Um grupo de 47 bispos católicos divulgou nesta quinta-feira (22) uma carta com críticas indiretas à candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República. O documento relaciona propostas atribuídas ao candidato a possíveis conflitos com os princípios da Doutrina Social da Igreja e convoca os fiéis a votar no segundo turno, marcado para domingo (25).
Embora não cite Flávio nem o presidente Lula (PT) nominalmente, o texto faz referências ao governo do pai do senador, Jair Bolsonaro, e critica posições sobre acesso a armas, política ambiental, direitos trabalhistas e relações com os Estados Unidos.
“O cenário é muito grave, pois uma das candidaturas ameaça frontalmente diversos pontos centrais da DSI [Doutrina Social da Igreja], a existência da democracia, a soberania nacional e a prática do bem comum”, afirmam os religiosos.
Sete áreas de divergência
A carta aponta sete áreas nas quais, segundo os signatários, uma das candidaturas se afasta dos ensinamentos católicos. No campo trabalhista, critica a posição atribuída ao candidato sobre o fim da escala 6×1 e a proposta de pagamento por hora trabalhada. Para os bispos, essas medidas contrariam a defesa da dignidade do trabalhador e de uma remuneração suficiente.
Na política externa, o documento acusa o candidato de defender maior submissão do Brasil aos Estados Unidos, apoiar interferência estrangeira nas eleições brasileiras e favorecer a exploração de terras raras por empresas norte-americanas. Os religiosos também mencionam uma suposta articulação para impor tarifas a produtos brasileiros.
Em relação às políticas sociais, a carta afirma que o partido do candidato historicamente se opôs a programas de combate à pobreza, apesar de ele ter declarado que pretende manter determinadas iniciativas. O texto também critica a proposta de ampliar o acesso a armas, que compara às medidas adotadas durante o governo de Jair Bolsonaro.
A questão ambiental aparece entre os principais pontos de contestação. Os bispos acusam o candidato de negar a crise climática e de pretender dar continuidade às “políticas de devastação que caracterizaram o Governo de seu pai”. O documento também menciona a legislação de licenciamento ambiental aprovada em 2025, chamada pelos críticos de “Lei da Devastação”.
Tortura e democracia
Na área dos direitos humanos, os religiosos afirmam que o candidato é favorável à tortura e citam homenagens feitas por integrantes de sua família ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido como torturador da ditadura militar.
Sobre a democracia, a carta descreve Flávio indiretamente como filho de um ex-presidente condenado e preso por atentar contra a ordem democrática. Os signatários também mencionam declarações que, na avaliação deles, ameaçariam a ordem constitucional.
O texto compara as duas candidaturas sem citar seus nomes. Sobre a alternativa ao candidato criticado, os bispos afirmam que, apesar de também estar sujeita a questionamentos, ela demonstrou responsabilidade com os mais pobres e respeito à Constituição.
“Gostar ou não do atual Governo não pode ser razão para entregar o país nas mãos de quem manifesta tamanha contradição com os ensinamentos de nossa Igreja”, diz outro trecho.
A manifestação recorre a documentos da Igreja e a referências ao papa Leão XIV para defender que os católicos considerem os princípios religiosos na escolha eleitoral. “Não podemos nos manter neutros, a fim de que nossa consciência ou a história não nos condenem no futuro”, afirmam os signatários.
Carta não representa posição oficial da CNBB
Os religiosos dizem estar em comunhão com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e alinhados à mensagem divulgada pelo Conselho Permanente da entidade em 21 de outubro. A carta, porém, é uma iniciativa dos signatários e não constitui, por si só, um pronunciamento oficial da Conferência.
Em manifestação própria, a CNBB defendeu a Constituição, o Estado Democrático de Direito, o respeito aos resultados das urnas e a participação consciente dos eleitores no segundo turno, sem declarar apoio a um dos candidatos.