A TV Justiça não manteve a câmera em André Mendonça em pelo menos quatro momentos de embate durante a sessão extraordinária do STF de 15 de setembro, mostra um levantamento de minutagem feito por esta reportagem a partir da transmissão. O julgamento, que discutiu a abertura de investigação contra o ministro Alexandre de Moraes, começou às 10h30, foi interrompido às 13h, retomado às 15h27 e encerrado às 18h30 — 5h33 de sessão, descontado o intervalo de 2h27.
O levantamento identificou pelo menos 18 minutos e 20 segundos de falas de André Mendonça em trechos com início e fim precisamente demarcados. Em parte desses momentos, o ministro não aparece no enquadramento da TV Justiça.
A câmera não mostra Mendonça quando ele afirma que Alexandre de Moraes está mentindo. Em outro momento, quando ele questiona Gilmar Mendes sobre material relacionado a outros ministros, a imagem permanece em Gilmar e enquadra Mendonça por cerca de dois segundos antes de retornar ao decano. A situação se repete quando Mendonça diz que Gilmar Mendes foi “leviano”: a câmera não o enquadra. Mais tarde, durante um bate-boca com Moraes, o áudio da discussão permanece na transmissão enquanto a imagem é direcionada para o presidente do STF, Edson Fachin. No trecho final da sessão, Mendonça volta a falar após ser interrompido por Gilmar e pede respeito — a câmera muda para Fachin e não retorna ao enquadramento de Mendonça até Flávio Dino pedir vista.
A própria cobertura da sessão registrou que a TV Justiça costuma concentrar a imagem no ministro que está com a palavra e evitar planos abertos do plenário. O levantamento desta reportagem mostra, no entanto, que em momentos específicos de confronto o áudio das falas foi mantido enquanto a imagem era direcionada para outro integrante da Corte.
Veja o compilado da Tv Justiça
Quem comanda a TV Justiça
A emissora oficial do STF é comandada por Jaqueline Paiva, que ocupou o cargo de secretária-adjunta de Imprensa da Presidência da República entre maio de 2011 e fevereiro de 2014, no governo de Dilma Rousseff.
Antes de chegar à Presidência, Jaqueline Paiva já havia trabalhado na comunicação do governo Dilma. Segundo seu perfil profissional, foi gerente de conteúdo da EBC TV Brasil entre dezembro de 2007 e dezembro de 2010. Nesse período, em 2008, a coordenadora de telejornais da emissora — cargo então ocupado por ela — foi acusada pelo jornalista Luiz Lobo, editor demitido do telejornal Repórter Brasil, de editar conteúdo jornalístico para atender a interesses do Palácio do Planalto. Jaqueline negou as acusações e processou Lobo por injúria. O Conselho Curador da EBC abriu apuração sobre o caso. À época, reportagens identificaram o marido dela como Nelson Breve, então assessor do governo petista — que assumiu a presidência da EBC em novembro de 2011, também no governo Dilma.
Depois da Presidência, Jaqueline passou pela Autoridade Pública Olímpica e por cerca de dez anos na emissora CDN, de onde saiu em abril de 2026. Em seguida, foi nomeada por Edson Fachin para o cargo, recém-criado, de secretária de TV e Rádio Justiça do STF.
No programa Alive, exibido no YouTube na manhã desta quarta-feira (16), Dantas reforçou que a emissora cortou a imagem de André Mendonça sempre que ele reagia a colegas.
“Toda vez que tinha um embate, vocês focavam em quem estava agredindo o André Mendonça e, na hora dele responder, vocês omitiam a imagem dele”, afirmou Dantas.
Dantas classificou a conduta como manipulação e cobrou explicações da emissora. “Nós estamos atentos à manipulação que vocês fizeram ontem”, disse. “Qualquer profissional de imprensa viu ontem que vocês estão manipulando o debate.”
O editor questionou a quem a emissora estaria subordinada editorialmente. “Seus covardes, vocês estão a serviço de quem? Do Gilmar, do Flávio Dino, de quem?”, disse. Para Dantas, a cobertura favoreceu abertamente o ministro Alexandre de Moraes. “O Alexandre teve todo espaço, toda cobertura, falou o que quis”, disse. “E ninguém podia ouvir, ninguém podia ver o André Mendonça falando, quase não conseguia ouvir o Fux falando.”
Outras reportagens já haviam registrado o mesmo padrão
A denúncia de Dantas não é isolada. Duas publicações relataram o comportamento da TV Justiça antes de sua fala. Segundo o Estadão, a emissora “costuma filmar o ministro que está com a palavra, o que não ocorreu desta vez” durante os embates da sessão de 15 de setembro. O jornal identificou três episódios de corte de imagem: entre Alexandre de Moraes e André Mendonça, entre Gilmar Mendes e Luiz Fux, e entre Mendonça e Gilmar Mendes. Procurado pelo Estadão, o STF não respondeu até a publicação da reportagem.
O Blog do Magno também documentou o padrão. Segundo a publicação, a TV Justiça “é orientada a não filmar os embates diretos e mais acalorados entre ministros” e a prática “vale para todos os julgamentos” — não seria, portanto, um episódio isolado da sessão de 15 de setembro. Durante a sessão, “a câmera se voltou para o presidente Edson Fachin, que os ouvia e tentava colocar as coisas em ordem”, segundo o texto.
Este portal entrou em contato com a Secretaria de Comunicação Social do STF e com a Secretaria de TV e Rádio Justiça, e encaminhou parte dos questionamentos levantados por Dantas: se houve orientação editorial para o corte de imagem de André Mendonça, se a prática se repete em outras sessões e por que a transmissão deixou de usar a imagem aberta do plenário. Até a publicação desta reportagem, não houve retorno. O canal segue aberto para manifestação do STF e da Secretaria de TV e Rádio Justiça.
Dantas afirmou que o caso será acompanhado na próxima sessão do STF sobre o tema, marcada para o dia 23 de setembro. “A gente está atento à próxima sessão do dia 23. Que fique o recado aqui”, disse.
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