O senador eleito Deltan Dallagnol (Novo-PR) publicou nesta quinta-feira (22) uma nova versão do PowerPoint da Lava Jato. No centro do slide aparece a frase “O que o Lula tem que entregar”. Em volta, 14 bolhas apontam para o presidente Lula (PT). Cada uma traz um nome ou um tema que a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) cobra do petista na disputa pela abertura de sigilos, a três dias do segundo turno. Deltan publicou no X com a legenda: “Boulos reclamou desse power point, por favor, não repasse!”.
Os itens repetem as exigências que a campanha de Flávio apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A lista inclui dados de Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de Gabinete da Presidência. Inclui também dados de Frei Chico, irmão de Lula, do Instituto Lula e da empresa L.I.L.S. Palestras. Completam a lista os registros de entrada da empresária Roberta Luchsinger no Palácio do Planalto e os gastos do cartão corporativo.
Flávio cobra ainda a agenda da primeira-dama Janja anterior a fevereiro de 2025 e os registros de visitas dos filhos de Lula ao Palácio da Alvorada. Um deles, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, é alvo de três inquéritos por tráfico de influência.
A bolha sobre os telefones retoma uma fala de Flávio em Guarulhos (SP), na quarta-feira (21). “Você não tem celular. Sabe quem recebe as ligações por você? O Marcola. O Lula tem o Marcola do lado dele. É esse Marcola que abria as portas pro Lulinha, o filho dele, fazer negócios em todos os ministérios”, disse o candidato do PL.
Quatro bolhas citam Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, preso em março.
A guerra dos sigilos
A disputa começou no debate da Band, no domingo (18). Lula lançou a Flávio o desafio da abertura dos sigilos bancário, fiscal e telefônico.
Na terça-feira (20), o petista protocolou no TSE e no Supremo Tribunal Federal (STF) uma autorização sobre os próprios sigilos e os da família. A autorização valia para os últimos oito anos e dependia de uma medida igual de Flávio.
Na quarta-feira (21), Flávio respondeu com uma petição. O senador autorizou a abertura dos próprios sigilos dos últimos 20 anos, mas impôs uma lista de exigências. A principal: o período de análise dos dados de Lula e de pessoas próximas começa em 2003, ano da primeira posse do petista.
Na quinta-feira (22), a campanha do PL escalou Deltan na análise dos documentos. Em nota, a campanha afirmou que o ex-procurador vai examinar “cada extrato e relatório para desconstruir a narrativa petista e rastrear as inconsistências”.
Deltan no TSE
Deltan foi ao TSE na quinta. “Da última vez que eu analisei os sigilos de Lula, Lula foi parar na cadeia”, afirmou em entrevista coletiva.
O senador eleito dividiu o trabalho em duas etapas. Na primeira, ele confere se os documentos entregues estão completos. Na segunda, procura indícios de enriquecimento ilícito e de ocultação de patrimônio de Lula, da família e de pessoas próximas.
Em vídeo, Deltan acusou a campanha petista de uma “pegadinha” no acordo. “Eles queriam renovar os compromissos de abrir os sigilos, mas estavam restringindo para não estar na quebra de sigilos o Instituto Lula, os dados relativos ao Vorcaro, dados essenciais para a gente entender e abrir a transparência, a caixa-preta de Lula para o Brasil ver e entender o que tem ali dentro”, disse.
Segundo Deltan, os advogados de Flávio perceberam a lacuna e exigiram a quebra integral. “Nós forçamos os advogados de Lula a assinarem, e o Brasil vai conhecer a verdade”, afirmou.
No fim da tarde, Deltan divulgou outro vídeo. Nele, mostrou fotos do ministro Guilherme Boulos, da Secretaria-Geral da Presidência, a caminho do TSE com um calhamaço. “Pessoal, acabei de desvendar o maior estelionato eleitoral do Lula no dia de hoje”, disse. Segundo Deltan, o material reunia acusações contra Flávio, e não os sigilos de Lula.
Durante uma das gravações, Deltan relatou insultos e atribuiu o tumulto a assessores de Boulos. “Boulos se desespera e manda seus assessores tumultuarem nosso vídeo”, afirmou. Boulos e a campanha de Lula não comentaram a acusação.
A campanha de Lula afirmou que aceitou as condições de Flávio e cobrou a divulgação pública dos dados. O grupo que foi ao TSE reuniu Boulos, a deputada Camila Jara, o senador Camilo Santana e o presidente do PT, Edinho Silva. No fim do dia, as duas campanhas chegaram a um entendimento sobre a abertura dos sigilos.
O PowerPoint de 2016
O slide original foi apresentado em 14 de setembro de 2016, numa entrevista coletiva da força-tarefa da Lava Jato em um hotel de Curitiba. A coletiva tratou da denúncia contra Lula no caso do tríplex do Guarujá. O nome do petista aparecia no centro, cercado por expressões como “petrolão + propinocracia”, “governabilidade corrompida”, “perpetuação criminosa no poder”, “mensalão” e “enriquecimento ilícito”.
Lula foi condenado no caso do tríplex e preso em abril de 2018. Em 2021, o STF anulou as condenações da Lava Jato contra o petista por uma questão de competência da Justiça Federal de Curitiba.
O presidente processou Deltan por danos morais. Perdeu na primeira e na segunda instâncias da Justiça paulista. Em março de 2022, a Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) reverteu o resultado por 4 votos a 1. A indenização ficou em R$ 75 mil. O STF manteve a decisão em 2024.
Com correção e juros, o valor chegou a R$ 146 mil. Deltan pagou a quantia em dezembro de 2025 com doações de apoiadores. “Fui condenado por fazer o que faria de novo mil vezes se eu tivesse mil vidas: colocar na cadeia e não na presidência aqueles contra quem surgem fortes provas de corrupção”, escreveu o ex-procurador nas redes sociais.