Home Nóticias Do transporte de droga à inteligência: entenda como policiais dão suporte logístico ao PCC

Do transporte de droga à inteligência: entenda como policiais dão suporte logístico ao PCC

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Eram tantas afinidades que Thiago Marcondes e Gilberto Xavier acabaram se tornando amigos. Moravam na mesma cidade, frequentavam a mesma academia e compartilhavam a mesma profissão: policial, um civil e outro militar. Tinham ainda o mesmo cliente: Gilson Alves da Silva, o Galego, chefe do Primeiro Comando da Capital (PCC) na região do Alto Tietê, na Grande São Paulo. O escrivão Marcondes recebia propina para não investigar Galego. Já o cabo Xavier era pago para matar em nome do bandido. Hoje, o PM é réu sob a acusação de ter sido contratado pelo traficante para assassinar o policial civil.

Além de lucrar para deixar o PCC cometer crimes livremente, policiais civis, militares e penais também atuam como operadores da facção, aponta levantamento inédito do GLOBO. O segundo capítulo da série “Parceria com o crime” mostra que, dos 111 agentes de segurança que viraram réus ou foram condenados por ligação com o grupo nos últimos cinco anos, 13 são acusados de atuar em partes cruciais da cadeia criminosa da organização — como a logística da droga, no transporte e escolta das cargas; a inteligência, fornecendo informações internas dos órgãos de controle; e a pistolagem, para tirar do caminho desafetos e rivais. Assim, a facção paulista que nasceu nos presídios em oposição às forças de segurança hoje se une a seus agentes para cometer crimes.

— O PCC surge após o (massacre do) Carandiru propondo a unificação do crime contra a polícia. Ali, o policial era visto como inimigo. Mas o avanço do PCC profissionalizou a cena do tráfico e colocou ordem no mundo do crime, o negócio tornou-se mais robusto e rentável. Esse crescimento mudou a cena criminal e as relações entre polícia e banditismo — diz o pesquisador Bruno Paes Manso, autor do livro “A guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil”.

Para o Ministério Público de São Paulo (MPSP), o homicídio do escrivão Marcondes pelo PCC foi motivado por vingança: ele teria inventado para Galego uma investigação fictícia, na tentativa de extorqui-lo. O plano teria sido descoberto pelo traficante, que contratou o cabo Xavier para eliminar o desafeto: em 16 de fevereiro do ano passado, o PM atraiu Marcondes para um posto de gasolina e o convenceu a embarcar em seu carro. O escrivão nunca mais foi visto.

O MPSP acredita que Xavier executou o amigo e ocultou o cadáver, tal qual o traficante encomendou. Após dois meses, dois ex-PMs que passaram a investigar o desaparecimento do escrivão também foram encontrados mortos. Os corpos foram desovados em uma área de mata com marcas de tiros e sinais de tortura. Xavier e Galego irão a júri popular pelo homicídio de Marcondes.

Os serviços de homens da lei para o PCC incluem até usar o sistema da polícia em benefício da facção. De serviço em Várzea Paulista (SP) na madrugada de 19 de março de 2021, o cabo Rodolfo Barboza Luz e o soldado Elizeu Forquilha foram cooptados para dar guarida a uma quadrilha que furtava o caixa eletrônico de um supermercado da região. A tarefa dos agentes era escutar o rádio da corporação e alertar sobre a movimentação de viaturas, para que a empreitada fosse concluída sem percalços.

Naquela noite, os assaltantes escalaram o telhado e rastejaram rumo ao cofre para não serem captados pelos sensores do estabelecimento. Enquanto o caixa era removido a marretadas, o cabo Luz, do lado de fora, recebeu uma ligação de um dos ladrões e seguiu na linha por quase duas horas, durante toda a ação. Seu celular, contudo, vinha sendo monitorado pelo MPSP, que investigava os ladrões do PCC e gravou toda a conversa.

Em tempo real, Luz monitorava a movimentação policial e tranquilizava: “Aqui tá suave, não cantou nada não, mano!”. Ao fundo, é possível ouvir o rádio do Centro de Operações da PM (Copom) ligado.

Horas mais tarde, Luz foi novamente acionado por comparsas apreensivos com um carro preto que passava pelo local: “É você que está com essa viatura?”. Diante da negativa, os criminosos se deram conta de que policiais do Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep), que não estavam envolvidos no esquema, circulavam nas redondezas. Logo depois da ligação, as câmeras de vigilância do mercado mostram o bando tentando fugir.

Os homens do Baep conseguiram prender dois dos integrantes da quadrilha, mas os demais escaparam graças ao monitoramento feito pelos policiais. A Justiça Militar de São Paulo condenou Luz e Forquilha, seu parceiro de patrulha, em duas instâncias pelo crime de furto qualificado.

Para Cláudio Aparecido da Silva, ouvidor das Polícias de São Paulo prestes a deixar o posto, o avanço do PCC sobre as tropas ocorre paralelamente ao esvaziamento do controle externo das corporações:

— Dado o tamanho do poder que a polícia tem, os mecanismos de controle são ineficientes. O que a câmera corporal produz de evidência está sob o controle de quem? Apenas da polícia. A polícia define o que ela entrega à Justiça. A própria Corregedoria está concentrada sob a polícia. Não há controle externo eficiente e ativo.

‘Vagabundo nato, mano’
Já em Minas Gerais, uma investigação que começou com a apreensão de parte de uma carga de maconha numa rodovia trouxe à tona a tentativa de infiltração de um homem apontado como integrante do PCC na PM do Distrito Federal. Em 17 de março do ano passado, dois homens numa BMW/X1 furaram uma blitz da Lei Seca na BR-251, na altura de Unaí, no Noroeste mineiro. Após uma perseguição, o motorista perdeu o controle do veículo, que capotou. Os dois ocupantes sobreviveram e fugiram correndo com uma sacola. No local do acidente, PMs encontraram três tabletes de maconha prensada.

Segundo a polícia mineira, a carga total, levada pelos traficantes na fuga e jamais apreendida, somava 30 quilos de droga. No mesmo dia, o proprietário da BMW foi identificado: Wadison Pereira Fernandes de Souza — que, três meses antes, havia ingressado como soldado no Curso de Formação de Praças da PMDF.

Ao longo dos meses seguintes, a investigação revelou, a partir de apreensões e quebras de sigilo telefônico, que Souza integrava uma quadrilha ligada ao PCC que traficava drogas de Uberlândia até Brasília. Seu papel era fornecer os veículos para transporte das cargas.

Em conversa interceptada, um comparsa chegou a dizer ao aluno da PM: “Não me leva a mal, mas pra mim tu sempre vai ser vagabundo nato, mano”. O aspirante concordou: “Errado nunca vai estar. O que a rua criou só a rua tira”. Em sua casa, a polícia apreendeu anotações “que ligam Souza à Sintonia dos Gravatas”, o braço jurídico do PCC. Antes de passar no concurso, o soldado atuava como advogado.

Na sentença que condenou Souza a 16 anos e quatro meses de prisão, em julho, o juiz Júlio Alexandre Fialho Moreira, da Comarca de Unaí, escreveu que ele tentava se inserir “em órgão de segurança pública, na condição de informante do crime organizado”, e que a investigação coibiu o “marco histórico da primeira infiltração de organização criminosa nos quadros da segurança Pública do Distrito Federal”. Dois meses após a condenação, Souza foi excluído do Curso de Formação de Praças.

A defesa do soldado afirma que ele “jamais integrou” facções criminosas. A nota assinada pelo advogado João Henrique Lippelt Moreno informa que recorreu da condenação, com recurso pendente e “perspectivas favoráveis ao reconhecimento da inocência”. O GLOBO não conseguiu contato com os demais citados.

Fonte: O Globo



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