Um levantamento da Stride, agência contratada pela campanha do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), analisou milhares de publicações sobre a controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida e encontrou textos idênticos ou muito parecidos, chamadas para “subir” expressões e outros indícios de coordenação na disseminação da fake news de que o candidato pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
Os indícios são reforçados pela repetição dos mesmos perfis em diferentes mobilizações contra Flávio, e não apenas no episódio de Nossa Senhora Aparecida. Os padrões, isoladamente, não comprovam a existência de uma estrutura por trás das contas, mas podem servir para investigar uma ação coordenada para espalhar a mentira.
A mobilização ganhou relevância depois da disseminação da informação falsa de que Flávio Bolsonaro (PL) estaria envolvido em uma iniciativa para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. O projeto citado na controvérsia, o PL 2.623/2007, foi apresentado pelo então deputado Professor Victório Galli, do PMDB de Mato Grosso, em dezembro de 2007, e acabou arquivado em 2008.
A associação com o candidato ganhou força depois de um comentário exibido pela GloboNews em 24 de setembro. Na madrugada seguinte, a emissora corrigiu a informação e pediu desculpas, esclarecendo que a proposta mencionada era antiga e estava arquivada havia 18 anos.
O relatório reúne 4.952 registros e referências distribuídos entre Instagram, Facebook, TikTok, X e YouTube. Uma análise computacional encontrou 110 grupos de textos normalizados idênticos. O documento adverte que esses conjuntos não devem ser automaticamente tratados como “grupos de coordenação”, mas servem como pontos de partida para investigar a circulação repetitiva de mensagens.
Há casos em que a mobilização foi pública e explícita. Em 11 de setembro, no episódio da expressão “FLÁVIO É VORCARO”, uma publicação feita às 12h43 dirigia-se à militância e fazia uma convocação para subir tags. O slogan reapareceu às 13h20 em uma publicação de @jptsaopaulo e novamente às 13h37 em @lazarorosa. Os três posts independentes foram publicados em um intervalo de apenas 53 minutos e 52 segundos e, contando autores e colaboradores, envolveram 14 perfis, de acordo com o relatório.
O mesmo tipo de mobilização reapareceu no caso de Nossa Senhora Aparecida. Às 7h02 de 25 de setembro, @lazarorosa25 publicou no X uma mensagem anunciando “Tags do dia” e apresentou três expressões: “NINGUÉM TOCA NA PADROEIRA”, “PROTEJAM A MÃE DO BRASIL” e “DEFENDAM APARECIDA”. Nas horas seguintes, as mesmas expressões apareceram em diversas outras páginas.
Às 8h49, @dualitylutas publicou duas delas no Instagram, em colaboração com @barbiepetistadobrasil, @lulatetrapresidente e @marinadomst. Às 10h02, @lazarorosa usou os três slogans, acompanhado por @dualitylutas, @esquerdaunificada, @eutocomlula e @lazarorosa25. Às 13h33, @petistasdecoracao voltou a publicar as três expressões, com @eutocomlula e @roddolfopt como colaboradores.
A repetição não ficou restrita a um único episódio. Ao comparar posts relacionados a “FLÁVIO É VORCARO”, de 11 de setembro, com sete publicações selecionadas sobre a Padroeira, o relatório encontrou nove perfis presentes em ambos os conjuntos, como autores ou colaboradores: @barbiepetistadobrasil, @brasilforadacaverna, @brasilprafrenteoficial, @dualitylutas, @esquerdaunificada, @eutocomlula, @lazarorosa, @lazarorosa25 e @petistasdecoracao. Isso mostra a reincidência de um mesmo núcleo de usuários em duas mobilizações distintas contra Flávio.
Há exemplos de reprodução textual praticamente literal. Às 0h02 de 25 de setembro, o perfil @esquerdaverde publicou uma legenda sobre um suposto desarquivamento do projeto; 13 minutos depois, @342artes publicou um texto semelhante, apenas com pequenas alterações. Em outro caso, às 8h29, @342artes publicou uma mensagem que reapareceu às 9h35 em @ingriddonald_reserva com o corpo de texto praticamente idêntico.
Chamadas para subir tags, repetição das mesmas frases em intervalos curtos, recorrência dos mesmos usuários e reprodução literal de textos entre perfis são indícios de ação coordenada para impulsionar um conteúdo. Para saber se houve realmente coordenação, uma investigação teria de apurar se houve orientação reservada de algum grupo, pagamento aos usuários, automação dos posts ou alguma cadeia hierárquica entre as contas. O próprio relatório faz essa ressalva.
No X, chamada costuma partir dos mesmos usuários; horários próximos e frases idênticas sugerem ação coordenada por fake news
A reportagem da Gazeta do Povo fez um levantamento com buscas no X a partir das palavras de ordem que se repetiam em publicações e reuniu 53 posts de 42 contas, distribuídos em quatro episódios entre abril e setembro de 2026: a fake news de que Flávio Bolsonaro acabaria com o Pix, em 2 de abril; a cobrança pela quebra do sigilo bancário de Flávio Bolsonaro, em 9 de setembro; a campanha em torno da regulação das bets, em 20 de setembro; e o caso sobre Nossa Senhora Aparecida, em 24 de setembro. As postagens podem ser conferidas abaixo:
No caso do Pix, por exemplo, vinte publicações diferentes saíram em menos de quarenta minutos. Nos quatro casos, há vários pares de publicações quase idênticas feitas por contas diferentes separados por menos de um minuto.
Há perfis que estão presentes em mais de um dos casos. O mais recorrente é o @lazarorosa25, que publicou nos quatro episódios e abriu dois deles: foi o primeiro a postar na mobilização do Pix, às 7h28 de 2 de abril, e também na das bets, às 8h06 de 20 de setembro. O perfil @CostaJr2023 aparece em três dos quatro e também abre dois – o caso de Nossa Senhora Aparecida e o da quebra de sigilo, em ambos com a primeira publicação do conjunto.
O perfil @a_arbaka também está em três casos, e @joaodomenech, @Luis16363936550 e @KAS_1406, em dois cada. São contas que postam textos praticamente idênticos em diferentes pautas favoráveis a Lula, em episódios separados por meses.