O relatório apócrifo usado por Alexandre de Moraes contra André Mendonça não é um documento oficial de inteligência da Polícia Federal. Não segue qualquer padrão conhecido, contém análises que mais parecem elucubrações políticas e está repleto de ‘digitais’ de serviços tradicionais de IA, como Gemini, Claude e ChatGPT. Fontes da comunidade de inteligência consultadas por este site apontam para um documento provavelmente produzido de forma clandestina, ou seja, por gente da PF, mas fora da PF.
Esses indícios tornam toda a situação de Moraes insustentável. Como registramos ontem à noite, o ministro enviou a Edson Fachin um pedido de investigação contra Mendonça, acusando-o de improbidade administrativa, abuso de poder e crime de responsabilidade. Ele alega interferência na condução das investigações do INSS e do caso Master, com participação em tratativas de colaboração premiada e direcionamento de medidas contra determinados alvos. A ação é interpretada internamente como ato desesperado para evitar ser investigado por seu relacionamento com Daniel Vorcaro.
A ironia está no fato de que Moraes usa uma investigação ilegal para acusar Mendonça de investigá-lo ilegalmente. Ao citar o “relatório de inteligência”, o ministro não explica quem o elaborou e nem quem o encomendou. Ao ler o documento, percebe-se que a deflagração do monitoramento clandestino se deu em razão do afastamento da equipe de Andrei Rodrigues do comando das operações Compliance Zero e Sem Desconto, após suspeita de interferência e vazamentos.
Apesar de não ser assinado, o cabeçalho do relatório faz referência a outros documentos que integrariam a pasta 2026-2-424-0005427-UADIP/CINQ/CGRC/DICOR. DICOR é a Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção. Ela é comandada por Dennis Cali, braço direito de Andrei e apontado como o delegado que teria segurado a investigação do INSS contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Se saiu de lá, não dá para saber. Mas o mesmo documento cita outro delegado, subordinado a Cali.
Está logo na segunda página, num tópico que trata das medidas tomadas por Mendonça para evitar o vazamento do relatório sobre as mensagens de Vorcaro para Moraes. Menciona que o relator convocou os investigadores para uma reunião presencial em seu gabinete e entregou-lhes exemplar físico da decisão, sem assinatura. Apenas no dia da entrega do resultado da determinação feita à PF, é que foi efetivamente dado acesso à via assinada e disponibilizada nos autos eletrônicos.
“Por segurança, foi tirado print de tela pelo DPF CAJÉ, único integrante da equipe com acesso a essa decisão, assim como foi feito o download da decisão”, diz o relatório. Tudo indica que Cajé é Wedson Cajé Lopes, coordenador de Repressão à Corrupção da Coordenação-Geral de Repressão à Corrupção, Crimes Financeiros e Lavagem de Dinheiro, da DICOR. Delegado desde 2014, ele atuou nas investigações sobre a suposta interferência de Jair Bolsonaro na PF, nos casos do senador Chico Rodrigues e da governadora Roseana Sarney.
A citação inadvertida a seu nome, no contexto de reunir provas contra Mendonça, sugere um planejamento mais amplo, com o envolvimento de outros funcionários e a existência de uma hierarquia.
DIÁLOGOS
Chama a atenção ainda que constem no documento usado por Moraes relatos de declarações de André Mendonça em reuniões de trabalho reservadas, que só poderiam ser reproduzias por interlocutores do ministro ou por captação ambiental. No tópico Y.6. por exemplo, diz-se que, em reuniões, “o relator indagou expressamente sobre o que constava” em relação a Moraes na análise dos dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro.
O mesmo ocorre no tópico X.5., com relato de “reunião presencial”, ocorrida em 13 de agosto, na qual “o relator manifestou percepção de que ACM Neto, candidato ao governo de Bahia, aparentaria estar exercendo atividade de representação de interesses dentro dos limites do permitido”. Há outros exemplos semelhantes e a pergunta que se faz é como essa informação foi parar no documento.

Vale lembrar que, dias atrás, a imprensa noticiou um bate boca acalorado entre Mendonça e Moraes, depois que o ministro descobriu que o relator da Compliance Zero buscava confirmar se ele era o interlocutor de Daniel Vorcaro em mensagens extraídas do celular do banqueiro. Ocorre que a apuração prévia era ainda sigilosa, o que levou Mendonça a questionar Moraes sobre como havia obtido a informação. “Tenho minhas fontes. Fui ministro da Justiça”, respondeu, acusando-o de direcionar as investigações.
Seja por informantes infiltrados ou uma eventual escuta ilegal, são cada vez mais fortes os indícios de que podemos estar diante de um escândalo ainda maior envolvendo o monitoramento ilegal de ministros do STF. Cajé pode ser o ponto de partida de uma investigação interna para se descobrir quem operava essa suposta rede clandestina, seus integrantes e alvos. Se essa rede existe, certamente Mendonça não foi o único ministro monitorado.