Se há algo que a história recente do Brasil nos ensina é que o crime do colarinho branco tem método, assinatura e, quase sempre, o mesmo tesoureiro. Um mergulho nas denúncias do Ministério Público Federal na Lava Jato e na Greenfield revela um fio condutor cristalino que liga os escândalos da Torre Pituba, da Sete Brasil e o explosivo Caso Master: a figura de João Vaccari Neto. O ex-tesoureiro do PT não era apenas um arrecadador; ele operava como o franqueador de um modelo de negócios criminoso focado em sangrar os fundos de pensão das estatais.
O modus operandi impressiona pela audácia e repetição. Nos três episódios, Vaccari operou como o intermediário incontestável do esquema. Na construção da Torre Pituba — a nova sede da Petrobras em Salvador, alugada à própria estatal por 30 anos —, coube a ele a tarefa de “arrecadar a parcela das vantagens indevidas que era destinada à agremiação partidária”. Para facilitar, chegou a indicar a própria cunhada, Marice Correa, para receber os valores. Já na Sete Brasil, a audácia era mais física: Vaccari, ao lado de Pedro Barusco, achacava os estaleiros exigindo propina sobre os contratos das sondas, recebendo o dinheiro em espécie e “armazenando-o em uma mochila por ele transportada”.
Mas é no Caso Master, segundo o relato de Daniel Vorcaro, que o esquema atinge o seu ápice. Levado por “caciques do PT na Bahia”, o sócio de Vorcaro, Augusto Lima, foi recebido pessoalmente pelo ex-tesoureiro. E foi o próprio Vaccari quem fixou o percentual da propina e o generoso adiantamento exigido.
O alvo dessa máquina de fazer dinheiro? O suor dos trabalhadores guardado nos fundos de pensão. A Petros (fundo da Petrobras), descrita pelo MPF como “completamente aparelhada pelo Partido dos Trabalhadores”, foi a grande financiadora da Torre Pituba, bancando integralmente a obra. Na Sete Brasil, o ataque foi coordenado através do FIP Sondas, sugando recursos não só da Petros, mas também da Funcef (Caixa), da Previ (Banco do Brasil) e até da Valia (fundo da Vale). O Banco Master, seguindo a cartilha do aparelhamento, garantiu seu cobiçado lugar na “lista exaustiva” de bancos autorizados a receber recursos da Previ, Petros, Postalis (Correios) e fundos da Caixa.
As cifras são um acinte. A obra da Torre Pituba, orçada em 2008 por R$ 320 milhões, acabou custando absurdos R$ 1,32 bilhão aos cofres da Petros. Na Sete Brasil, o dreno apenas nos fundos Petros, Funcef e Previ atingiu a marca de R$ 2,94 bilhões. No Caso Master, a ambição extrapolou qualquer limite: a captação total projetada via aportes dos fundos batia nos R$ 10 bilhões.
E a comissão da companheirada? Sempre religiosamente garantida. A propina da Torre Pituba somou R$ 67,2 milhões, distribuídos pelas empreiteiras e covardemente embutidos no custo da obra suportado pela Petros. Na Sete Brasil, o repasse chegou a R$ 252,6 milhões, com dois terços desse valor direcionados ao PT “conforme determinação e orientação” do onipresente João Vaccari Neto.
Por fim, no Caso Master, o pedágio foi tabelado em 10% de tudo o que fosse captado, o que renderia uma propina astronômica de R$ 1 bilhão. E como nesse submundo não se trabalha fiado, foi fixado um adiantamento de R$ 30 milhões em espécie, envolvendo a dupla Paulo Okamotto e Vaccari.
Os CNPJs se alternam e as cifras ganham mais zeros, mas a mochila de Vaccari e o loteamento criminoso dos fundos de pensão mostram que, nos porões da política brasileira, o roteiro da corrupção é um filme que insiste em não sair de cartaz.