A Controladoria-Geral da União (CGU) identificou 2,7 mil vínculos entre parlamentares e entidades do terceiro setor que receberam recursos de emendas parlamentares. O levantamento examinou convênios da União relacionados a mais de 15 mil emendas destinadas entre 2020 e 2025, em cumprimento a uma determinação do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A auditoria considerou conexões de até quatro níveis intermediários para relacionar os agentes públicos às organizações beneficiadas. Os cruzamentos foram feitos com informações de bases de dados governamentais e incluíram relações familiares, profissionais, societárias e cadastrais.
O relatório não apresenta uma relação individualizada de todos os casos, mas aponta a possibilidade de aprofundar a apuração em situações específicas para verificar eventual influência indevida na destinação dos recursos. A CGU ressalta que a identificação de vínculos, por si só, não caracteriza irregularidade.
Mais de 5 mil assessores têm conexões com entidades
A análise também encontrou relações entre integrantes de gabinetes parlamentares e organizações contempladas com emendas. Dos cerca de 13 mil assessores examinados, mais de 5 mil apresentaram algum vínculo com pelo menos uma entidade que firmou convênio para receber recursos.
Entre os casos já noticiados está o da deputada Célia Xakriabá (PSol-MG), que destinou emenda a uma associação comandada pela madrasta de seu chefe de gabinete.
Outro exemplo envolve o deputado licenciado Alex Santana (Republicanos-BA), que indicou R$ 1,9 milhão para uma associação ligada ao cunhado e a uma ex-assessora. Já o deputado Gilvan da Federal (PL-ES) destinou recursos a duas organizações presididas por parentes de assessores de seu gabinete.
Os casos citados envolvem conexões entre parlamentares, assessores e entidades beneficiadas, mas a existência dessas relações não permite concluir, isoladamente, que houve desvio ou uso irregular de dinheiro público.
Oitenta por cento das empresas não tinham funcionários registrados
A CGU também examinou informações sobre as empresas contratadas pelas entidades para executar ações financiadas pelas emendas. Segundo o relatório, 80% das empresas que receberam pagamentos com esses recursos em 2025 não tinham funcionários registrados no e-Social, sistema que reúne informações trabalhistas, previdenciárias e fiscais.
Além disso, outras 4,1 mil empresas contratadas apresentavam até 50 funcionários registrados. Para a Controladoria, os dados apontam uma tendência de direcionamento dos recursos a empresas sem atuação ampla e consolidada no mercado.