Mensagens extraídas pela Polícia Federal (PF) do celular do ex-governador Cláudio Castro (PL) revelam proximidade entre ele e o empresário Ricardo Magro, empresário responsável pela Refit e foragido desde o início do ano.
Em diálogos pelo WhatsApp, Castro chamou Magro de “amigo” e afirmou que poderia atuar na regularização fiscal da Refit, empresa que acumula uma das maiores dívidas fiscais do país.
As informações constam na decisão da Operação Sem Refino 2, cujo sigilo foi retirado nesta quinta-feira (3) pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo a PF, os diálogos indicam que o ex-governador atuou pessoalmente para atender interesses do Grupo Refit.
A investigação também aponta que Castro teria obtido vantagens relacionadas ao grupo empresarial. Entre os casos citados estão o pagamento de R$ 10,5 mil em caviar por uma empresa de terceiro, o uso de uma mansão em Petrópolis e o aluguel de uma cobertura na Barra da Tijuca por valor abaixo do mercado.
Viagem aos EUA e relação com Magro
Uma das conversas analisadas pela PF ocorreu após a participação de Castro em um evento organizado por Ricardo Magro em Nova York. Ao agradecer a presença do então governador, o empresário recebeu a resposta: “aqui você tem um amigo”.
Segundo a investigação, a viagem foi custeada pela Refit. Secretários do governo estadual também podem ter participado do encontro com Magro nos Estados Unidos.
A PF aponta ainda que Castro e outros integrantes do governo mantinham canais diretos com representantes da empresa para tratar de licenças ambientais e de questões relacionadas a empresas concorrentes.
Em outro diálogo, desta vez com um advogado ligado à Refit, Castro tratou da situação fiscal da empresa e afirmou: “Eu toco por aqui”. Para os investigadores, a declaração indica uma atuação direta do então governador em favor do grupo.
A investigação também cita a renovação da Licença de Operação da refinaria pela Comissão Estadual de Controle Ambiental. A autorização foi aprovada apesar de votos contrários de órgãos técnicos que haviam apontado problemas de contaminação ambiental.
Caviar foi pago por empresa de terceiro
A PF encontrou mensagens que mostram Castro negociando pessoalmente a compra de caviar em abril de 2026. A entrega de parte dos produtos ocorreu no Hotel Emiliano, em São Paulo, onde o ex-governador estava hospedado.
O valor final da compra foi de R$ 10,5 mil. Castro informou ao fornecedor que enviaria o comprovante do Pix. A análise bancária, porém, apontou que o pagamento saiu da conta da AC Santos Participações e Empreendimentos, empresa pertencente ao advogado Antonio Carlos da Conceição Santos, conhecido como “Pipo”.
Segundo a PF, o uso de terceiros para o pagamento de despesas pessoais integra a estrutura investigada de ocultação de patrimônio e lavagem de capitais.
A defesa afirma que a compra ocorreu mais de 30 dias após Castro deixar o governo. Segundo os advogados, a encomenda havia sido feita por um amigo, e o ex-governador apenas retirou os produtos em São Paulo para entregá-los.
Mansão em Petrópolis e cobertura na Barra
Outro ponto da investigação envolve uma mansão no condomínio Locanda Residenze, em Petrópolis. O imóvel está registrado em nome da Concrecasa Construções Inteligentes Ltda., mas a PF afirma que Castro exercia a posse de fato sobre a propriedade.
Os investigadores apontam vínculos entre a administradora da empresa, Carolina Gonçalves Xavier Pereira, e o empresário Luiz Fernando Gomes. Uma empresa ligada a Gomes firmou 11 contratos com o governo estadual durante a gestão de Castro, no valor total de R$ 355,2 milhões. Desse montante, R$ 49,6 milhões foram contratados sem licitação, segundo a investigação.
Mensagens indicam que Castro tratava o imóvel como se fosse seu. Ele recebia contas de energia no celular, acompanhava reformas e se referia às intervenções como “minha obra”.
Entre os projetos citados está uma adega climatizada de R$ 245 mil. O arquivo do projeto tinha, nos metadados, o título “AP Adega Claudio Castro”.
Na Barra da Tijuca, a PF aponta outro possível benefício. Castro mora em uma cobertura no Condomínio Atmosfera por meio de contrato de aluguel de R$ 10 mil mensais. Segundo a investigação, imóveis semelhantes na região têm aluguel estimado entre R$ 25 mil e R$ 29 mil.
A cobertura pertence à J3 Real Estate Participações Ltda., empresa criada 50 dias antes da compra do imóvel por R$ 3,48 milhões. A companhia possui a cobertura como único ativo registrado e só abriu sua primeira conta bancária três anos depois da aquisição.
Mensagens também indicam a participação de Castro e da esposa em decisões sobre obras no imóvel, como a instalação de um guarda-corpo de vidro na piscina.
PF investiga esquema ligado à Refit
A Operação Sem Refino apura suspeitas de gestão fraudulenta, lavagem de capitais, sonegação fiscal e evasão de divisas relacionadas à Refit e ao empresário Ricardo Andrade Magro.
Segundo a PF, há “fundados indícios de continuidade do esquema criminoso (…) envolvendo a operação da refinaria de Petróleo de Manguinhos S/A – REFIT (…) especialmente relacionado à prática de lavagem de capitais e conexões com agentes públicos do Estado do Rio de Janeiro”.
Os investigadores sustentam que despesas pessoais e vantagens atribuídas a agentes públicos eram pagas de forma indireta por empresas e terceiros ligados ao grupo econômico associado à Refit.
A primeira fase da operação ocorreu em maio. Na ocasião, Moraes determinou a prisão preventiva de Ricardo Magro e autorizou buscas contra Castro e outros investigados. Magro está foragido e foi incluído na lista de difusão vermelha da Interpol.
A análise dos celulares apreendidos levou a PF a solicitar novas medidas ao STF. A segunda fase teve o sigilo retirado nesta quinta-feira.
A investigação não representa condenação. Castro e os demais citados ainda podem apresentar suas versões à Justiça.
O que diz a defesa
A defesa de Cláudio Castro negou participação em esquema de lavagem de dinheiro, recebimento de vantagem indevida ou favorecimento de terceiros.
A defesa do ex-governador Cláudio Castro nega qualquer participação em esquema de lavagem de dinheiro, recebimento de vantagem indevida ou favorecimento a terceiros.
O imóvel onde reside tem contrato regular de locação, com pagamentos comprováveis. O imóvel utilizado em Petrópolis também era alugado e o contrato já foi encerrado.
Sobre a compra mencionada, o episódio ocorreu mais de 30 dias após Cláudio Castro deixar o Governo do Estado. A encomenda havia sido feita por um amigo e ele apenas retirou os produtos em São Paulo para entregá-los, tendo consumido um deles com autorização do comprador.
Não há qualquer ligação entre os episódios envolvendo a compra e os imóveis com a Refit. São situações distintas, sem relação com a empresa ou com eventual favorecimento.
Os contatos com representantes da Refit foram institucionais e não resultaram em qualquer benefício. Durante sua gestão, o Estado adotou medidas para cobrar valores devidos pela empresa.
Também não é verdade que uma viagem do então governador a Nova York tenha sido custeada pela Refit. A viagem foi oficial, paga pelo Governo do Estado, com registros disponíveis no Portal da Transparência.
A defesa já requereu ao ministro Alexandre de Moraes que Cláudio Castro seja ouvido pela Polícia Federal para esclarecer todos os pontos da investigação e apresentar a documentação comprobatória. O pedido aguarda decisão.
Cláudio Castro reafirma que não praticou qualquer ato ilícito”.