Uma análise dos dados das últimas eleições, em comparação com o pleito de 2022, aponta uma mudança importante no comportamento do eleitor brasileiro. Enquanto a esquerda avançou entre os eleitores de maior renda, a direita ganhou espaço na periferia, na classe média (Classe C) e no interior do país.
O cruzamento de dados de 86 mil locais de votação, que representam 96% dos votos válidos do país, mostra que a mudança não se restringiu a uma região específica.
A eleição não “virou” em um estado ou região. A mudança se espalhou por diferentes partes do país.
O paradoxo da elite e da classe trabalhadora
O PT e a esquerda brasileira construíram, nos últimos anos, a narrativa de que enfrentam maior resistência entre a elite econômica e financeira do país. Os dados, porém, mostram um cenário diferente: Lula ganhou espaço entre os eleitores de maior renda.
O presidente avançou nos bairros mais caros e tradicionais do Rio de Janeiro, como Leblon, Ipanema e Copacabana, e de São Paulo, como Higienópolis, Pinheiros e Vila Madalena. Nas seções eleitorais de perfil A e B, as mais ricas, Lula subiu entre 1 e 2,5 pontos percentuais.
O movimento foi diferente entre a classe trabalhadora e a periferia, historicamente uma das principais bases eleitorais da esquerda. Cidades de forte presença operária e lulista, como Osasco (SP), Betim (MG) e Ananindeua (PA), viraram expressivamente para a direita. Nas seções mais pobres, de perfis D e E, o avanço conservador foi de 4 a 5 pontos percentuais.
A mudança aparece de forma ainda mais acentuada na chamada “Nova Classe C”, formada pela parcela de renda média da população. Segundo os dados das seções, a direita venceu com vantagem de 53% a 37%.
Uma reportagem recente da BBC News Brasil destaca esse dado e mostra que, na comparação direta, Flávio Bolsonaro liderou em 967 das 1.000 cidades brasileiras com maior renda domiciliar per capita. Ao mesmo tempo, o desgaste do governo aparece também entre os municípios mais pobres: Lula perdeu eleitores em alguns deles, embora o PT ainda mantenha a liderança nas 1.000 cidades de menor renda.
A interiorização do voto conservador e o fator religioso
A mudança geográfica do voto conservador é outro ponto de destaque. O avanço da direita não se concentrou nas metrópoles, cidades com mais de 1 milhão de eleitores, onde a balança política manteve relativo equilíbrio em relação a 2022. O maior avanço ocorreu nas cidades com menos de 10 mil eleitores, onde a direita ganhou 12 pontos percentuais.
Mais da metade dos novos votos conquistados pela direita em relação a 2022 veio de cidades de pequeno e médio porte, com menos de 50 mil eleitores. O movimento chegou até mesmo a bastiões tradicionais do PT. No interior rural do Nordeste, a direita conquistou mais de 1 milhão de novos votos, enquanto, no Sul agrário, a esquerda perdeu quase 10 pontos.
O fator religioso acompanha essa mudança. O apoio da base evangélica à direita, de cerca de 50% desse eleitorado, já era conhecido e esperado. A novidade apareceu entre os católicos. Dos quase 5 milhões de votos adicionais conquistados pela direita, mais de 4 milhões vieram de eleitores que se declaram católicos.
A esquerda, que vencia entre os católicos com 54%, viu a margem cair para 49% e perdeu o predomínio absoluto.
Há também indícios de um movimento da juventude periférica em direção à direita.
O “Novo Brasileiro” e o choque de realidades
Para analistas, uma das explicações para a mudança na periferia é o descompasso entre as políticas de Estado voltadas para grandes corporações e a realidade de um novo perfil demográfico e socioeconômico: o “novo brasileiro”.
Nos últimos quatro anos, a condução econômica atingiu diretamente a aspiração e o consumo da Classe C. A taxação das compras em aplicativos internacionais, a famosa “taxa da blusinha”, tirou dessas classes o que era considerado um atestado de poder de compra e status. Somou-se a isso a tributação sobre as apostas esportivas e os jogos online, que drena recursos principalmente dessas camadas.
Em entrevista à BBC, a cientista política americana Susan Stokes disse que Lula parece viver um “efeito Biden”. O fenômeno é caracterizado pelo “desânimo do eleitorado”, quando melhorias macroeconômicas não se traduzem em otimismo na ponta e acabam não acompanhando o sentimento popular.
Essa desconexão também aparece na pauta do trabalho. O governo insistiu em enquadrar, muitas vezes à força, trabalhadores de aplicativos, como motoristas de Uber, na tradicional CLT, ignorando as demandas e os desejos desses profissionais.
O brasileiro da periferia não busca necessariamente o Estado-patrão, não teme longas jornadas e sonha com o empreendedorismo individual. Quer abrir o próprio negócio e enriquecer, enquanto o Estado brasileiro, excessivamente burocratizado e voltado para taxar ou regular grandes conglomerados, como bancos e empreiteiras, sufoca o microempreendedor e dificulta a mobilidade social rápida.
Ao tratar esse eleitor, que hoje representa a esmagadora maioria demográfica, como “manipulado”, a esquerda parece falar apenas para os ricos e sinalizar virtude para si mesma, perdendo a comunicação com a realidade de boa parte do Brasil.