O banco Digimais, do bispo Edir Macedo, usou fundos de investimento ligados à própria instituição para retirar do balanço carteiras bilionárias de crédito inadimplente e melhorar artificialmente seus resultados financeiros. A informação é do Estadão.
Segundo documentos obtidos pelo jornal, o banco transferiu financiamentos com centenas de milhões de reais em calotes para fundos dos quais ele mesmo é cotista. A operação, segundo o Estadão, permitiu que essas perdas deixassem de aparecer nas demonstrações financeiras da instituição.
O Digimais também negociou precatórios de difícil recebimento com a holding ligada a Macedo, em uma transação que acendeu alerta entre auditores independentes.
Peritos do mercado financeiro ouvidos pelo Estadão classificaram parte das operações como de “alto risco regulatório” e “sinal vermelho forte”. De acordo com o jornal, a Polícia Federal (PF) investiga o banco por suspeitas de fraude.
Com a transferência das carteiras problemáticas para os fundos, o Digimais declarou lucro de R$ 31 milhões no fim de 2025. A “manobra” teria evitado o reconhecimento de pelo menos R$ 480 milhões em créditos vencidos no balanço oficial do banco.
O valor total exposto aos fundos chega a R$ 3 bilhões. Parte dessas estruturas sequer pôde ser auditada completamente devido à falta de acesso a documentos por auditores independentes.
Os fundos absorveram principalmente carteiras de financiamento de veículos, principal negócio do Digimais. Em muitos casos, os créditos envolviam clientes de alto risco, carros antigos e contratos com elevada inadimplência.
Um dos fundos citados é o Tabor, que tinha R$ 960 milhões em carteiras de crédito em abril de 2026. Desse total, R$ 575 milhões estavam inadimplentes. Mais de R$ 200 milhões correspondiam a parcelas atrasadas há até 720 dias.
Apesar disso, o último balanço semestral do Digimais apontava R$ 366 milhões em créditos vencidos na carteira de financiamento de veículos. Segundo o Estadão, as perdas concentradas nos fundos não apareciam detalhadas nas demonstrações financeiras da instituição.
No mercado financeiro, operações em que o banco atua dos dois lados da transação são conhecidas como “Zé com Zé”. Na prática, o Digimais criava fundos, comprava os próprios créditos problemáticos e retirava essas perdas do balanço apresentado ao mercado.
Especialistas afirmam que a estratégia melhora artificialmente os indicadores financeiros do banco, mas não altera a situação real da instituição.
Auditores independentes também apontaram problemas em outra operação envolvendo o fundo Hermon. A holding de Macedo comprou R$ 741 milhões em cotas do fundo que pertenciam ao Digimais.
“Embora suportada por pareceres legais atestando sua lisura e conformidade regulatória, com base na análise do contrato celebrado entre as partes, identificamos que a operação pode não refletir condições usuais de mercado, uma vez que não prevê remuneração compatível com sua natureza econômica e que sua realização está condicionada ao recebimento por parte da adquirente ou por meio de aporte dos controladores finais”, afirmou a auditoria obtida pelo jornal.
O fundo Hermon detém direitos ligados a uma disputa judicial envolvendo indenizações da antiga Companhia de Mineração e Siderurgia, incorporada ao processo de criação da Vale do Rio Doce durante o governo Getúlio Vargas. O caso se arrasta há décadas na Justiça.
O Digimais está à venda há mais de um ano e negocia uma possível aquisição com o BTG Pactual. Em nota ao Estadão, o banco de André Esteves afirmou que assinou documentos para uma potencial operação, ainda sujeita a condições financeiras e regulatórias.
“A operação não foi concluída e deverá ocorrer por meio de leilão. A eventual transação também depende de mecanismos de suporte financeiro, incluindo a participação do Fundo Garantidor de Créditos (FGC)”, informou o BTG ao jornal.