Um levantamento publicado nesta segunda-feira (1º) aponta que 88% das mais de duas mil prisões ocorridas no Brasil desde o ano de 2022 pela Polícia Federal são de pessoas envolvidas com as facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC), que passaram a ser classificadas recentemente como organizações terroristas pelo governo dos Estados Unidos.
A apuração realizada pela GloboNews com base em dados da Lei de Acesso à Informação (LAI) aponta que, em um cômputo geral, são quase nove prisões em cada 10 envolvendo as facções criminosas. Ao todo, são mais de 20 grupos e duas milícias citados nos inquéritos da Polícia Federal que a reportagem teve acesso.
Ainda segundo as informações reveladas pela LAI, 81% das investigações são relativas ao tráfico de drogas, principal atuação das facções criminosas. Os registros apontam, ainda, crimes financeiros e até mesmo ambientais cometidos pelos grupos.
A preocupação com o avanço das facções criminosas e a sensação da falta de segurança vem afetando diretamente o desempenho do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que ainda tem uma alta desaprovação acima da aprovação de seu governo. Por causa disso, a gestão petista passou a encampar uma campanha de combate aos grupos com o lançamento do programa “Brasil contra o Crime Organizado”, em meados de fevereiro.
A iniciativa terá um investimento direto de R$ 1,06 bilhão do Orçamento de 2026 e mais R$ 10 bilhões através de empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aos estados que aderirem. O plano é estruturado através de um decreto e quatro portarias, além de regulamentar pontos da chamada “Lei Antifacção”.
Lula ainda tenta convencer o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), a colocar em votação a chamada PEC da Segurança Pública, que pretende dar mais poder à União para estabelecer ações contra o crime organizado. A proposta, no entanto, é vista com desconfiança por parlamentares e governadores da oposição, que enxergam uma possibilidade do governo interferir na prerrogativa constitucional dos estados de gerir a segurança pública.
Apesar disso, os dados revelados pela LAI apontam que 72% das operações realizadas pela Polícia Federal contra as organizações criminosas contaram com a integração entre a autoridade e outros órgãos, como a Polícia Rodoviária Federal (PRF), a Receita Federal, polícias Militar e Civil dos estados, entre outros.
Isso revela o quanto as facções criminosas já possuem uma atuação fora das divisas de seus estados de origem, sendo 58% das prisões realizadas pela Polícia Federal referentes a criminosos que agem em crimes interestaduais.
Na semana passada, o governo do presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, tomou a decisão de classificar as facções criminosas como organizações terroristas, contrariando um discurso da gestão Lula de que os grupos não atuam com os mesmos objetivos de terror. Para o Palácio do Planalto, estes grupos têm apenas interesses financeiros, que supostamente passam longe de questões culturais ou ideológicas.
A medida foi adotada dias depois de uma visita do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a Trump e ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, em que pediu a adoção dessa classificação.