*Por André Lucena
Diletos conservadores,
É consabido, de que, uma campanha presidencial não se constrói apenas em Brasília, nas redes sociais ou em torno das grandes lideranças nacionais. Eleições são vencidas nos estados, nos municípios e, sobretudo, pela capacidade de transformar identidade política em organização, interlocução e capilaridade.
Esse é um desafio que precisa ser enfrentado pela direita brasileira e, particularmente, pela construção política em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República: identificar, ouvir e reintegrar lideranças que participaram das campanhas anteriores e que, especialmente no Nordeste, permaneceram sem interlocução com o núcleo nacional.
Falo também a partir da experiência de quem participou desse processo.
Em 2018, na primeira campanha presidencial de Jair Bolsonaro, fui designado por Levy Fidelix para atuar na coordenação jurídica da campanha em Pernambuco, quando a aliança entre PSL e PRTB integrou o projeto político que sustentava a candidatura presidencial. Pernambuco, inclusive, possuía relevância particular naquele contexto, por ser o estado de origem do PSL, fundado por Luciano Bivar.
Em 2021, assumi a Presidência Estadual do PRTB na Paraíba. Nas eleições de 2022, sob minha condução partidária, estruturamos uma chapa completa, com candidaturas ao Governo do Estado, ao Senado e aos cargos proporcionais. Fui, inclusive, candidato a primeiro suplente de senador. O trabalho político e partidário que desenvolvi à frente do PRTB resultou em aproximadamente 258 mil votos para Jair Bolsonaro na Paraíba, correspondentes a cerca de 12% dos votos válidos no primeiro turno, resultado expressivo diante das dificuldades eleitorais enfrentadas pela direita naquele Estado.
Apesar desse resultado, construído a partir do trabalho que desenvolvi como Presidente Estadual do PRTB, jamais houve, posteriormente, uma interlocução política efetiva do núcleo nacional conosco. Não houve sequer a preocupação de compreender quem realizou aquele trabalho, como aqueles votos foram construídos e de que maneira essa estrutura poderia permanecer integrada ao projeto nacional.
Esse é justamente um dos pontos que precisam ser corrigidos. Não se trata de reivindicar espaços ou cargos. Trata-se de reconhecer, identificar e reintegrar lideranças que efetivamente trabalharam, construíram estruturas partidárias e entregaram resultados eleitorais relevantes, mas que, posteriormente, permaneceram sem qualquer interlocução com o núcleo político nacional.
E esse não é um problema exclusivamente pessoal. Há, no Nordeste, inúmeras lideranças políticas, jurídicas, religiosas, empresariais, comunitárias e de comunicação que participaram ativamente das campanhas de 2018 e 2022, mas que hoje se encontram politicamente dispersas e sem canais efetivos de diálogo.
Esse patrimônio político não deveria ser desperdiçado.
Há, nesse aspecto, uma diferença de método que a direita precisa observar. A esquerda brasileira historicamente procura proteger, fomentar e ampliar suas lideranças. Quem trabalha em suas campanhas tende a permanecer inserido em redes políticas, partidárias e sociais, recebe espaço para continuar atuando e, muitas vezes, é preparado para assumir novas responsabilidades. Existe uma preocupação permanente com a formação, preservação e renovação de seus quadros.
A direita, ao contrário, tem frequentemente abandonado pessoas que trabalharam por suas próprias campanhas. Lideranças que organizaram movimentos, estruturaram partidos, enfrentaram ambientes eleitorais adversos, colocaram seus nomes e suas reputações em defesa de um projeto e conquistaram votos acabam, depois das eleições, simplesmente perdendo qualquer canal de interlocução.
Isso produz uma enorme contradição. A cada nova eleição, procura-se construir aquilo que já havia sido construído anteriormente. Em vez de preservar uma rede política permanente, recomeça-se praticamente do zero, enquanto pessoas experientes, com história e capacidade de mobilização, permanecem à margem.
Política não se faz apenas conquistando lideranças. Faz-se também sabendo conservá-las, valorizá-las e ampliá-las.
É necessário compreender que liderança regional não se constitui apenas pela ocupação de cargos partidários. Existem pessoas que possuem história, votos, relações sociais, capacidade de mobilização e presença em determinados segmentos, mesmo estando fora das estruturas formais dos partidos.
O grande equívoco ocorre quando a representação estadual se transforma em um círculo fechado, no qual a interlocução fica limitada aos integrantes de determinado grupo, familiares, aliados imediatos ou pessoas vinculadas à estrutura partidária local.
Um projeto presidencial precisa ser maior do que os limites internos de qualquer diretório.
O adversário compreendeu isso há muito tempo. O PT mantém no Nordeste diferentes canais de interlocução política, partidária, sindical, social e institucional. Lideranças estaduais conseguem estabelecer pontes com dirigentes nacionais e com personagens relevantes do projeto presidencial. Há continuidade política, formação de quadros e preservação das relações construídas ao longo das campanhas.
A direita necessita desenvolver capacidade semelhante de articulação, sem necessariamente reproduzir o modelo ideológico ou organizacional da esquerda. Trata-se simplesmente de compreender uma regra elementar da política: ninguém constrói um projeto nacional desperdiçando capital humano e político.
Em Pernambuco, por exemplo, existe uma expressiva parcela conservadora do eleitorado que não necessariamente está filiada ao PL. Há lideranças que estiveram nas ruas em 2018, trabalharam em 2022, defenderam o então presidente Jair Bolsonaro e continuam identificadas com esse campo político, mas não possuem qualquer interlocução organizada com a estrutura nacional.
Na Paraíba, situação semelhante merece atenção. Se milhares de pessoas trabalharam por determinado projeto político e centenas de milhares de eleitores responderam eleitoralmente a esse esforço, essas lideranças precisam ser identificadas, ouvidas e incorporadas à construção seguinte.
Política também é memória.
Quem esteve presente quando o projeto ainda era incerto não pode ser lembrado apenas quando chegam as eleições.
Por isso, considero fundamental que Flávio Bolsonaro, na construção de sua candidatura presidencial, estabeleça uma política própria de interlocução com o Nordeste. Isso não significa enfraquecer presidentes estaduais de partidos ou atropelar estruturas partidárias. Significa ampliar a base política para além delas, construindo pontes com aqueles que possuem história, representatividade e capacidade de mobilização.
É necessário realizar um verdadeiro mapeamento das eleições de 2018 e 2022: quem coordenou campanhas, quem organizou movimentos, quem estruturou partidos, quem obteve votos, quem possui representação social, quem permaneceu defendendo o projeto e quem, apesar de tudo isso, ficou sem interlocução.
Pernambuco possui ainda uma circunstância política relevante: a candidatura de Mendonça Filho ao Senado representa uma oportunidade importante de composição de um campo político competitivo. Mas uma eleição presidencial exige algo ainda maior. Exige uma rede estadual capaz de conversar com diferentes segmentos, lideranças e municípios.
Não basta que existam representantes formalmente designados. É preciso que esses representantes tenham capacidade de agregar. Liderança política não pode significar conversar apenas com os seus. Quando estruturas estaduais se fecham em pequenos grupos, acabam afastando justamente aqueles que poderiam ampliar a presença política e eleitoral do projeto.
O Nordeste não pode ser visitado apenas durante a campanha eleitoral. Precisa ser politicamente compreendido.
Flávio Bolsonaro tem a oportunidade de corrigir uma deficiência histórica desse campo político: transformar apoiadores dispersos em uma rede permanente de lideranças, recuperar aqueles que participaram das jornadas anteriores e estabelecer canais de comunicação entre Brasília e aqueles que efetivamente constroem votos nos estados.
Existem pessoas no Nordeste que não estão pedindo cargos. Querem participar, ser ouvidas e contribuir com um projeto no qual acreditaram quando ele ainda estava sendo construído.
Algumas delas estão esperando essa conversa desde 2018.
Enquanto a esquerda preserva, fomenta e multiplica suas lideranças, a direita não pode continuar se dando ao luxo de abandonar as suas.
Talvez esteja justamente aí uma parte importante dos votos que a direita ainda precisa conquistar no Nordeste.
André Lucena – advogado e jornalista