Docentes de instituições como USP, UFRJ, Unicamp e UFMG defendem neutralidade institucional, proteção ao dissenso e liberdade acadêmica
Um grupo de mais de 400 professores e pesquisadores de universidades públicas e privadas lançou nesta semana um manifesto em defesa do pluralismo, da neutralidade institucional e da liberdade acadêmica nas universidades brasileiras. O documento atesta que as instituições de ensino superior vivem um ambiente marcado por “exigência de conformidade ideológica, autocensura e intolerância ao dissenso”.
O texto, intitulado “Em defesa do pluralismo e da liberdade acadêmica”, foi elaborado depois de uma reunião realizada no Centro Maria Antonia, da Universidade de São Paulo, em abril (USP).
Entre os signatários estão docentes de instituições como Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade Estadual de Campinas, Universidade Federal de Minas Gerais, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Universidade de Brasília, Fundação Getulio Vargas e Fundação Oswaldo Cruz, além da própria USP.

Os autores iniciam o manifesto ao descrever a “cultura do cancelamento” que se alastrou pelo ambiente acadêmico. “Multiplicam-se abaixo-assinados, notas de repúdio e campanhas de denúncia em redes sociais dirigidas contra docentes, pesquisadores, técnicos e estudantes”, diz o texto. “Eventos são cancelados ou interrompidos, aulas são boicotadas, participantes são intimidados e expostos publicamente.”
Há menção a episódios mais graves, que envolvem agressões físicas, necessidade de escolta e interrupção forçada de atividades acadêmicas. O documento sustenta que o ambiente de polarização contribuiu para o desgaste da imagem das universidades públicas perante a sociedade.
Para embasar o argumento, os professores citam uma pesquisa da More in Common com a Quaest realizada em 2025 segundo a qual 59% dos brasileiros confiam pouco ou não confiam nas universidades públicas. O levantamento também revelou que 54% acreditam que essas instituições promovem “mais ideologia do que ensino de qualidade”.

Apesar disso, os signatários afirmam que a percepção é “distorcida” e ressaltam que as universidades públicas continuam responsáveis por produção científica e formação profissional de excelência. Para o grupo, porém, as instituições falham em “garantir o pluralismo e sustentar a convivência entre perspectivas divergentes”.
“O progresso científico e intelectual depende de comunidades heterogêneas e livres de coerção, nas quais diferentes visões de mundo podem interagir e debater abertamente. Sem liberdade para o dissenso, o debate acadêmico entra em declínio e o horizonte científico e intelectual de toda a sociedade é empobrecido”, diz o manifesto. “Por isso, instituições universitárias devem ser espaços de convivência entre diferentes correntes teóricas e metodológicas, com ideias informadas por visões de mundo progressistas e conservadoras, liberais e socialistas, defensoras de reformas radicais e guardiãs da tradição.”
Manifesto enumera pilares de restauração do ambiente acadêmico
O texto defende três pilares para recuperar a confiança pública nas universidades: neutralidade institucional, liberdade acadêmica e pluralismo curricular.

No trecho sobre neutralidade institucional, os docentes argumentam que universidades não devem adotar posições oficiais sobre disputas políticas e ideológicas. “Quando a universidade adota oficialmente uma visão de mundo determinada, ela estabelece uma ortodoxia oficial, sinalizando para a sua comunidade que visões divergentes não são bem-vindas”, afirma o texto.
Os professores também criticam o cancelamento de palestras e eventos por pressão política. Segundo o manifesto, “cancelar um evento devido ao posicionamento ideológico do palestrante é assumir uma posição política, sinalizando que apenas certas ideias têm permissão para circular no campus”.
Ao tratar da liberdade acadêmica, o grupo afirma que docentes e estudantes não devem sofrer sanções por opiniões manifestadas dentro do debate intelectual. O texto cita uma pesquisa do Instituto Sivis segundo a qual 48% dos universitários brasileiros afirmaram já ter se autocensurado para evitar discutir temas controversos em sala de aula.

O documento também faz um alerta contra o que chama de “julgamentos liminares e precipitados” em disputas internas. O manifesto convoca administrações universitárias a evitarem notas de repúdio e manifestações públicas antes da conclusão de apurações formais.
Na seção dedicada ao pluralismo, os autores defendem a ideia de que currículos e programas de ensino contemplem correntes de pensamento divergentes. “Ensinar obras influentes sem apresentar seus críticos mais qualificados cria uma falsa impressão de consenso.”
Os signatários afirmam ainda que a ausência de mecanismos internos de pluralidade abre espaço para pressões externas sobre as universidades. O manifesto cita como exemplo iniciativas nos Estados Unidos para restringir conteúdos curriculares e afirma que, no Brasil, já existem tentativas de proibir disciplinas, questionar conteúdos ensinados e constranger professores por meio de campanhas políticas e midiáticas.