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Mensagens mostram Vorcaro comparando empresário a Jeffrey Epstein

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Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, mostram uma conversa em que o banqueiro e o empresário Flávio Carneiro fazem referências ao criminoso sexual americano Jeffrey Epstein. Em um dos diálogos, de dezembro de 2023, Carneiro escreveu que Epstein seria “amador demais” em comparação com Vorcaro.

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A conversa ocorreu em 19 de dezembro de 2023, após uma publicação do investidor Vladimir Timerman, gestor da Esh Capital e autor de denúncias envolvendo operações do Banco Master. Em uma postagem, Timerman havia escrito: “No meio das minhas investigações tenho convicção de que encontrei o Jeffrey Epstein brasileiro…”. A publicação não identificava a pessoa a quem se referia.

Ao comentar o conteúdo, Vorcaro escreveu “Jeff epstein” e “Carapuça caiu kkkk”. Em seguida, disse ter percebido que a postagem se referia a outra pessoa. Carneiro respondeu: “Essa aí não tem sua cara pq o jeff tá amador demais”. Vorcaro reagiu com “Kkkk”.

Em declaração à BBC News Brasil, Carneiro afirmou ser amigo do banqueiro, mas disse nunca ter trabalhado para ele nem conhecer todas as suas atividades. Também declarou não se lembrar exatamente do assunto tratado, embora associe a conversa a uma disputa entre Vorcaro e Timerman.

“Acredito se tratar de um comentário sobre algum trecho de matéria publicada a respeito do tema entre eles”, disse.

Vorcaro está preso preventivamente desde 4 de março, no âmbito da investigação sobre supostas fraudes no Banco Master.

Mensagens abordam festas e pagamentos a mulheres

Outras conversas obtidas pela BBC News registram discussões sobre festas organizadas por Vorcaro, pagamentos pela presença de mulheres em eventos e valores adicionais caso elas ficassem com convidados.

Em agosto de 2025, ao responder a questionamentos de sua então namorada, Martha Graeff, sobre as mulheres que seguia nas redes sociais, o banqueiro associou as festas aos próprios negócios.

“Fazia parte do meu business. Nunca te escondi o que fiz e pq fiz”, respondeu o banqueiro. “Fiz festa com 300 desse tipo. Não quer dizer que fiquei.”

Em outubro de 2024, uma mensagem encaminhada por Vorcaro apresentava os valores “Presença 2 mil Se ficar com alguem 10 mil”. Em fevereiro de 2025, uma interlocutora confirmou o recebimento de um pagamento após discutir valores relacionados a um encontro.

Os registros também incluem uma conversa de março de 2025, publicada pelo Metrópoles, na qual uma mulher cobrava Vorcaro em nome de uma amiga e escreveu: “Ela disse que ficou com o kassio!”. O banqueiro respondeu: “Me manda aqui” e “Dados e valor”.

O Metrópoles associou a referência a “kassio” ao ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF). O magistrado negou ao portal ter encontrado a mulher mencionada.

À BBC News Brasil, a assessoria do ministro afirmou que ele nunca trocou mensagens com Vorcaro, pediu algo ao banqueiro ou votou a seu favor. Segundo a assessoria, Nunes Marques votou pela manutenção da prisão de Vorcaro e nunca autorizou terceiros a falar em seu nome.

A defesa do banqueiro nega as acusações de exploração sexual de mulheres.

“Nego veementemente que tenha, em algum momento, explorado ou desrespeitado mulheres. Isso não é da minha índole. Na verdade, a falsa narrativa criada é exatamente o oposto do que sou, o que pode ser confirmado por qualquer mulher que me conheceu ou com quem me relacionei”, disse a nota divulgada na terça-feira (13/10).

A Polícia Federal também abriu uma investigação preliminar sobre suspeitas de exploração sexual envolvendo o banqueiro, conforme informações divulgadas pelo UOL e confirmadas pela BBC.

Conversas mencionam investimentos em agências de modelos

As mensagens incluem tratativas entre Vorcaro e o empresário Tiago Polo sobre possíveis investimentos em agências de modelos. Polo afirmou à BBC que sua relação com o banqueiro foi profissional e pontual, envolvendo serviços remunerados de relações públicas e produção de eventos.

“Nunca recrutei mulheres para encontros de natureza sexual, nem para Daniel Vorcaro nem para qualquer outra pessoa”, disse.

Segundo Polo, ele foi procurado em 2023 para sondar um possível investimento de Vorcaro em uma agência de modelos. A orientação inicial teria sido não mencionar o nome do banqueiro nas conversas.

Em outubro daquele ano, Polo sugeriu uma reunião com uma pessoa que, segundo a reportagem, seria diretor da Ford Models, para discutir projetos na empresa ou a abertura de uma nova agência.

“Ele vende?”, perguntou Vorcaro, segundo as mensagens.

Polo citou também a agência Allure e atribuiu a outro interlocutor a seguinte afirmação sobre a finalidade da proposta: “A ideia da agência seria uma forma de ajustar as meninas indiretamente”.

“Vamos na top”, respondeu Vorcaro, conforme as mensagens, “Ford”. Depois perguntou: “Mas ele vende uma parte?”.

Polo afirmou que a expressão “ajustar as meninas” reproduzia a fala de outra pessoa e que não sabia exatamente o que ela pretendia dizer. Também declarou que sua participação se limitava a um possível negócio no setor de moda, sem relação com a contratação de mulheres para festas ou encontros particulares.

A Ford Models Brasil informou à BBC que nunca teve contato com Vorcaro, Polo ou representantes do banqueiro. A empresa afirmou que não recebeu propostas de compra ou parceria, que não está à venda e que atua exclusivamente no mercado de moda, sem contratar ou disponibilizar modelos para festas e eventos.

Em novembro de 2023, as conversas passaram a tratar da Allure. Polo sugeriu que Vorcaro investisse na agência ou comprasse parte dela, mantendo o responsável pela operação.

“Cara, vamos fazer”, respondeu o banqueiro. Questionado sobre o nome que seria usado no contrato, Vorcaro escreveu: “Vou colocar um fundo”. “Senao nao tem como eu por a grana”, completou.

Em dezembro, Polo enviou arquivos cujos nomes faziam referência a um contrato de compra e venda de quotas e a termos da Allure. As mensagens, porém, não comprovam que a aquisição tenha sido concluída.

A Allure Management afirmou à BBC que seu responsável, Felipe Nisti, conversou com Polo em 2023 sobre uma proposta de investimento voltada ao crescimento da agência nas áreas de moda e publicidade. A empresa negou que Nisti conhecesse ou tivesse mantido contato direto com Vorcaro e declarou nunca ter estabelecido relação societária, comercial ou contratual com o banqueiro.

Polo também afirmou que a negociação não foi concluída e que atuou apenas na aproximação comercial, sem receber remuneração pela intermediação.

Mensagens citam contratações e vistos

Em uma conversa de fevereiro de 2024, Vorcaro escreveu a um interlocutor: “Vamos tirar visto famiglia”, “Contratar todas allure” e “E marca entrevista”. O contato respondeu: “Deixa comigo”.

O diálogo não identifica as mulheres mencionadas, não esclarece a finalidade dos vistos e não comprova que as contratações ou os pedidos tenham sido efetivamente realizados. A Allure nega ter mantido relação societária, comercial ou contratual com Vorcaro.

A reportagem também aponta semelhanças entre aspectos das conversas e atividades atribuídas a Jeffrey Epstein, que financiava modelos no Brasil e chegou a avaliar propostas de investimento relacionadas a algumas das mesmas agências brasileiras mencionadas nas mensagens do banqueiro. A iniciativa, porém, não avançou.

Os registros analisados não estabelecem ligação entre Vorcaro e Epstein.

Epstein foi condenado nos Estados Unidos, em 2008, por crimes relacionados à prostituição, incluindo um caso envolvendo uma menor de idade. Em 2019, voltou a ser preso, acusado de tráfico sexual de menores, e morreu na prisão antes do julgamento.

Vorcaro não responde a esses crimes, e não há, no material apresentado pela reportagem, suspeita de envolvimento dele com menores de idade.

Especialistas explicam critérios para caracterizar exploração sexual

Especialistas ouvidos pela BBC ressaltam que a existência de pagamentos, festas ou intermediação de encontros, isoladamente, não é suficiente para caracterizar exploração sexual. A avaliação depende das circunstâncias concretas, incluindo a liberdade das mulheres para recusar encontros, escolher clientes e definir valores.

Carlos H. Borlido Haddad, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenador da Clínica de Trabalho Escravo e Tráfico de Pessoas, afirma que a análise deve considerar como ocorreu o recrutamento, o que foi prometido às mulheres e se elas tinham autonomia sobre os ganhos.

Lívia Miraglia, também professora da UFMG e coordenadora da clínica, destaca a importância de investigar quem controlava o dinheiro e os deslocamentos, além da eventual retenção de documentos, imposição de dívidas ou vigilância.

“A avaliação é sempre concreta: a vulnerabilidade por si só não configura o crime, é preciso demonstrar que o agente se aproveitou dela”, afirma.

Haddad acrescenta que responsabilizar alguém pelo financiamento de viagens exige demonstrar conhecimento da finalidade de exploração.

“O mero financiamento de passagem não é crime.” Segundo ele, registros financeiros, mensagens, documentos de viagem e depoimentos ajudam a estabelecer esse vínculo.

O auditor fiscal do trabalho e pesquisador Maurício Krepsky observa que o recrutamento de mulheres em situação migratória precária para trabalho sexual pode configurar tráfico de pessoas para exploração sexual ou trabalho análogo à escravidão. Ele ressalta, contudo, que o trabalho sexual voluntário de adultos “é lícito e protegido pelas normas gerais do trabalho, inclusive de saúde e segurança do trabalho”.





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