O partido Novo protocolou nesta sexta-feira (31) uma representação no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar do Senado pedindo a abertura de um processo para apurar a conduta do senador Jaques Wagner (PT-BA) por suposta quebra de decoro parlamentar. A iniciativa tem como base elementos da Operação Compliance Zero, cuja investigação foi parcialmente tornada pública por decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Na representação, a legenda sustenta que há indícios suficientes para justificar a apuração na esfera político-disciplinar, independentemente do andamento das investigações criminais. O documento menciona suspeitas de recebimento de vantagens econômicas indevidas, pagamentos a uma empresa ligada ao núcleo familiar do senador, negociações envolvendo um imóvel em Salvador e possível atuação parlamentar em temas de interesse do Banco Master.
O pedido foi apresentado no mesmo dia em que vieram a público novos trechos da investigação. Entre as medidas autorizadas por André Mendonça estão o acesso a registros telefônicos e o monitoramento, por dez dias, da localização aproximada dos celulares vinculados ao senador e a outros investigados.
A Polícia Federal afirma ter identificado uma relação próxima entre Jaques Wagner e Augusto Ferreira Lima, conhecido como “Guga Lima”, ex-sócio do Banco Master. Segundo os investigadores, o vínculo teria aproximado o parlamentar do empresário Daniel Vorcaro e facilitado interlocuções sobre pautas legislativas de interesse da instituição financeira.
De acordo com o inquérito, Wagner e Augusto Lima trocaram 74 ligações entre novembro de 2023 e maio de 2025, totalizando cerca de cinco horas e meia de conversas. A investigação também aponta tratativas para a aquisição de um apartamento avaliado em R$ 2,5 milhões, que, segundo a PF, teria seguido modelo semelhante ao utilizado em operações investigadas como pagamento de propina.
O senador foi alvo de mandado de busca e apreensão durante a nona fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em 18 de junho. A Polícia Federal apura se houve recebimento de vantagens em troca de atuação parlamentar favorável ao Banco Master.
Para o senador Eduardo Girão (Novo-CE), a instalação do Conselho de Ética é necessária para permitir o andamento de representações disciplinares.
“É urgente que o Conselho de Ética seja instalado para que as representações possam tramitar, as fiscalizações ocorram e os senadores exerçam plenamente seu papel constitucional. Isso é essencial para demonstrar respeito à sociedade e ao próprio Parlamento”, afirmou.
Atualmente, o Conselho de Ética do Senado ainda não foi instalado nesta legislatura, o que impede a análise de representações contra parlamentares. O Novo ingressou com ação no STF para cobrar a instalação do colegiado. A ministra Cármen Lúcia determinou que o Senado se manifeste sobre o tema, mas a decisão definitiva ainda depende do posicionamento da Casa.
Em entrevista à rádio Baiana FM nesta sexta-feira, Jaques Wagner evitou comentar o conteúdo da investigação. O senador afirmou que foi orientado por sua defesa a não se manifestar sobre o caso e citou um trecho da decisão de André Mendonça segundo o qual o inquérito também serve para “afastar a culpa”.