No dia 4 de agosto de 2026, enquanto o Departamento de Estado cancelava o visto da embaixadora do Brasil em Washington e o Itamaraty rebaixava a relação com a Argentina ao nível de encarregados de negócios, o ministro da Defesa do Brasil, José Múcio, subiu a um palco da Confederação Nacional da Indústria e disse, com todas as letras, o que faria se os Estados Unidos resolvessem invadir o país: abriria o portão. E completou, para que não restasse dúvida sobre o tamanho da confissão: o Brasil não tem equipamento para enfrentá-los, nem tem dinheiro para consertar o portão. Eis o retrato do momento nacional em uma única cena. O governo que provoca deliberadamente a maior potência militar da história tem, como ministro da Defesa, um homem que reconhece publicamente que a casa está indefesa e o portão, quebrado. Tucídides resumiu a lição há 25 séculos, no diálogo dos mélios: os fortes fazem o que podem, os fracos sofrem o que devem. Lula encontrou uma terceira via, inédita na história da estratégia: o fraco que provoca o forte e ainda manda o mordomo avisar que a porta está destrancada.
A declaração de Múcio foi imprudente e, em circunstâncias normais, seria inaceitável na boca de um ministro da Defesa. Mas as circunstâncias não são normais, e é exatamente por isso que ela vale ouro como documento. O que ali transpareceu não foi covardia; foi o desespero das figuras menos ensandecidas de um governo que assiste, de dentro, à destruição eleitoreira que o Presidente da República promove na política externa e sabe, melhor do que ninguém, que não há blindagem para a conta que vem. Múcio não estava formulando doutrina; estava gritando por socorro na única língua que lhe restou, a da franqueza involuntária. Quando o bombeiro confessa que não há água no hidrante, o problema não é o bombeiro. É o incendiário que mora no andar de cima.
O incêndio, convém recapitular, já consumiu os dois pilares da posição internacional do Brasil. Com os Estados Unidos, primeiro país do mundo a reconhecer nossa independência, em 1824, a relação atingiu o ponto mais baixo de dois séculos: tarifas punitivas de 50%, ministros do Supremo Tribunal Federal sancionados pela Lei Magnitsky e agora a chefe da nossa embaixada em Washington privada de visto porque o Planalto, em cálculo eleitoral confesso, sentou-se sobre o agrément do embaixador indicado por Donald Trump.
Com a Argentina, sócio fundador do MERCOSUL e primeiro destino das nossas manufaturas de alto valor agregado, Lula respondeu às verdade ditas por Milei não com o gelo altivo dos estadistas, mas com a demolição da própria arquitetura de interesses: dispensou o embaixador argentino, manteve o brasileiro em Brasília e rebaixou meio século de integração a um nível que o Brasil não atribui sequer às relações bilaterais a estados-párias como Myanmar e Cuba. Em um só dia, o Brasil ficou sem embaixador operante nas duas capitais que mais importam ao seu destino. Credibilidade internacional não é atributo moral; é ativo de poder, que determina onde o capital é investido, que tecnologia se compartilha, que aliança sobrevive à crise. Leva gerações para ser construída. Foi dilapidada em uma tarde.
E o isolamento não termina no hemisfério; apenas começa nele. O governo que brigou com Washington e Buenos Aires coleciona atritos com o Paraguai, que flagrou a inteligência brasileira grampeando suas autoridades, com o Peru, com o Equador, com o Uruguai, e tornou o presidente brasileiro persona non grata em Israel. Feito o inventário, sobra ao Brasil de Lula a companhia que ele mesmo escolheu: a Venezuela de Maduro, criatura política que o lulopetismo ajudou a criar e sustentar desde os tempos do Foro de São Paulo, a Cuba dos irmãos Castro, credora do nosso perdão de dívidas, o Irã dos aiatolás, cujos navios de guerra atracaram no Rio de Janeiro sob aplausos oficiais, a Rússia de Putin, destinatária dos nossos silêncios mais constrangedores, e, pairando sobre todas, a China de Xi Jinping.
Sobre a China, aliás, é preciso falar sem o eufemismo que virou política de Estado. O que o governo brasileiro chama de parceria estratégica é, no desenho concreto, uma dependência programada, construída camada por camada e muito além do comércio. A rede de transmissão de energia que ilumina São Paulo pertence, em parcela decisiva, à estatal chinesa State Grid; hidrelétricas no coração do sistema elétrico nacional operam sob bandeira da China Three Gorges; a espinha dorsal das telecomunicações brasileiras, do 4G ao 5G, roda sobre equipamento da Huawei; terminais portuários estratégicos têm capital chinês; a indústria automotiva que se instala é chinesa; os insumos farmacêuticos de que dependem nossos remédios vêm, em maioria esmagadora, da Ásia; e o comércio bilateral já se liquida, por acordo celebrado com júbilo oficial, em renminbi, a moeda chinesa.
Cada um desses vínculos, isolado, seria negócio; o conjunto, costurado sem contrapartida e sem estratégia, é vassalagem. Um país que vende soja e minério e compra de volta a própria infraestrutura crítica não está comerciando; está hipotecando a casa para pagar o aluguel dela. E a assimetria moral completa o quadro: o governo que ruge soberania contra Washington sussurra subserviência a a Pequim, prova de que a palavra, no vocabulário lulopetista, nunca designou independência, apenas o endereço escolhido para a genuflexão.
Não se trata de tropeço, e sim de itinerário. O lulopetismo escolheu, com a deliberação fria de quem já fez a mesma escolha em economia, em segurança pública e em tudo o mais que tocou, matricular o Brasil no clube dos estados-párias: o clube dos países imprevisíveis, com quem não se assina contrato longo, em quem não se investe capital paciente, a quem não se confia cadeia de suprimento nem segredo tecnológico. A Argentina peronista levou meio século para conquistar essa reputação; a Venezuela a converteu em ruína terminal em vinte anos. O Brasil, cujo maior patrimônio diplomático sempre foi a previsibilidade e a ausência de inimigos, corre para alcançá-los com o entusiasmo de quem disputa medalha. Chamemos as coisas pelo nome: isso não é política externa equivocada. É delinquência estratégica, praticada por motivação eleitoral, com o patrimônio de dois séculos servindo de combustível ao palanque.
E aqui reside a advertência que este artigo existe para fazer: o estrago pode já ter ultrapassado o ponto em que uma eleição o conserta. O futuro governo conservador de Flávio Bolsonaro, se os brasileiros assim o decidirem em outubro, herdará um terreno arrasado cuja recuperação não se mede em meses, mas em anos, quiçá décadas, e provavelmente exigirá mais de um mandato e mais de um presidente. Sanções não se revogam por simpatia; revogam-se por reconstrução paciente de confiança. Tarifas consolidam lobbies que resistirão à sua remoção. A infraestrutura crítica entregue a Pequim não se renacionaliza por decreto. O Itamaraty, convertido em despachante ideológico, precisará reaprender ofícios que levou gerações para dominar. E a reputação, esse ativo invisível que Rio Branco acumulou fronteira por fronteira e que o lulopetismo queimou tuíte por tuíte, obedece à lei que todo administrador de patrimônio conhece: destrói-se na velocidade do fogo, reconstrói-se na velocidade da árvore. Duas décadas de lulopetismo no poder produziram uma obra de demolição que cobrará, dos que vierem depois, uma obra de reconstrução de escala comparável à de um pós-guerra. Sem a guerra, é verdade. Mas também sem as reparações.
Nada disso, contudo, autoriza o desalento, e é preciso dizer o porquê com a mesma clareza com que se fez o diagnóstico. O Brasil já esteve quebrado, isolado e desmoralizado outras vezes, e renasceu de todas. O País que saiu da hiperinflação, que redemocratizou-se sem guerra civil, que construiu do nada uma agricultura que alimenta um bilhão de pessoas, não é refém do consórcio que hoje o desgoverna; é apenas seu prisioneiro temporário, e prisões políticas, numa democracia, têm data de revisão marcada. Outubro de 2026 não será uma eleição; será um alvará de soltura. Caberá ao eleitor decidir se o Brasil continua ajoelhado diante de Pequim e de costas para o hemisfério que é o seu, ou se retoma o lugar que a geografia, a história e a fé lhe reservaram entre as nações livres do Ocidente. A tarefa dos que vencerem será imensa, ingrata e mais longa que a paciência de uma legislatura: reatar sem servilismo, reconstruir sem revanche, reequipar a Defesa para que nenhum ministro volte a falar em abrir portões, e devolver ao Itamaraty a espinha que lhe arrancaram. Mas nações, como catedrais, sempre foram erguidas por quem veio depois do incêndio. O Brasil não nasceu para ser pária, satélite ou palanque. Nasceu para ser potência, e potência com alma. O portão que um governo exausto confessa não poder defender, um povo inteiro pode voltar a guardar.
Marcos Degaut, ex-Secretário Especial Adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, ex-Secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa e ex-Secretário-Executivo da Câmara de Comércio Exterior do Brasil (CAMEX), é Doutor em Segurança Internacional.