O ministro Flávio Dino, do STF mandou uma série de recados ao colega da Corte, André Mendonça, na decisão que determina a recondução de Andrei Rodrigues ao comando da PF (Polícia Federal).
Dino determinou nesta quarta-feira (9) o retorno de Andrei Rodrigues ao cargo de diretor-geral da Polícia Federal. Também ordenou a recondução de Leandro Almada da Costa à Diretoria de Inteligência da corporação.
Segundo Dino, o afastamento determinado por Mendonça poderia comprometer investigações em andamento sob sua relatoria. O ministro afirmou ainda que decisões judiciais devem estar fundamentadas no Direito, sem influência de interesses externos.
“zelar para que suas decisões sejam reconhecíveis como derivações do Direito, e não como resultado de pressões partidárias, ideológicas, midiáticas ou de interesses pessoais”.
Na decisão, Dino também afirmou que magistrados devem manter maior cautela durante o período eleitoral. O ministro fez referência a manifestações públicas de integrantes do Judiciário e afirmou que determinadas condutas podem ser utilizadas em disputas político-partidárias.
“Esse zelo com a autonomia da esfera jurídica deve estar nos autos e fora deles, pois – em tempos de campanha eleitoral – o recato do magistrado deve ser ainda maior, por exemplo evitando vídeos, cartas ou atitudes similares que se prestem a alimentar propagandas, passeatas, comícios e demais instrumentalizações típicas da luta politico-partidária”.
Dino cita encontro entre Mendonça e Vorcaro
Outro ponto destacado na decisão foi o encontro entre André Mendonça e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master e investigado em processos que passaram pela relatoria do ministro.
Dino afirmou que não faria um “juízo antecipado” sobre a reunião, mas mencionou o encontro ao questionar a decisão de Mendonça de afastar a cúpula da PF.
Segundo o ministro, a reunião ocorreu em ambiente privado e foi intermediada por pessoas que também aparecem em investigações relacionadas ao Banco Master.
“Mais grave se torna essa interferência na esfera de competências de outros Ministros e do próprio Plenário do STF quando, recentemente, veio a lume a informação de que o Ministro André Mendonça teria recebido, para reunião nas dependências de uma empresa privada, o Sr. Daniel Vorcaro, investigado em autos de sua própria competência”.
O encontro ocorreu em março de 2025, antes de Mendonça assumir a relatoria do caso Master, em fevereiro de 2026. Segundo o gabinete do ministro, Vorcaro foi recebido uma única vez e Mendonça se limitou a ouvi-lo sobre uma ação relacionada a créditos de precatórios de interesse do banco.
A reunião ocorreu no Iter, instituto fundado por Mendonça. O ministro deixou a instituição depois que o encontro veio a público.
Mensagens citam articulação para encontro
Mensagens atribuídas ao advogado Ciro Rocha Soares indicam que ele teria intermediado o encontro entre Mendonça e Vorcaro. Em fevereiro de 2025, o advogado escreveu ao banqueiro:
“Opa, Dani!!! Preciso muito falar com você. O A.M. quer recebê-lo. E preciso agendar o quanto antes”
Na mesma conversa, acrescentou:
“Muito importante sua ida nele junto comigo”.
Outra mensagem, atribuída ao deputado Cezinha de Madureira, também registra a articulação de uma reunião com Mendonça em São Paulo.
“Amanhã sexta-feira 17:00 com ministro André em São Paulo”, escreveu Cezinha a Vorcaro.
Depois, informou:
“Ministro já está te esperando”.
Decisão de Mendonça afastou cúpula da PF
Mendonça havia determinado na terça-feira (8) o afastamento preventivo de Andrei Rodrigues e Leandro Almada. A medida foi tomada após o ministro apontar a existência de seis relatórios de inteligência produzidos pela PF entre 3 e 31 de agosto.
Os documentos analisavam a atuação de Mendonça e do advogado-geral da União, Jorge Messias. Segundo Mendonça, houve “monitoramento e coleta dirigida” sobre os dois.
O ministro classificou a prática como “monitoramento ilícito de Ministro da Suprema Corte do país” e determinou que a Corregedoria da PF investigasse a produção dos relatórios.
Os documentos também levantavam hipóteses sobre a decisão da AGU de não atender a uma solicitação da PF relacionada a decisões de Mendonça.
A decisão de Dino ocorre enquanto a Segunda Turma do STF analisava o afastamento determinado por Mendonça. O colegiado havia formado maioria para manter a medida, mas o julgamento foi interrompido após pedido de vista do ministro Gilmar Mendes.
Com a decisão de Dino, Andrei Rodrigues e Leandro Almada voltam aos respectivos cargos.