O governo da Argentina, comandado por Javier Milei, não pretende divulgar um comunicado oficial sobre a vitória de Lula (PT) na eleição presidencial brasileira de domingo (25). A posição foi anunciada nesta terça-feira (27) pelo porta-voz da Presidência argentina, Adrián Ravier, que afirmou que a Casa Rosada tomou conhecimento do resultado, mas não pretende emitir uma manifestação institucional para cumprimentar o presidente reeleito.
“Tomamos nota do resultado eleitoral do Brasil”, declarou Ravier durante entrevista à imprensa argentina. Questionado sobre a possibilidade de uma manifestação oficial, inclusive por meio do Ministério das Relações Exteriores, o porta-voz descartou a iniciativa. “Pelo menos por enquanto, não vamos publicar nenhum comunicado”, afirmou.
Ao justificar a decisão, Ravier citou a postura de Lula após a eleição presidencial argentina de 2023, quando Milei venceu a disputa sem receber um cumprimento pessoal do brasileiro.
“Em 2023, quando Milei foi eleito presidente, não houve nenhum gesto do presidente Lula para cumprimentá-lo pessoalmente, nem nada”, declarou o porta-voz.
Na ocasião, Lula publicou uma mensagem na rede social X desejando êxito ao novo governo argentino, mas sem mencionar diretamente o nome de Milei. “Desejo boa sorte e êxito ao novo governo. A Argentina é um grande país e merece todo o nosso respeito. O Brasil sempre estará à disposição para trabalhar junto com nossos irmãos argentinos”, escreveu o petista em novembro de 2023.
Apoio a Flávio e desgaste diplomático
A decisão do governo argentino ocorre após Milei declarar apoio público ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) durante a campanha presidencial brasileira. O presidente argentino também fez ataques a Lula e ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), durante sua participação em um evento do PL em São Paulo, em agosto.
Na ocasião, Milei chamou Lula de “presidiário” e Moraes de “lixo careca”. Em outras declarações, classificou o presidente brasileiro como “ladrão” e “corrupto” e questionou decisões do STF que anularam as condenações do petista no âmbito da Operação Lava Jato.
As declarações provocaram reação do governo brasileiro. O Itamaraty convocou o embaixador argentino em Brasília para manifestar descontentamento e chamou o representante brasileiro em Buenos Aires, Júlio Bitelli, para consultas. O episódio agravou o desgaste nas relações diplomáticas entre os dois países.
Lula inicialmente evitou responder diretamente às provocações. Posteriormente, criticou a participação de Milei no evento do PL e afirmou que não aceitaria interferências externas na política brasileira.
Argentina é um dos principais parceiros comerciais do Brasil
A tensão política ocorre apesar da importância econômica da relação bilateral. Brasil e Argentina mantêm forte integração comercial e industrial e ocupam posições centrais no Mercosul.
Em 2025, o Brasil foi o principal destino das exportações argentinas, com mais de US$ 12,8 bilhões em vendas. Também foi a maior origem das importações do país vizinho, que somaram US$ 18,4 bilhões, segundo dados do governo argentino.
Milei foi o único líder sul-americano a não cumprimentar publicamente Lula pela vitória até esta terça-feira (27). Outros presidentes da região, inclusive representantes da direita, reconheceram o resultado e manifestaram disposição para manter a cooperação com o governo brasileiro.
Entre eles estão o presidente do Paraguai, Santiago Peña, o presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, o chileno José Antonio Kast e a líder peruana Keiko Fujimori. O ex-presidente argentino Mauricio Macri também parabenizou Lula e desejou que o novo mandato traga prosperidade e crescimento para o Brasil e a região.
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