O ministro André Mendonça decidiu levar ao plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) a análise dos novos elementos do caso Master. A medida abre caminho para uma possível investigação contra o ministro Alexandre de Moraes, colega de Corte. A data da sessão ainda será definida pelo presidente do Supremo, Edson Fachin.
Por se tratar de um ministro do STF, apenas o plenário da Corte tem poder para autorizar a abertura de investigação contra Moraes. Só o plenário pode autorizar esse tipo de procedimento quando o alvo é um integrante do próprio tribunal.
Nos bastidores, Mendonça já articula apoio entre os colegas antes de formalizar o pedido a Fachin. O relator avalia contar com os votos de Fachin, Nunes Marques e Luiz Fux a favor da abertura da investigação. Do outro lado, a expectativa é de que Cristiano Zanin, Flávio Dino e Gilmar Mendes votem contra a medida. O voto de Cármen Lúcia é tratado como incerto, já que ela nunca manteve proximidade com Moraes. Há também dúvida sobre a participação de Dias Toffoli na votação, em razão de sua própria relação com Vorcaro.
O ministro fundamentou a decisão de retirar o sigilo na regra constitucional de publicidade dos julgamentos. Segundo ele, o sigilo não deve prevalecer quando houver interesse público na divulgação das informações.
“a aludida deliberação, pelo plenário da Corte, deverá ocorrer de forma pública e transparante, em sessão presencial do Colegiado”
Ao final do despacho, Mendonça determinou expressamente a retirada do sigilo.
“diante da inevitável forma e do inexorável locus de deliberação, ainda com maior razão se impõe, seja, desde logo, levantado o sigilo dos presentes autos”
Na sequência, concluiu:
“Com base em tais razões, determino o levantamento do sigilo dos presentes autos”
A petição foi aberta depois de Mendonça cobrar dos investigadores informações atualizadas sobre a identificação dos possíveis integrantes da rede atribuída a Daniel Vorcaro. Em resposta, a Polícia Federal apresentou um novo relatório, acompanhado de quatro documentos. Após análise preliminar, o ministro determinou que o material fosse retirado dos autos originais e transferido para uma petição autônoma. O procedimento recebeu o número 16.662 e foi encaminhado à Procuradoria-Geral da República.
De acordo com o despacho, mensagens encontradas no celular de Vorcaro mostram diálogos do empresário com uma pessoa “até então não identificada”. Para a Polícia Federal, as conversas indicam que o ex-dono do Banco Master teve acesso antecipado a investigações criminais e a apurações do Banco Central que poderiam prejudicá-lo.
“Independentemente de qual venha a ser a manifestação” da PGR, escreveu Mendonça, “o caminho inevitável dos presentes autos leva ao plenário” do Supremo.
O caso reproduz, em contornos mais graves, o desfecho enfrentado por Dias Toffoli, primeiro relator do caso Master. Toffoli deixou a relatoria sem ser formalmente declarado impedido ou suspeito, em solução construída com participação de Fachin.
Documentos da investigação mostram que o compartilhamento de informações sigilosas entre Moraes e Vorcaro teve início em 4 de novembro de 2025 e se intensificou à medida que se aproximava a prisão do banqueiro, ocorrida em 17 de novembro daquele ano. Um dia antes de ser preso, Vorcaro perguntou ao ministro pelo WhatsApp:
“Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?”
Em outra mensagem, o banqueiro pediu a Moraes que intercedesse junto ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet:
“É importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem que aí vai tudo pro saco”
Ao contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, soma-se um indício técnico. Metadados do arquivo enviado por WhatsApp mostram que a última alteração no documento partiu de um perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”. O ministro e Viviane confirmam o acesso ao contrato, mas negam qualquer irregularidade.