Na manhã desta quarta-feira (29/01), passageiros do voo AD 8900, da companhia Azul, vindo do Brasil, tiveram uma experiência incomum no Aeroporto de Lisboa. Após desembarcarem do avião e entrarem no ônibus que os levaria ao terminal — procedimento normal — os viajantes foram surpreendidos por um grupo de policiais dentro do prédio, logo na subida das escadas rolantes, antes, portanto, da área de imigração. A ação, realizada pela Polícia de Segurança Pública (PSP), que assumiu o controle fronteiriço depois da extinção do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), em 2023, gerou estranhamento entre passageiros frequentes da rota Brasil-Portugal, pois nunca haviam passado por situação similar.
Uma brasileira, portadora de passaporte europeu e residente em Lisboa há 25 anos, descreveu o ocorrido como algo inédito. “Desembarquei do ônibus e já havia um contingente de policiais nos aguardando. Não era algo comum. Normalmente, seguimos direto para a imigração”, relatou. De acordo com ela, assim que chegaram na barreira montada pela PSP, os passageiros foram orientados a se posicionar em fila, enquanto os policiais, com mesas montadas no terminal, começaram a verificar a documentação de cada um.
Apesar da surpresa, a brasileira explicou que a abordagem foi feita de forma educada. “Os policiais estavam gentis, pedindo os passaportes e verificando as informações, mas a presença deles em grande número foi algo novo para mim”, afirmou. Durante o processo, ela percebeu que algumas pessoas foram separadas para averiguação mais detalhada, o que aumentou a sensação de que algo fora do normal estava ocorrendo. “Não maltrataram ninguém, mas vi que algumas pessoas foram direcionadas para áreas separadas”, comentou.
O ocorrido, no entanto, não deixou de gerar curiosidade sobre o motivo da operação. “Nunca vi isso nos 25 anos que moro em Lisboa. Normalmente, seguimos para a imigração, e é lá que as verificações acontecem. Hoje, foi diferente. Será que mudou a rotina de procedimentos de segurança no aeroporto?”, indagou a passageira, lembrando que todos tiveram de passar novamente pelo setor de imigração, com os questionamentos se repetindo.
Aperto na fiscalização
Após a abordagem dos viajantes, o PÚBLICO Brasil entrou em contato com a PSP do Aeroporto de Lisboa, que orientou a reportagem a buscar contato com o comando da corporação em Lisboa para mais informações sobre o procedimento. Foram enviados questionamentos por e-mail e confirmado o recebimento da mensagem por contato telefônico. O setor de imprensa da PSP pediu que a reportagem aguardasse a resposta. Até o momento da publicação dessa notícia, nenhum comunicado foi enviado.
O novo procedimento de triagem no Aeroporto de Lisboa faz parte das mudanças trazidas com a extinção do SEF. A abordagem policial tem se intensificado, especialmente para voos vindos de países de fora da União Europeia, como o Brasil. Este tipo de operação ainda é uma novidade para muitos passageiros e tem gerado debates sobre o que esperar das futuras chegadas de voos internacionais.
A própria passageira brasileira que compartilhou seu relato destacou que, embora o tratamento tenha sido gentil, a presença dos policiais e a separação de algumas pessoas para verificações mais profundas deixou claro que a PSP está adotando uma postura mais rigorosa. “Eles estavam fazendo o trabalho de forma profissional, mas não pude deixar de notar a diferença”, ressaltou.
Em recente reportagem, o PÚBLICO Brasil mostrou que, diante das facilidades previstas em lei para a entrada de brasileiros em Portugal, o Governo deveria adotar medidas mais rígidas de controle nos aeroportos como contraponto. Em dezembro passado, a Assembleia da República aprovou mudanças na Lei de Estrangeiros (23/2007), favorecendo cidadãos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).
O decreto preparado pelo Parlamento está sob análise do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Caso seja sancionado, o que deve ocorrer nos próximos dias, brasileiros e timorenses poderão entrar em Portugal sem vistos e, em território luso, pedir autorização de residência. Para os demais cidadãos da CPLP, ficou mantida a exigência de vistos, mas eles também poderão, já no país, requererem o título de residência.
Fonte: Público Brasil