Há uma semana, Lula disse em evento político que não seria “bobo” de comprar briga com Donald Trump e que o presidente dos EUA não é “seu inimigo”. “Eu não sou bobo. Ele disse que tem o maior avião, maior navio, maior exército do mundo… Eu quero briga com ele? Eu só tenho vocês e quero derrotá-lo na narrativa. Quem está falando a verdade ou mentira?”
A declaração foi dada em meio a um discurso de quase 40 minutos, durante a convenção do PSB que confirmou Geraldo Alckmin como vice em sua chapa de reeleição. Ao citar o caso dos cistos negados pelo Itamaraty a dois funcionários do Departamento de Estado americano, o petista afirmou que “enquanto for presidente e vivo ninguém de fora vai meter o bedelho nas eleições brasileiras”.
“E não adianta falar bravo que eu não vou ficar bravo. Eu quero derrotá-lo e convencer a sociedade americana que na narrativa nós estamos certos e, por isso, nós não abaixamos a cabeça.” Ontem, após a decisão da Casa Branca de cancelar o visto da embaixadora brasileira Maria Luiza Viotti, a Secom do Planalto soltou uma nota classificando como falsa a justificativa sobre a não concessão do agrément de Daniel Lopez, o embaixador indicado por Trump para Brasília.
O governo Lula alegou ainda, dessa vez de forma oficial, que negou os vistos aos dois diplomatas americanos, pois “planejavam visitar o país para colocar em dúvida a integridade do sistema eleitoral brasileiro, em tentativa inaceitável de interferir no processo político nacional”. Não apresentou, porém, qualquer prova confirmando a narrativa.
PORTAS ABERTAS
Seguindo a linha de Lula na semana passada, o ministro da Defesa, José Múcio, admitiu ontem que o Brasil não tem condições de resistir a uma eventual invasão militar dos EUA. “Eu vejo os jornalistas o tempo todo perguntando: ‘Se os Estados Unidos quiserem invadir o Brasil, o que é que o senhor faz como ministro da Defesa?’. Abro o portão, porque a gente não tem equipamento para enfrentá-los e nem tem dinheiro para consertar o portão. Eu prefiro abrir o portão.”
A declaração, em evento da CNI, ocorre em meio ao debate sobre o orçamento das Forças Armadas, que gastam 76% com pessoal e encargos, e outros 12% com o custeio da máquina, restando para investimento cerca entre 8% e 9%. Mais que falta de recursos, pesa a ausência de um planejamento estratégico que otimize os gastos entre Exército, Marinha e Aeronáutica, a partir de uma nova doutrina de engajamento.
Em 2012, o general da reserva Maynard Marques de Santa Rosa, ao deixar o cargo de secretário de Política, Estratégia e Assuntos Internacionais do Ministério da Defesa, disse que o Exército brasileiro só tinha munição para “menos de 1 hora de guerra”. “Nos últimos anos, o Exército só tem conseguido adquirir o mínimo de munição para a instrução. Os sistemas de guerra eletrônica (rádio, internet e celular), a artilharia e os blindados são de geração tecnológica superada. Mais de 120 mil fuzis têm mais de 30 anos de uso. Não há recursos de custeio suficientes.” Na ocasião, o gasto com pessoal era ainda maior, consumindo 90% de todo o orçamento das Forças.