Casa Nóticias Experimento monetário na Turquia alerta para riscos no Brasil

Experimento monetário na Turquia alerta para riscos no Brasil

por admin
0 comentário


A intervenção direta do governo na política monetária da Turquia levou o país a um cenário de descontrole inflacionario e forte desvalorização cambial entre 2021 e 2023. Sob pressão do presidente Recep Tayyip Erdoğan, o Banco Central turco reduziu a taxa básica de juros de 19% para 8,5% ao ano. A medida ocorreu em um momento de escalada global de preços.

✅ Siga o canal do Claudio Dantas no WhatsApp

A tese do governo turco priorizava o crescimento econômico e o crédito barato em detrimento do controle da inflação. O plano buscava impulsionar o Produto Interno Bruto (PIB) via estresse cambial e estimulo ao consumo. Como resultado, o índice oficial de preços ultrapassou a marca de 85% ao ano em 2022. O dólar subiu de 8 para quase 50 liras turcas.

Para conter a trajetória de queda da moeda, a autoridade monetária queimou mais de US$ 200 bilhões de suas reservas internacionais. O valor somou-se aos US$ 128 bilhões consumidos entre 2019 e o início de 2022 em operações de defesa da lira.

Erdoğan demitiu múltiplos presidentes do Banco Central que defenderam a manutenção ou alta de juros conforme os manuais econômicos tradicionais. Sem apoio de investimento estrangeiro direto, a Turquia recorreu a operações de swap cambial com nações parceiras. A estratégia incluiu acordos com Catar, China e Emirados Árabes Unidos no valor de US$ 28 bilhões. O governo também obteve condições favorecidas para a compra de gás natural da Rússia.

As medidas artificiais causaram distorções graves nos mercados locais. O governo turco proibiu empréstimos corporativos em moeda estrangeira e impôs regras para forçar bancos a comprar títulos soberanos com remuneração inferior à inflação. O setor imobiliário registrou alta de preços de 241% em apenas 12 meses devido à busca por ativos de proteção.

Em publicação nas redes sociais, o CCO da Avenue Securities, Daniel Haddad, alertou que o caso turco expõe a vulnerabilidade de manter ativos em uma única moeda emergente sujeita a decisões políticas. Haddad observou que a moeda fraca “sobe de elevador e desce de escada”, destacando que a recuperação da credibilidade exige juros desproporcionalmente maiores por longos períodos.

Para conter o desgaste popular em ano eleitoral, o governo elevou o salário mínimo em 55% e aposentou antecipadamente mais de 2 milhões de trabalhadores. Em junho de 2023, após vencer as eleições, Erdoğan reformulou a equipe econômica e abandonou a política heterodoxa. O Banco Central da Turquia iniciou um ciclo agressivo de aperto monetário e elevou a taxa básica de juros para 50% ao ano.

O risco das teses heterodoxas e a vulnerabilidade do cenário brasileiro

No Brasil, pressões políticas contra o Banco Central e a defesa de teorias heterodoxas mantêm o mercado em alerta. O debate envolve propostas de economistas como André Lara Resende, que defendem a redução forçada da taxa Selic e o financiamento de gastos públicos por emissão de moeda. Declarações do presidente Lula com críticas frequentes à autonomia da autoridade monetária ampliam a desconfiança dos investidores.

O analista de economia e mercado Hugo Queiroz avalia que a tentativa de cortar juros na marra sem sustentação fiscal falha de forma inevitável. Segundo o especialista, o modelo heterodoxo “apenas daria certo com controle de capital e poupança interna forte, tipo o que a China fez”. Ele ressalta que “capital fica incomodado e tende a não investir em economias assim”, provocando a fuga de dólares e o esgotamento rápido das reservas internacionais.

Queiroz explica que o objetivo das propostas defendidas por Lara Resende é buscar alternativas para “financiar os seus gastos através de política monetária e emissão de dinheiro”. O analista lembra que o modelo já foi tentado em países emergentes da América Latina e do Oriente Médio que não possuem poupança própria.

O resultado do financiamento via emissão de moeda é a perda imediata de credibilidade. O analista alerta que a medida gera “uma dificuldade enorme desse financiamento por questões inflacionárias”, o que desemboca em “uma dominância fiscal brutal”. A dinâmica cria uma espiral de “inflação alta com carga tributária alta, extremamente nocivo para o crescimento estrutural”.

A estrutura da economia brasileira torna o país incompatível com tais experimentos monetários. A taxa de poupança interna do Brasil gira em torno de 15% do PIB. Países asiáticos como China e Japão apresentam taxas entre 35% e 40%, enquanto os Estados Unidos mantêm níveis entre 27% e 30%.

Queiroz destaca que países com poupança elevada conseguem absorver o financiamento público por um determinado período. Contudo, “a partir do momento que você perde a dinâmica de um crescimento robusto, o mercado começa a desconfiar da sua capacidade efetiva de gerar riqueza e de pagamento”, exigindo prêmios de risco mais altos para alocar recursos no país.

Diferente do Brasil, a China combina alta taxa de poupança com um rigoroso controle de fluxo financeiro. O analista observa que o governo chinês “não permite que o investidor chinês tenha essa facilidade de escolher onde vai mandar a poupança dele e também não permite que o capital externo entre no país”. Sem esses mecanismos institucionais e autoritários, a adoção de políticas similares no mercado brasileiro torna-se inviável.

O analista critica a visão puramente acadêmica de formuladores que ignoram a dinâmica operacional dos mercados globais. Para Queiroz, embora os formuladores do Plano Real tenham reestruturado a moeda no passado, mantêm uma abordagem desconectada da prática financeira diária. “Eles são pouco experimentados no mercado de capital” e “ignoram as regras de mobilidade do capital e taxa de atratividade”, afirma.

O financiamento da dívida pública brasileira depende diretamente de capital estrangeiro. Diferente da China, que gera superávits cambiais massivos com exportações manufaturadas, o Brasil opera com déficit na conta de capital. Caso investidores estrangeiros retirem recursos do país diante de medidas heterodoxas, “as reservas cambiais acabam rapidamente”.

A execução desse tipo de política no contexto nacional resultaria em um colapso maciço dos indicadores econômicos. O especialista prevê “uma mega inflação, crescimento econômico pífio, fuga de capital e dólar nas alturas”. O cenário inviabilizaria a rolagem da dívida pública e provocaria escassez severa de divisas.

Queiroz classifica a possibilidade de implementação das ideias no Brasil como de baixa probabilidade, mas enfatiza que o risco de fracasso é absoluto. “Se fizer, é 100% de chance de dar errado”, adverte. O analista conclui que o financiamento via expansão monetária “só funciona com moeda forte, como o dólar, e quando o país tem poupança e controle de capital”.

Sua opinião sobre esta matéria importa.





Source link

Você pode gostar também

Design sem nome (84)

Sua fonte de notícias para brasileiros nos Estados Unidos.
Fique por dentro dos acontecimentos, onde quer que você esteja!

TV BRAZIL USA- All Right Reserved. Designed and Developed by STUDYO YO