Um ativista chamado Jie Lijian nos contou que recebeu tratamento para um transtorno mental sem seu consentimento em 2018.
Lijian diz que foi detido por participar de um protesto exigindo melhores salários em uma fábrica. Ele afirma que a polícia o interrogou por três dias antes de levá-lo a um hospital psiquiátrico.
Assim como Junjie, Lijian conta que receitaram medicamentos antipsicóticos para ele, que prejudicaram seu pensamento crítico.
Após uma semana internado, ele diz que recusou mais medicamentos. Depois de brigar com a equipe e ser informado de que estava causando problemas, Lijian foi enviado para a eletroconvulsoterapia — terapia que envolve a passagem de correntes elétricas pelo cérebro do paciente.
“A dor era da cabeça aos pés. Meu corpo inteiro parecia que não era meu. Foi muito doloroso. Choque elétrico ligado. Depois, desligado. Choque elétrico ligado. Depois, desligado. Desmaiei várias vezes. Achei que estava morrendo”, revela.
Ele afirma que recebeu alta depois de 52 dias. Agora, ele tem um emprego de meio período em Los Angeles, nos EUA, e está buscando asilo no país.
Em 2019, um ano após Lijian dizer que foi internado, a Associação Médica Chinesa atualizou suas diretrizes de ECT, afirmando que a terapia só deve ser administrada com consentimento e sob anestesia geral.
Queríamos saber mais sobre o envolvimento dos médicos nesses casos.
Falar com a imprensa estrangeira, como a BBC, sem permissão poderia colocá-los em apuros, portanto, nossa única opção era nos disfarçar.
Marcamos consultas telefônicas com médicos que trabalham em quatro hospitais que, de acordo com nossas evidências, estão envolvidos em internações forçadas.
Usamos uma história inventada sobre um parente que havia sido hospitalizado por postar comentários contra o governo na internet — e perguntamos a cinco médicos se eles já haviam se deparado com casos de pacientes enviados pela polícia.
Quatro confirmaram que sim.
“O departamento de psiquiatria tem um tipo de internação chamado de ‘encrenqueiros'”, nos contou um médico.
Outro médico, do hospital onde Junjie foi internado, parece confirmar sua história de que a polícia continua a vigiar os pacientes após receber alta.
“A polícia vai verificar você em casa para garantir que você tome seu remédio. Se você não tomar, pode infringir a lei novamente”, ele disse.
Entramos em contato com o hospital em questão para comentar o assunto, mas eles não responderam.
Tivemos acesso aos prontuários médicos do ativista pela democracia Song Zaimin, internado pela quinta vez no ano passado, o que deixa claro como as opiniões políticas parecem estar intimamente ligadas a um diagnóstico psiquiátrico.
“Hoje, ele estava… falando muito, falando incoerentemente e criticando o Partido Comunista. Portanto, ele foi enviado ao nosso hospital para tratamento hospitalar pela polícia, pelos médicos e pelo comitê de moradores locais. Esta foi uma internação involuntária”, diz o documento.
Pedimos a Thomas G. Schulze, presidente eleito da Associação Mundial de Psiquiatria, que analisasse estas anotações. Ele respondeu:
“Pelo que está descrito aqui, ninguém deveria ser internado involuntariamente e tratado contra sua vontade. Isso cheira a abuso político.”
Entre 2013 e 2017, mais de 200 pessoas relataram que haviam sido internadas injustamente pelas autoridades, de acordo com um grupo de jornalistas cidadãos na China que documentou abusos da Lei de Saúde Mental.
Suas reportagens terminaram em 2017, porque o fundador do grupo foi detido e posteriormente preso.
Para as vítimas que buscam justiça, o sistema jurídico parece estar contra elas.
Um homem que vamos chamar de Li, que foi internado em 2023 após protestar contra a polícia local, tentou entrar com um processo judicial contra as autoridades por seu encarceramento.
Diferentemente de Junjie, os médicos disseram a Li que ele não estava doente, mas a polícia contratou um psiquiatra externo para avaliá-lo, que o diagnosticou com transtorno bipolar, e ele foi mantido lá por 45 dias.
Após ser liberado, ele decidiu contestar o diagnóstico.
“Se eu não processar a polícia, é como se eu aceitasse estar mentalmente doente. Isso vai ter um grande impacto no meu futuro e na minha liberdade, porque a polícia pode usar isso como motivo para me prender a qualquer momento”, diz ele.
Na China, os prontuários de qualquer pessoa diagnosticada com um transtorno grave de saúde mental podem ser compartilhados com a polícia — e até mesmo com os comitês de moradores locais.
Mas Li não foi bem-sucedido — os tribunais rejeitaram seu recurso.
“Ouvimos nossos líderes falarem sobre o Estado de direito”, ele nos disse. “Nunca sonhamos que um dia poderíamos ser trancados em um hospital psiquiátrico.”
A BBC encontrou 112 pessoas listadas no site oficial de decisões judiciais chinesas que, entre 2013 e 2024, tentaram entrar com processos contra a polícia, governos locais ou hospitais por esse tipo de tratamento.
Cerca de 40% dos autores dos processos estavam envolvidos em reclamações contra as autoridades. Apenas dois ganharam seus casos.
E o site parece ser censurado — cinco outros casos que investigamos não constam no banco de dados.
A questão é que a polícia desfruta de “considerável poder discricionário” para lidar com “encrenqueiros”, de acordo com Nicola MacBean, da The Rights Practice, uma organização de direitos humanos de Londres.
“Enviar alguém para um hospital psiquiátrico, contornando os procedimentos, é uma ferramenta muito fácil e muito útil para as autoridades locais.”
As atenções agora estão voltadas para o destino da vlogger Li Yixue, que acusou um policial de agressão sexual. Diz-se que Yixue foi internada recentemente pela segunda vez depois que suas postagens nas redes sociais falando sobre a experiência se tornaram virais. Há informações de que ela está agora sob vigilância em um hotel.
Apresentamos as conclusões da nossa investigação à embaixada chinesa no Reino Unido. Eles disseram que, no ano passado, o Partido Comunista Chinês “reafirmou” que precisa “melhorar os mecanismos” em torno da lei, que, segundo ele, “proíbe explicitamente a detenção ilegal e outros métodos para privar ou restringir ilegalmente a liberdade pessoal dos cidadãos”.
Com informações bbc.com