O Brasil recebeu, entre fevereiro de 2022 e junho de 2026, ao menos US$ 1,2 bilhão (R$ 6,2 bilhões) em produtos petrolíferos transportados por embarcações integrantes da chamada “frota fantasma” da Rússia, segundo investigação do Poder360. A conclusão é de uma investigação que identificou a atuação de 32 navios sancionados, responsáveis por 68 viagens ao país durante o período.
Segundo o levantamento, essas embarcações descarregaram cargas em 11 portos brasileiros. O diesel respondeu por 95% do volume transportado, equivalente a US$ 1,13 bilhão. Ao todo, os navios da frota sancionada representaram 5% das 1.348 entregas de petróleo e derivados registradas no período.
A investigação aponta que o principal porto de origem das cargas foi Primorsk, na Rússia, seguido por Vysotsk, Ust-Luga, São Petersburgo e Novorossiysk. No Brasil, Santos (SP) recebeu 26 embarques, Paranaguá (PR), 14, e Manaus (AM), 12.
Embora a importação de diesel russo seja permitida pela legislação brasileira, a chamada “frota fantasma” reúne embarcações frequentemente alvo de sanções internacionais, com estruturas de propriedade e operação pouco transparentes. Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, esse modelo reduz a rastreabilidade das cargas e permite descontos ainda maiores sobre o combustível comercializado pela Rússia.
Antes da guerra na Ucrânia, a Rússia respondia por menos de 1% das importações brasileiras de diesel. Em 2026, essa participação alcançou 63%, passando a representar cerca de um quinto do abastecimento nacional. Entre fevereiro de 2022 e junho de 2026, o Brasil importou US$ 26,4 bilhões em petróleo e derivados russos.
Navio declarou origem nos EUA, mas saiu da Rússia
Um dos casos apontados pela investigação envolve o petroleiro Prosperity, que atracou no terminal da Refit, no Rio de Janeiro, em junho de 2023, transportando uma carga de nafta avaliada em US$ 5,6 milhões.
Os documentos apresentados na chegada ao Brasil informavam que o produto havia sido embarcado em Houston, nos Estados Unidos. No entanto, o rastreamento por satélite mostrou que a embarcação nunca passou pelo território norte-americano.
Segundo os registros analisados, o navio deixou um porto russo em maio de 2023, cruzou o Mar Báltico, contornou a Europa Ocidental, atravessou o Oceano Atlântico e entrou no Brasil pelo porto de Maceió (AL), seguindo depois para o Rio de Janeiro.
À época da viagem, o Prosperity ainda não integrava oficialmente a lista de embarcações sancionadas. A classificação como integrante da chamada frota fantasma ocorreu em janeiro de 2025. Depois dessa operação, o navio realizou outras dez viagens ao Brasil.
De acordo com o analista de inteligência marítima John Walker, da EOS Risk, informar um porto amplamente reconhecido pelo mercado internacional pode reduzir suspeitas sobre a procedência da carga e dificultar o rastreamento de sua origem.
Manaus concentrou parte das cargas
O levantamento mostra que o porto de Manaus foi, proporcionalmente, o terminal brasileiro que mais recebeu combustível transportado por embarcações sancionadas. Segundo os dados, uma em cada dez embarcações que atracaram no porto fazia parte da frota fantasma.
Praticamente todo o diesel descarregado em Manaus foi adquirido por empresas do grupo Atem. Segundo a investigação, o conglomerado recebeu aproximadamente US$ 206 milhões em combustível transportado por embarcações sancionadas, o equivalente a 17% do total identificado.
Também aparecem entre os importadores identificados a Copape, que teria importado cerca de US$ 68,6 milhões em diesel e nafta russos entre 2023 e 2024. Posteriormente, a empresa passou a ser investigada na Operação Carbono Oculto, que apura a infiltração do PCC no mercado de combustíveis. A ANP revogou sua autorização de funcionamento em julho de 2024 por infrações administrativas.
Crescimento acelerado da frota fantasma
A presença dessas embarcações no Brasil aumentou ao longo da guerra na Ucrânia. Em 2024 foram registradas cinco viagens. No ano seguinte, esse número subiu para 24. Apenas no primeiro semestre de 2026 já haviam sido contabilizadas 39 operações.
Segundo o presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), Sergio Araújo, o diesel russo torna-se economicamente atrativo para importadores brasileiros quando é comercializado entre US$ 3 e US$ 5 por barril abaixo do diesel produzido na costa do Golfo dos Estados Unidos. Em cenários de maior risco envolvendo sanções, o desconto precisa variar entre US$ 6 e US$ 8 por barril.
Empresas afirmam cumprir a legislação
As empresas e órgãos públicos citados informaram que atuam conforme a legislação brasileira e observaram que o país não adota automaticamente as sanções impostas por Estados Unidos, União Europeia e Reino Unido.
A Agência Nacional do Petróleo (ANP) afirmou que não existem restrições quanto à origem dos combustíveis importados. O Ministério de Minas e Energia declarou que a legislação garante liberdade para a importação de derivados e que a diversificação de fornecedores contribui para a segurança do abastecimento.
A Atem informou que suas importações seguem a legislação brasileira e são necessárias para garantir o abastecimento da Região Norte. A Nimofast declarou realizar procedimentos de diligência sobre fornecedores e embarcações. A Cattalini afirmou atuar apenas como operadora portuária e negou participação na importação ou comercialização de combustíveis. Blueway, Oil Trading, Raízen, Refit, Royal FIC e Vibra não haviam se manifestado até a publicação da reportagem.