As dívidas da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal) já custaram cerca de R$ 93 milhões aos cofres da Bahia entre 2019 e 2026, segundo dados do Portal Transparência Bahia, segundo levantamento feito pelo Poder360. O valor equivale a mais de seis vezes os R$ 15 milhões arrecadados pelo governo estadual com a privatização da estatal em 2018, durante a gestão de Rui Costa (PT).
A Ebal era responsável pela rede de supermercados Cesta do Povo. A privatização ocorreu em abril de 2018, após duas tentativas de leilão sem interessados. O preço mínimo dos certames anteriores era de R$ 81 milhões. A estatal acabou vendida por R$ 15 milhões à NGV Empreendimentos e Participações Ltda.
Na época, Jaques Wagner (PT) ocupava a Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia, pasta responsável pela condução do processo, enquanto Rui Costa era governador. O passivo remanescente da Ebal permaneceu sob responsabilidade do Estado. Os dados oficiais disponíveis registram R$ 93,12 milhões empenhados e R$ 92,56 milhões efetivamente pagos.
O governo estadual não informou, nos dados apresentados, qual é o valor que ainda resta do passivo. A gestão de Jerônimo Rodrigues (PT), sucessor de Rui Costa, foi procurada para esclarecer a composição das dívidas e os pagamentos realizados.
Credcesta virou operação de consignado
A privatização também envolveu o Credcesta, cartão que originalmente atendia servidores públicos da Bahia para a compra de alimentos na rede Cesta do Povo. Após a venda da Ebal, o programa foi transformado em uma operação de crédito consignado.
Duas semanas depois da privatização, decretos estaduais ampliaram as funcionalidades do Credcesta e incluíram o produto no sistema de consignações em folha. Um relatório da CPI do Senado registra que a mudança criou uma base de clientes vinculada aos servidores públicos estaduais e permitiu a expansão da operação.
O programa passou posteriormente a ser operado pelo Banco Máxima, que mais tarde se tornou Banco Master. Segundo relatório do Senado, em 2019 Augusto Lima procurou uma instituição financeira para operacionalizar o Credcesta. Após uma tentativa com o BMG, fechou acordo com Daniel Vorcaro. Pelo negócio, Vorcaro adquiriu 50% do Credcesta por R$ 25 milhões, e a operação passou a ser conduzida por meio do Banco Voiter, ligado ao grupo Master.
A estrutura também ganhou relevância para a expansão do Banco Master no mercado de crédito consignado. Segundo levantamento da Folha, a privatização manteve exclusividade de 15 anos para a operação do cartão de benefício consignado destinado aos servidores estaduais.
Em 2022, o governo baiano também restringiu a portabilidade dos contratos do Credcesta. A medida preservou a exclusividade da operação em determinadas modalidades, enquanto outras linhas de crédito consignado permaneceram com possibilidade de transferência entre instituições.
Relação com o Banco Master
A trajetória do Credcesta passou a integrar as investigações sobre o Banco Master. O relatório da CPI do Senado descreve a operação como um dos pontos de conexão entre a privatização da Ebal, o mercado de crédito consignado e a expansão dos negócios de Daniel Vorcaro.
O caso também entrou no radar das investigações sobre as relações empresariais e políticas ligadas ao grupo Master. A existência dessas conexões, porém, não comprova, por si só, irregularidade na privatização da Ebal ou participação de agentes públicos em crimes.