O dólar disparou para R$ 5,90 nesta quarta-feira (27), em reação do mercado à notícia de que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, vai fazer um pronunciamento em cadeia nacional para explicar o pacote de corte de gastos.
Marcada para às 20h30, a fala terá duração de sete minutos e 18 segundos, e Haddad também deve anunciar a elevação para R$ 5.000 da faixa de isenção da tabela do IRPF (Imposto de Renda da Pessoa Física).
Às 14h14, a moeda norte-americana disparava 1,46%, cotada a R$ 5,892. Na máxima, chegou a R$ 5,905.
Já a Bolsa despencava 1,35%, aos 128.161 pontos.
A possibilidade de aumento da faixa de isenção, confirmada pela Folha, é defendida por integrantes do governo como contraponto político a medidas do pacote que atingirão benefícios sociais.
Embora não haja decisão, interlocutores da equipe econômica apostam na medida como uma maneira de aplacar o impacto negativo do pacote sobre quem recebe o salário-mínimo.
A espera pelo pacote fiscal completa um mês nesta semana. Prometidas para depois das eleições municipais, findadas em 27 de outubro, as medidas —e a expectativa prolongada— têm pautado os ânimos do mercado doméstico.
O pronunciamento, para o mercado financeiro, “demonstra falta de comprometimento do governo com a situação fiscal do país”, diz Thiago Avallone, especialista em câmbio da Manchester Investimentos.
“Todo mundo está aguardando o anúncio do pacote para entender para onde vão as contas públicas, de onde sairão os cortes, e o governo continua pensando em medida populista. Ele diz que vai cortar o aumento do salário mínimo, que é o que se espera, e, com a outra mão, vai isentar o IR para quem ganha até R$ 5.000.”
A faixa de isenção hoje é de dois salários mínimos (R$ 2.824). No PLOA (Projeto de Lei Orçamentária) de 2024, não há previsão nem mesmo de reajustar a faixa de isenção com o aumento do salário mínimo já previsto.
A correção da tabela é uma promessa de campanha de Lula, que cobra a medida de Haddad desde o início do governo.
Após a Folha revelar que o governo estudava a criação de imposto mínimo para a taxação de milionários a fim de financiar a correção da tabela, e Lula confirmar essa intenção, a reação do mercado foi negativa, pela perda da arrecadação projetada.
As medidas de contenção de gastos endereçam temores do mercado sobre a sustentabilidade do arcabouço fiscal, o conjunto de regras que visa o equilíbrio das contas públicas do país.
Para os agentes financeiros, é preciso ajustes na ponta das despesas, e não só reforços na arrecadação, para diminuir a dívida pública.
O pacote foi prometido ainda em meados de outubro pela ministra Simone Tebet (Planejamento e Orçamento), e a expectativa dos agentes econômicos têm crescido desde então.
O tamanho do corte é estimado por integrantes do governo em R$ 70 bilhões —entre R$ 25 bilhões e R$ 30 bilhões em 2025, e de R$ 40 bilhões em 2026. Para economistas do Itaú Unibanco, são necessários ao menos R$ 60 bilhões para que o mercado tenha mais confiança no ajuste fiscal proposto.
Na cena internacional, o foco se volta para a nova bateria de dados econômicos dos Estados Unidos, com investidores à procura de sinais sobre os próximos passos do Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA).
O PCE (índice de preços de consumo pessoal, na sigla em inglês) veio em linha com o esperado pelo mercado. Indicador favorito do Fed para inflação, ele mostrou uma aceleração de 0,2% em outubro ante o mês anterior. No ano, subiu para 2,3% —em setembro, estava em 2,1%.
O núcleo do PCE, que exclui itens mais voláteis do cálculo, como alimentos e energia, subiu 0,3% na base mensal e para 2,8% na anual.
Já a segunda estimativa do PIB (Produto Interno Bruto) do terceiro trimestre, divulgada mais cedo pela manhã, não mostrou alterações em relação à primeira leitura, confirmando que a economia norte-americana cresceu 2,8% em relação ao mesmo período do ano passado.
No trimestre anterior, o avanço foi de 3% na base anual. A expansão da economia está em um ritmo bem acima do que as autoridades do Fed consideram como não inflacionário, de cerca de 1,8%.
Na ferramenta CME Fed Watch, as chances de um corte de 0,25 ponto percentual na próxima reunião marcavam 66,3%; as de manutenção no atual patamar de 4,50% e 4,75% reuniam as apostas restantes.
Também estão no radar anúncios do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump. Ele confirmou na terça-feira a indicação de Jamieson Greer como representante comercial do país, um dia após prometer impor tarifas sobre México, Canadá e China.
Analistas têm ressaltado que as medidas prometidas por Trump, incluindo tarifas e cortes de impostos, tendem a favorecer o dólar devido ao seu potencial inflacionário, o que manteria os juros elevados nos EUA.
Fonte: Folha de S.Paulo