muito preocupados com a Venezuela e a conversa girou em torno desse tema. Alguns comentários foram mais perigosos, mas Temer sempre muito discreto. Não se falou sobre isso [uma intervenção militar estrangeira na Venezuela]. Um dos presidentes sugeriu que os EUA deixassem de importar petróleo venezuelano. Trump disse “mas e o preço da gasolina aqui?”, disse que ele tinha de se preocupar com o país dele, que não podia deixar de importar petróleo da Venezuela.
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Muitos acham que agora, de volta ao poder, Trump buscará negociar com Maduro…
Difícil saber. Ele ficou quatro anos na travessia do deserto, se remoendo. Foi aprimorando sua visão sobre o uso do poder americano. O poder econômico e militar, e como usá-lo para influenciar a política de outros países. A primeira eleição dele meio que caiu do céu, foi uma surpresa. Para a segunda ele se preparou, elaborou um programa, um programa assustador, com uma visão sobre o papel dos EUA no mundo. Trump não é um boboca como Bolsonaro. Ele tem um plano elaborado.
Que problemas o senhor enfrentou como chanceler com os EUA de Trump?
Tivemos dois problemas. O primeiro foi a tarifa sobre aço e alumínio. Ele aumentou a tarifa, e tivemos de aguentar. O segundo problema foi sobre a migração. Houve brasileiros que estavam nos EUA ilegalmente e foram deportados. Separaram pais de filhos, foi um problema sério, uma situação muito delicada. Nosso consulado, principalmente em Boston, se desdobrou para minimizar os impactos dessa decisão.
São duas questões que Trump pretende retomar com força em seu segundo mandato, e com mais agressividade: tarifas e migração…
Exatamente. Isso vai criar muitos problemas. Não sabemos como ele vai implicar a questão da migração, terá de transformar os EUA num Estado policial para descobrir onde estão os ilegais. Vamos ter um problema grave com a comunidade brasileira, que é muito numerosa. No nosso governo, enfrentamos situações horrorosas, famílias separadas, foi um horror. O Brasil deve estar em estado de alerta em relação a isso.
Sim, também. Porque agora as tarifas viraram uma arma de guerra para Trump. Se Trump vira e fala pra Dinamarca “ou vocês me dão a Groenlândia ou eu aplico 100% de tarifas às importações”, a mesma coisa com México, Canadá, não se trata mais de uma regulação do comércio, é guerra. Hoje Trump tem mais consciência do poder dos EUA para dobrar outros países em função dos interesses americanos. O que ele diz sobre o Canal de Panamá, a Groenlândia, lembra um pouco Hitler falando sobre a necessidade de conquistar o leste [europeu].
Trump hoje é mais perigoso do que foi em seu primeiro governo?
A segunda vitória dele foi uma coisa avassaladora, hoje ele está muito mais no controle. Ele teve tempo de se preparar e tem alguns instrumentos na cabeça. A ideia de que os EUA podem fazer o que quiserem, e que os outros vão se dobrar ao poder econômico e militar americano. Diante de tudo o que Trump está dizendo, o que fazem os países europeus? Parecem se render. Ninguém reage com o vigor que a situação mereceria. Trump está muito mais ousado.
Alguma lembrança positiva da convivência com Trump?
Retomamos a negociação sobre um acordo de salvaguardas para a tecnologia e lançamento de satélites comerciais, a partir de base de Alcântara. Foi algo bastante positivo, e teve continuidade no governo Bolsonaro. É preciso ver o que interessa ao Brasil, não se pode apenas fechar a porta a qualquer tipo de negociação. Temos uma relação bilateral antiga, sólida, uma base econômica muito consistente. Um comércio, aliás, deficitário para nós. O Brasil tem atributos que interessam aos EUA, assim como eles têm atributos que nos interessam. Tem que sentar à mesa e ver como é possível compatibilizar. Trump é um homem que vem do mundo dos negócios, ele faz negócios.
Com informações oglobo