O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou nesta quarta-feira (5) que o rebaixamento das relações diplomáticas entre Brasil e Argentina foi motivado pelos ataques públicos do presidente argentino, Javier Milei, às instituições brasileiras e ao presidente Lula (PT). Segundo o chanceler, a medida não teve motivação ideológica, mas decorreu da repetição de declarações consideradas ofensivas pelo governo brasileiro.
Em entrevista ao programa Modo Fontevecchia, exibido pela emissora argentina Net TV e pela Rádio Perfil, Vieira classificou as falas de Milei como “agressivas”, “descabidas” e “grosseiras”. Ele afirmou que houve quatro manifestações em um intervalo de uma semana com críticas diretas ao Brasil.
“Foram quatro manifestações no espaço de uma semana em que o presidente da Argentina, de uma forma muito grosseira, muito direta e muito agressiva, criticou, de forma inaudita, o Brasil e as instituições na pessoa do presidente Lula”, declarou.
O ministro reforçou que o governo brasileiro não pretende conduzir sua política externa com base em diferenças partidárias. “A educação e o respeito são fundamentais, sem isso não pode haver diálogo. A questão ideológica é totalmente secundária”, afirmou.
Na terça-feira (4), o Itamaraty anunciou o rebaixamento das relações diplomáticas entre os dois países. Com a decisão, a Embaixada da Argentina em Brasília passa a ser chefiada apenas por um encarregado de negócios, enquanto o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, permanecerá no Brasil até que, segundo o governo, haja “explicações satisfatórias” para os ataques feitos por Milei.
Vieira afirmou que a medida foi adotada em resposta aos “reiterados insultos e agressões” dirigidos às instituições brasileiras e destacou que as relações entre os dois países sempre foram marcadas pela cooperação desde a redemocratização.
“Criamos uma relação exemplar, que lamentavelmente tentaram destruir neste momento”, disse o chanceler ao recordar o processo de aproximação entre Brasil e Argentina iniciado em 1985.
Argentina reage
Em nota divulgada na terça-feira, a chancelaria argentina criticou a decisão do governo brasileiro e afirmou que Brasília estaria agindo por “questões puramente ideológicas”. O governo de Javier Milei também informou que o Itamaraty solicitou o retorno do embaixador argentino, Daniel Raimondi, embora diplomatas brasileiros tenham esclarecido que a medida não configura expulsão formal.
Nesta quarta-feira, porém, o governo argentino informou que não pretende adotar medidas de retaliação contra o Brasil.
Escalada da crise
A tensão diplomática entre os dois países se intensificou após a participação de Javier Milei na convenção nacional do PL, realizada em 25 de julho, em São Paulo, quando o presidente argentino chamou Lula de “presidiário” durante discurso no evento que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República.
Nos dias seguintes, Milei voltou a fazer críticas ao governo brasileiro. Em entrevistas à imprensa argentina, acusou o Brasil de promover uma campanha contra seu país durante a Copa do Mundo, afirmou que Lula teria enviado marqueteiros para apoiar Sergio Massa nas eleições argentinas de 2023 e voltou a chamar o presidente brasileiro de “ladrão” e “corrupto”, além de questionar decisões do Supremo Tribunal Federal que anularam as condenações do petista na Operação Lava Jato.
Ao comentar a reação do governo brasileiro, Milei afirmou que não considera suas declarações ofensivas e disse que suas falas foram “palavras espontâneas”.