O relatório da Polícia Federal que revelou mensagens e registros envolvendo Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), não encerra a análise do material apreendido com o fundador do Banco Master.
A própria corporação afirma que o documento, de 218 páginas, entregue ao ministro André Mendonça em 27 de agosto, “não possui caráter exaustivo”. O trabalho foi realizado em 72 horas e analisou um dos celulares apreendidos de Vorcaro durante a Operação Compliance Zero.
A PF afirma que, nesse período, transcreveu apenas as “menções nominais diretamente identificadas”. O relatório também admite a existência de “outras citações ou referências indiretas ainda não detectadas” pelos investigadores.
O documento registra ainda que os resultados podem ser alterados com o avanço das apurações. Segundo a corporação, novos relatórios poderão ser produzidos caso informações inicialmente consideradas sem relevância ganhem importância durante a investigação.
Outros celulares ainda serão analisados
O aparelho examinado pela PF não é o único celular apreendido com Vorcaro.
Em março, ao analisar a manutenção da prisão do banqueiro, André Mendonça informou que havia outros oito aparelhos a serem examinados. Cinco foram recolhidos na segunda fase da operação e três na terceira.
O relatório entregue em agosto não informa quantos desses equipamentos já passaram por perícia completa.
Nas considerações finais, a PF afirma que duas investigações relacionadas ao conteúdo encontrado estão em “estágio avançado”. Os trabalhos ainda dependem de análises bancárias e do exame de outros materiais apreendidos.
As oitivas já começaram. A previsão é de conclusão em até 60 dias.
Mensagens temporárias dificultam reconstrução
Outro fator apontado no relatório é o uso de recursos que apagam ou limitam o acesso às mensagens.
O contato salvo no celular de Vorcaro como “Alexandre de Moraes BRASILIA” passou a utilizar, em setembro de 2025, a configuração de mensagens temporárias, com exclusão automática após 24 horas.
Em novembro daquele ano, Vorcaro enviou cinco mensagens ao contato pelo recurso de visualização única. A perícia conseguiu recuperar os arquivos e associá-los aos registros do sistema, mas parte das conversas não pôde ser reconstruída integralmente.
A PF encontrou ainda 52 notas relacionadas ao método usado por Vorcaro. Ele escrevia textos no aplicativo Notas, fazia uma captura de tela e enviava a imagem pelo WhatsApp.
Cinco dessas notas estavam no chat atribuído a Moraes. Outras 47 apresentavam o mesmo padrão em diferentes conversas do aparelho.
O relatório, porém, também reúne mensagens digitadas diretamente no WhatsApp, registros de chamadas e conversas com outros interlocutores.
PF não aprofundou investigação sobre magistrados
A corporação também fez uma ressalva sobre a análise envolvendo integrantes do Judiciário e do Ministério Público.
Por causa das regras aplicáveis a magistrados e membros do MP, a PF afirma que não realizou “quaisquer atos de aprofundamento investigativo” direcionados a essas autoridades.
Segundo os investigadores, o relatório apresenta dados e elementos que já estavam no acervo da Operação Compliance Zero.
A ressalva alcança Alexandre de Moraes e Paulo Gonet. O documento não permite, por si só, concluir que as autoridades mencionadas por Vorcaro tenham atendido a pedidos feitos pelo banqueiro ou cometido irregularidades.
Entre os registros está uma nota em que Vorcaro afirma ser necessário “reforçar com Andrei e Paulo”. Na mesma mensagem, diz que enviaria nomes de pessoas que estariam indo ao Banco Central. Pela análise do contexto, a PF aponta que as referências podem ser ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Mendonça retirou sigilo do caso
O relatório foi entregue a Mendonça em 27 de agosto. Em 1º de setembro, o ministro retirou o sigilo da Petição 16.662, que reúne os novos elementos da investigação.
O jornalista Paulo Figueiredo chamou atenção para as limitações do documento e afirmou que novas informações podem aparecer com o avanço das perícias.
“Há uma boa razão para imaginarmos que Mendonça só colocou a cabecinha e vem muito mais por aí”
A própria PF registra no relatório que o trabalho realizado em 72 horas não representa uma análise definitiva de todo o material apreendido com Vorcaro.