No primeiro dia de aula no curso de graduação de Ciência Política, o estudante vai aprender que nenhum evento político é consequência de apenas um fator. Sempre há múltiplas variáveis formando a equação daquilo que acontece.
No caso de ontem temos: C + M + D + 2F x 3S + 4P = Rejeição de Messias
C – Condição institucional adequada para o Senado agir de forma independente oriunda da execução obrigatória de emendas a partir de um cronograma aprovado;
M – Miopia, presunção e incapacidade de avaliação da base governista e isolamento político crescente de Lula;
D – Desconfiança de atores do Congresso em razão de muitos acordos descumpridos por parte do Planalto ao longo do Lula 3;
F – Falta de desempenho de Jorge Messias – seu comportamento excessivamente invertebrado na sabatina, muitas menções a Deus e demonstrações emotivas criaram a sensação, mesmo na base governista, de que o AGU não tinha o tamanho da cadeira de ministro do STF;
S – Disputa contra o STF – a sabatina foi usada pelos senadores para criticar integralmente a atuação recente da Côrte e o resultado pode ser interpretado como um sinal de potência, isto é, um mostra por parte dos senadores de que possuem musculatura para aprovar um impeachment de ministro;
P – Pressão popular – senadores relataram que o volume de cobrança popular nos seus gabinetes ontem (29) lembrava a mobilização identificada no processo de impeachment em 2016.
Por que não falamos de Alcolumbre? Por que sua atuação contra o governo é sintoma, não causa.
Consequências imediatas: comprometimento da governabilidade, aumento de desconfiança sobre a articulação e a (in)capacidade de o governo aprovar o fim jornada 6×1, questionamentos sobre a (in)capacidade de Lula de conquistar a reeleição e empreender um novo mandato, oportunidade para atuação da oposição.
Consequências institucionais: colapso da tradição de que ministro do STF é prerrogativa presidencial exclusiva. A partir de ontem, vai ser necessário mais articulação política e jogo combinado. Se o Judiciário se transformou e foi transformado em espaço partidário, é natural que as facções políticas queiram ocupar esse lugar.
Risco institucional: o cientista político Paulo Kramer alerta para o risco de um aumento das animosidades entre STF e Senado e uma situação de desobediência civil lá na frente com um presidente de Congresso (Câmara ou Senado) se recusando a obedecer a alguma decisão do Judiciário. A crise de reputação dos ministros colabora para esse cenário.
Personagens que decaíram: Lula, Jaques Wagner, Randolfe Rodrigues, José Guimarães, Jorge Messias e André Mendonça.
Personagens que lucraram: Rogério Marinho (disparado), Nikolas Ferreira (mobilizou as redes sociais) e Davi Alcolumbre (embora sua batata esteja assando).
P.s. Mais uma nota sobre Davi Alcolumbre: depois de ontem, ele precisa se tornar o cabo eleitoral número de Flávio Bolsonaro… porque não terá vida política se Lula for reeleito.